Anthony Joseph: “O poeta tem uma forma mágica de usar a palavra — e potencialmente perigosa”

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Natural de Trinidad, Anthony Joseph é uma voz activa no plano cltural britânico já há muito: poeta, escritor e músico, Joseph também ensina escrita criativa no King’s College em Londres e possui no seu currículo múltiplas colaborações com artistas como Archie Shepp, Keziah Jones, Joseph Bowie, Laurent Garnier, Mop Mop, Brzzvll ou Osunlade. À frente da The Spasm Band lançou três álbuns de originais entre 2007 e 2011 e ainda, um par de anos depois, um álbum ao vivo registado em Bremen.

Time, o primeiro disco que lançou em nome próprio na Heavenly Sweetness, contou com produção de Meshell Ndgeocello. Desde então lançou mais três álbuns, incluindo People of the Sun em 2018. O seu mais ambicioso projecto, no entanto, é sem dúvida The Rich Are Only Defeated When Running For Their Lives, álbum para o qual reuniu uma assinalável equipa — onde se inclui Shabaka Hutchings — e que deve o seu título a uma passagem do livro do escritor, filósofo, historiador e ativista socialista de Trinidad e Tobago, C.L.R James, sobre a revolução haitiana, The Black Jacobins (1938).

Essa consciência cultural, de homem negro comprometido com o pensamento e a experiência caribenha, marca a arte de Anthony Joseph e a sua vívida entrega às palavras que, como ele mesmo admite, é o resultado de um continuum longo de poetas-griot que sempre colocaram as consciências ao serviço da música, de Amiri Baraka e The Last Poets a Saul Williams ou Ursula Rucker.

A conversa com Joseph decorreu via Zoom, com o poeta-griot a surgir do lado de lá do ecrã em frente a uma vasta colecção de discos, com vários títulos clássicos de jazz expostos em destaque.

Antony Joseph apresenta-se ao vivo amanhã, dia 14 de Junho, no Teatro Aveirense — em Aveiro, claro — como parte do programa New Deal of Arts and Democracy.



Há muito que se debate a diferença entre letras de canções e poemas. Dado que estou a falar com alguém que escreve para música e também faz poesia, diria que é a pessoa perfeita para colocar esta questão: vê diferença entre a palavra escrita para ficar numa página e aquela que é escrita para ser acompanhada por música?

Sim, eu diria que existe diferença. Creio que quando um liricista escreve especificamente para a música, a letra torna-se num componente de algo maior. Então essa letra é parte de um todo, que é a canção. Portanto, vive de uma voz, de vários instrumentistas e de uma letra. A letra é uma parte desse todo. Um liricista vai procurar encaixar as melodias e os ritmos nas letras. Mas quando se escreve poesia faz-se tudo a sós. É muito mais fruto de ti e da tua visão e não tens de trabalhar em colaboração com mais ninguém. Essa é a diferença. E existe uma pressão muito menor no poeta para tornar o seu trabalho acessível. Tu podes correr muito mais riscos e tentar usar mais truques linguísticos do que quando escreves para uma canção. Porque as letras das músicas têm de percorrer o mundo. Tipicamente, uma música pode ter um alcance muito maior do que um poema ou um livro. Existe esta ideia de tornar as letras acessíveis, mais claras para as pessoas. Por isso sim, existem diferenças. Para mim, que sou poeta, tento manter a integridade dos poemas dentro da música. Então não me permito ter muitas concessões em termos de como escrevo para uma página ou para uma canção. Ambas as formas são muito semelhantes para mim, porque eu não sou cantor.

Mas concorda que a própria palavra escrita possa ter música dentro de si? Às vezes lemos coisas em voz alta e as palavras parece que nos sugerem uma certa melodia e até ritmos e cadências.

Claro que sim. A poesia é uma espécie de música falada. A poesia vem da canção, é uma forma musical de usar as palavras para cantar os nossos sentimentos e tudo mais. A poesia é parte da tradição da música. Só que ela tornou-se… É claro que, com a história da poesia e a invenção da imprensa escrita, ela passou para os livros. Então o poema passou a ser uma cena, algo que se separou da sua origem, que era oral, mas que agora se pode ler também. Existem diferenças, mas na sua alma ainda existe o que chamamos de eufonia — a beleza do som.

Ao falar disso, lembra-me que existe toda uma grande linhagem de poesia declamada por Amiri Baraka, The Last Poets, Linton Kwesi Johnson. Saul Williams… Vê-se como parte deste continuum?

