Ana abriu a porta e voluntários recuperaram a casa. "Nem sonhava com isto"

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Reportagem

10 ago, 2022 - 07:44 • Liliana Carona

A pobreza habitacional afeta mais de 420 mil portugueses e mais de 50 mil destas pessoas vivem sem água canalizada, segundo o INE. A Just a Change, associação sem fins lucrativos fundada em 2012 com o propósito de reabilitar casas de pessoas carenciadas. Os voluntários estarão durante 12 dias em Fornos de Algodres para mudar a vida de Ana Maria e Paulo e querem chegar até ao final deste ano à marca de 400 casas reabilitadas.

Just a Change, quando o voluntariado revoluciona vidas - Reportagem de Liliana Carona
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Ligam as colunas de som ao telemóvel e começam a trabalhar cedo. Às primeiras horas da manhã, em Figueiró da Granja, o grupo de oito voluntários da Just a Change começa a meter mãos à obra. Esta associação sem fins lucrativos, com sede em Lisboa, reconstrói casas de pessoas carenciadas em Portugal.

Tem 17 pessoas a trabalhar a tempo inteiro, desde a contabilidade à área financeira, e abre inscrições anualmente para voluntários. Em Fornos de Algodres estão 21 voluntários para reabilitar duas casas, em 12 dias.

“Geralmente, os campos têm a duração de 15 dias, algumas vezes um mês. Estamos a dormir na residência de estudantes até ao dia 7 de agosto e as refeições levantamos na cantina da escola e na Santa Casa. Os materiais são de fornecedores de Fornos”, destaca Eduardo Lopes, 26 anos, diretor do campo de férias em Fornos de Algodres, onde estão a ser reabilitadas duas moradias.

Formado em gestão, Eduardo Lopes já colabora com a Just a Change desde 2017. “Esta casa foi-nos sinalizada pela câmara, falamos de uma família com dois filhos, que há muitos anos compraram esta quinta e não tiveram dinheiro para a acabar de construir”, recorda Eduardo Lopes.

Os voluntários vão, por exemplo, colocar isolamento térmico na parte exterior do edifício, pintar a casa toda, colocar massa em zonas onde não tinha e que ainda está em tijolo”, instalar uma “casa de banho nova e transformar a sala, cozinha e quarto, que estão juntos na mesma divisão”, observa, apontando outras fragilidades da moradia, localizada em Figueiró da Granja, concelho de Fornos de Algodres.

“Eles não têm água quente, quando chegámos tinham o poço seco, tivemos de pedir água. Eles têm uma fossa, não havendo rede de esgotos, têm de a esvaziar. Mas esse é um problema estrutural. Ainda há muitas situações assim, em 2021 fizemos 18 casas de banho de raiz, em que em muitas delas, tomavam banho num balde com um copo, mas falamos de zonas rurais e de zonas urbanas, por exemplo no centro do Porto, pessoas que vivem sem água quente”, lamenta o responsável.

“Um quarto das casas reabilitadas têm problemas de saneamento”

Desde que iniciaram a associação de voluntariado que já reabilitaram 300 casas e o objetivo é chegar às 100 casas recuperadas este ano, para totalizar o número de 400 moradias.

“Entre julho e setembro vamos fazer 20 campos de verão. Num quarto das casas temos de resolver questões de saneamento. Em 100 casas, 20, 25 delas não têm saneamento básico”, insiste Eduardo Lopes.

E como é que as obras são financiadas? “A Fundação Manuel António da Mota, da empresa de construção Mota-Engil, é o principal financiador, são parceiros há muito tempo (desde 2016). E estão a financiar este projeto, fazemos o orçamento e apresentamos as intervenções”, declara o diretor do campo.

Em Figueiró da Granja há 28 casas sem ligação à rede de esgotos. A casa de Ana Maria, 50 anos, e do marido Paulo Albuquerque, 55 anos, é uma delas, não tem saneamento básico e o dinheiro não chega para tudo. Com problemas de saúde graves e com o empréstimo da casa, cuja mensalidade continua a pagar (130 euros), fizeram apenas a estrutura.

“E assim ficou, mas agora fico muito feliz. Não sonhava com isto. Não estava a contar”, diz comovido Paulo. Ana Maria considera que “foi uma surpresa. A cozinha só tinha um lavatório, não tinha condições”, retrata.

Beneficiários do Rendimento Social de Inserção, recebem, cada um, o valor de 188 euros mensais. “Ainda faltam dois anos para acabar de pagar a casa, já lá vão quase 30 anos. Temos a luz, alimentação, medicamentos. Eu chego ao fim do mês e não sei se vou pagar as minhas despesas ou se vou comer, se não fosse o meu filho na Suíça a ajudar, não sei como seria”, desabafa Ana Maria.

Voluntários de todo o lado, até do estrangeiro

O casal de moradores de Figueiró da Granja não estava a contar com uma casa com visual novo, mas o mestre de obras, Rogério Moreira, 48 anos, que foi de Amarante para Fornos de Algodres para ajudar e orientar os voluntários da Just a Change, não tem dúvidas de que em 12 dias, vai entregar a chave.

“Estou a ajudar os voluntários, e a explicar como se faz o trabalho e está a correr muito bem, trabalham muitas horas. É um orgulho trabalhar com estas alunas”. As alunas são voluntárias como Filipa Fernandes, de 20 anos, que veio de Braga para Fornos de Algodres.

