Amaro Freitas na Casa da Criatividade: do Brasil para o mundo

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O pianista brasileiro Amaro Freitas apresentou-se ontem ao vivo na abertura do programa Novembro Jazz da Casa da Criatividade, em São João da Madeira. Este ciclo, que se estende até ao próximo dia 25 de Novembro, contará ainda com concertos de André Carvalho (dia 10), Mimi Froes (dia 11), Ricardo Toscano Quarteto (dia 18), Sónia Pinto (dia 19), Flauta Doce e os Sons de Arrepiar (espectáculo para crianças, dia 20) e, por último, Carlos Bica & Azul (dia 25). A abertura levou até ao antigo cinema convertido em sala de artes performativas um dos mais destacados nomes da actual cena jazz brasileira, um músico do Recife que concluiu ali uma digressão europeia de duas dezenas de datas que o levou a alguns dos mais relevantes festivais e salas do velho continente.

Acompanhado pelos certeiros Hugo Medeiros na bateria e Jean Elton no contrabaixo, Amaro Freitas mostrou-se naturalmente feliz por estar de volta a Portugal (passou por Espinho em Abril último) e colocou em palco toda a energia afinada pela vintena de concertos entretanto assinados. A sua alegria era visível e a energia que emanava cedo conquistou as cerca de duas centenas de pessoas que ali marcaram presença e que não se contiveram na hora dos aplausos.

É algo surpreendente, diga-se desde já, que o pianista que tantos e tão rasgados elogios tem conquistado no plano internacional, que ainda agora deu por si em estúdio em Londres na companhia de Shabaka Hutchings, Isaiah Collier e dos Blue Lab Beats, cujos dois últimos álbuns, Rasif (2018) e Sankofa (2021), mereceram críticas entusiasmadas por parte da imprensa especializada internacional e que agora se prepara para tocar na edição brasileira de um festival como o Primavera Sound, não tenha ainda conquistado espaço nas mais centrais (e visíveis) salas de Lisboa ou Porto. O que só sublinha a importância das mais aventureiras programações que vão acontecendo nas “periferias” destes pólos. Mérito, pois então, de quem decidiu levá-lo até estes públicos do Norte que assim puderam testemunhar um talento desmedido em absoluto topo de forma.

Passeando livremente por repertório dos seus três registos – os dois álbuns já mencionados e ainda o auto-editado trabalho de estreia, Sangue Negro (2016) – e com justificada atenção mais generosa às peças do recente Sankofa, Freitas desfilou classe, inventividade cromática, fluência elevada, rigor harmónico e exuberância rítmica numa musicalmente empolgante apresentação que, ainda assim, não esquece um lado mais lúdico, pensado para conquistar públicos que possam não estar tão familiarizados com o carácter mais exigente destas músicas livres. O que, no seu caso, no entanto, nunca significa cedência ou facilitismo: cada gesto de interacção com o público surge enquadrado por uma seriedade musical que nunca é questionada.

Os músicos que acompanham o pianista são, como não poda deixar de ser tendo em conta a sua classe, de primeiríssima divisão: Hugo Medeiros domina com fluência de mestre as intrincadas linguagens rítmicas do imenso manancial brasileiro, indo do boi ao frevo com pulso inventivo, entendendo que swing é coisa universal, mas nunca uma prisão dogmática; Jean Elton, por seu lado, mostrou-se sempre seguro, mas discreto, remetido a um segundo plano funcional, exigência certamente da amplitude do pianismo colocado no centro do espectáculo, apenas assinando o seu primeiro solo quando já mais de uma hora de espectáculo tinha decorrido, altura em que protagonizou uma espécie de duelo com Amaro Freitas que empolgou a plateia – um dos tais momentos de “show off” que o público acolhe sempre com grande entusiasmo, oportunidade que os músicos nunca enjeitam para colocarem em cima da mesa todos os seus “chops” técnicos que tantos anos hão-de, certamente, ter levado a aprimorar. Um divertimento que funcionou como uma espécie de escape já que a fasquia musical esteve sempre elevadíssima.

A arte de Amaro Freitas é ritmicamente complexa, exuberante até, e melodicamente poética. Tanto surge de amplas paisagens melódicas servidas por um entendimento inteligente do que Ed Motta costuma descrever, quando se refere à tradição brasileira, por “música de harmonia rica”, como mergulha em dissonâncias exigentes, nascidas de acordes contrastantes que nos mantêm na beira dos nossos assentos, esperando resoluções que às vezes só são tangencialmente apresentadas. E no plano rítmico vale tudo: velocidades e tempos impossíveis, numa espiral de crescente fantasia que tanto deve à tradição do pianismo jazz (de Monk a Tyner, de Hancock e Corea a Hamasyan) como a uma evidente formação clássica que estudou a fundo todos os cânones. A meio há um longo solo, com a secção rítmica fora do palco e Amaro Freitas debruçado sobre as cordas, dispondo molas de roupa (“pregadores”, como se diz no Brasil) que preparou previa e cuidadosamente com fita adesiva nas cordas de forma a abafar-lhes o brilho e  tornando-as mais percussivas. E nas suas mãos o piano transforma-se em ancestral tambor, uma ponte directa entre Olatunji e John Cage, entre África e o espaço. O solo durou uns bons 20 minutos e prendeu a atenção do primeiro ao último segundo. Freitas é, indubitavelmente, um artista de amplos recursos, capaz de com total pertinência citar peças do cânone clássico europeu enquanto resolve o solo de uma composição que pode nascer no folclore nordestino, mas sem nunca soar indulgente ou rendido apenas aos encantos da forma. A sua música apela ao espírito, tem profundidade, mas não esquece o corpo e a dança. Tudo serve, afinal de contas, para libertar.

No final do intenso concerto que se acercou das duas horas de duração, Amaro Freitas pegou no microfone, falou sobre a sua visita ao museu local de chapelaria, exibiu o elegante chapéu demasiado pequeno para o seu expansivo afro e recontou as histórias que aprendeu nessa visita de trabalhadores explorados nas agruras industriais de outros tempos. A eles dedicou uma composição nova ontem mesmo escrita, inspirada pela experiência museológica e logo ensaiada durante o soundcheck. Altamente rítmica, a peça parecia carregar o frémito das máquinas, soando quase como uma ilustração pianística de um velho filme mudo de Buster Keaton, com direito a elaborada interacção com a sempre segura secção rítmica. O tema pode ter sido composto e estreado ontem, mas o trio interpretou-o como se o tivesse tocado em todas as datas desta digressão, com total segurança e desenvoltura. Não há dúvidas: para chegar ao futuro, o jazz precisa de criadores assim.


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