É a primeira vez como voluntária da Just a Change. Já tinha tentado outros anos, mas a procura elevada deixou-a de fora. “Tentei no ano passado, mas não consegui, eles têm muita gente a querer participar”, conta Filipa, que está a pôr cimento nas paredes.

“Já pusemos na casa de banho, e estamos a dar a volta à casa. É agarrar na massa, temos uma talocha, e uma colher de pedreiro, estou a familiarizar-me com os nomes”, confidencia a estudante de bioengenharia da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, admitindo que “nunca tinha feito isto”.

Mais habituado está o arquiteto Diogo Rodrigues, de 32 anos, natural de Lisboa, que entrou no ano passado nos campos de verão.

“Sou coordenador de obra, faço a ponte entre todos. Sempre quis fazer voluntariado, faço o melhor de dois mundos, aprendo e estou a ajudar pessoas que vivem abaixo das condições mínimas”, refere.

E de Lisboa também Dalton Gomes, 19 anos, saiu em direção a Fornos de Algodres. Natural de São Tomé e Príncipe, não quer ficar parado. “Quis ajudar, fazer voluntariado. É mudar a vida de uma pessoa, atrai-me, sinto-me um trabalhador, sinto-me bem, não estou parado”, conclui.

E há voluntários internacionais, oriundos da Eslováquia, Itália e Espanha. Inazio Aizpuru, 24 anos, veio do País Basco para ajudar a reconstruir casas.

“Estou a ajudar o chefe de obra, aprendendo, gosto de estar aqui, estou a tentar aprender o idioma. Se me concentro consigo fazer. Escutei na universidade que estavam a fazer estes campos, disseram-me que eu era louco em vir sozinho, mas vim”, assume.

Eduardo Lopes, o diretor do campo de férias, em Fornos de Algodres, confirma a procura. "Temos voluntários internacionais e temos muita procura, mais de 1.500 pessoas a inscrever-se e ficam em fila de espera, estudantes internacionais. Muitas vezes não sabem que vão trabalhar tanto, mas acabam integrados”, graceja.

Autarca pede apoio do governo para saneamento

Enquanto as paredes vão ganhando cor, pela mão dos voluntários, o presidente da Câmara de Fornos de Algodres, Manuel Fonseca, que visita as obras, sorri, mas sem deixar de lamentar um Interior de dificuldades.

“Estamos muito gratos a este conjunto de jovens e que serve de exemplo. Disponibilizamos alojamento, alimentação de maneira que estes jovens possam ter as condições necessárias durante estas duas semanas, mas vivemos num território com muitas dificuldades, e temos de aproveitar todas estas iniciativas”, sublinha o autarca, realçando o problema do saneamento básico.

“Nós queríamos que houvesse esgotos para toda a gente, até pela questão ambiental. Queríamos que todas as residências estivessem ligas ao saneamento básico e neste momento não é possível. Esperamos que o governo nos ajude no próximo quadro comunitário de apoio, porque sei que no PRR- Plano de Recuperação e Resiliência, não vai ser possível. Municípios como o nosso, é necessário que haja apoios do governo. A primeira geração de saneamento foi na década de 80, neste momento alguns saneamentos estão caducos. Não é possível com o FEF - Fundo de Equilíbrio Financeiro, não chega a 6 milhões de euros o que recebemos, fazer face a isso e com a dívida da câmara de 24 milhões de euros, que já era anterior à minha chegada... (em 2013 eram 34 milhões)”, relembra o autarca.

Álvaro Santos, presidente da junta de Figueiró da Granja, localidade com 386 habitantes, revela que “a parte alta da freguesia ainda não está ligada à rede de esgotos. São 28 casas sem esgotos. A rede está feita, mas parou no ribeiro, não liga à ETAR. Há mais casas com pobreza habitacional, pelo menos mais duas famílias”, nota.

Casa pronta, chave na mão, os voluntários da Just a Change preparam o arraial de despedida. Ali à porta de casa de Paulo e Ana Maria só falta um pormenor.

“Fazemos sempre um arraial no último dia do campo para comemorar com os voluntários, com quem acabamos por criar uma relação muito grande. Colocamos um logotipo (azulejo) da nossa associação, e fica uma marca para não se esquecerem de nós”, realça Eduardo Lopes, o diretor do campo.

A Just a Change surgiu em 2012, por um grupo de amigos que decidiu pegar numa guitarra e ir tocar para as ruas de Lisboa e angariar dinheiro.

Acabaram por conhecer um senhor que precisava pintar a casa, e passado 10 anos, são uma organização que quer combater a pobreza habitacional, renovando as casas das pessoas e reconstruindo a vida delas.

“As pessoas não se sentem confortáveis em casa, têm vergonha de mostrar a casa e esse é o nosso objetivo. Temos um trabalho de medição de impacto, após um ano voltamos cá. Temos visto que 64% das pessoas dizem que no ano após a intervenção se sentem menos doentes e isso deixa-nos muito felizes e 60% das pessoas dizem que a vida social delas mudou, pois tinham vergonha de chamar vizinhos ou família. E isso é o que nos dá energia, depois de 8 horas a trabalhar com este calor”, desabafa.

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