Claro que sim. Absolutamente. Eu andei aos ombros dessa gente toda [risos]. Eu pertenço a essa linhagem, mas também faço parte de uma constelação de artistas ainda mais ampla, das Caraíbas. Sou parte do continuum calipsoniano, parte do continuum do rapso, de artistas como Brother Resistance e assim. Mutabaruka, poesia de dub… Nós estamos todos conectados de alguma forma, porque todas as pessoas que vêm desse background do racismo, da escravatura e tudo mais, respondem a essa condição de diferentes maneiras através da sua escrita. Nós tornámo-nos nos historiadores, nos contadores de verdades do povo. Por isso, acho que sim, que estamos todos nesta mesma missão. Muitos desses nomes que citou eu conheço — ou conheci — pessoalmente, sabe? O Linton Kwesi Johnson é um grande amigo meu. Conheci pessoalmente um dos últimos verdadeiros Last Poets antes de morrer. Sinto-me mesmo parte dessa linha. Nunca conheci o Amiri Baraka, mas já me cruzei com muitas outras pessoas.

Eu diria que a palavra é a mais importante invenção da humanidade. Palavras podem fazer ruir ou ajudar a criar impérios. Como é que se sente ao lidar com uma ferramenta tão poderosa ao nível da expressão?

Acho que os poetas têm uma grande responsabilidade. Nós temos de ter muito cuidado a usar a linguagem. Eu aprendi muito cedo na minha carreira que o meu trabalho nunca poderia servir de arma contra alguém. A palavra é uma ferramenta que não deve ser usada de forma maliciosa. Eu gosto de contar as verdades, mas não gosto de magoar ninguém. Mas isto sou eu. Estou certo que outros escritores terão a sua própria visão sobre o tema. Há quem seja muito mais militante, combativo, violento, revolucionário… O que também é bom, se é mesmo isso que a pessoa quer fazer. Mas eu acho que a palavra é mesmo muito importante. E é interessante, porque a matéria que o poeta usa — a palavra — é utilizada por todas as outras pessoas. Só que o poeta tem uma forma mágica de a usar, potencialmente perigosa. O pintor é a mesma coisa: ele usa cores e junta-as de forma a que nos afecte, e as cores fazem parte do nosso dia-a-dia e estão em todo o lado. É essa a magia dos artistas.

Tenho a dizer que adorei o The Rich Are Only Defeated When Running For Their Lives. Achei-o um disco espantoso, com letras e sons maravilhosos. Como é que foi reunir a banda para este trabalho? Só de olhar para a formação, sente-se que é um projecto bastante ambicioso.

Sim. Mas não sei… Não creio que tenha algum segredo quanto a isso. Tem a ver com o ir trabalhando com as pessoas durante um longo período de tempo. As coisas começam a alinhar-se num momento particular, até que: “Vamos lá fazer este disco. Este é o momento.” A banda de que você fala… Esta é a banda mais competente que alguma vez tive. Tem o Rod Youngs na bateria, que é um baterista fabuloso que tocou com o Gil Scott-Heron durante 10 anos. O Jason Yarde, que é um incrível músico e compositor inglês. O Andrew John é um grande baixista que conheço desde 1991 — nunca trabalhei com outro se não ele. Este alinhamento foi mágico. Mas ele vai mudando de álbum para álbum. No início, eu trabalhava com um grupo mais pequeno de músicos, a The Spasm Band. Fizemos três discos sempre com a mesma formação. Depois os projectos tornaram-se maiores, as editoras começaram a investir mais dinheiro na produção dos trabalhos e isso permitiu-me trazer, sei lá… O Shabaka Hutchings, por exemplo, já participou em alguns álbuns. O Roger Raspail, de Paris… Temos muitos convidados diferentes, então o som vai ficando cada vez maior, e maior — e mais ambicioso. Eu apenas tento facilitar as coisas, ao invés de me meter no caminho delas. As coisas acontecem de forma mágica.

Como é que funciona o processo? Já leva os textos consigo para as sessões e decide como encaixa-los na música? Ou acontece tudo em simultâneo?

Por vezes é assim. O que eu quis para este álbum foi que ele me fizesse lembrar os discos que fiz com The Spasm Band, em que íamos para estúdio fazer jams apenas para ver o que saía de lá, depois arranjar as letras… Aquela coisa de estar uns meses a trabalhar em algo antes de finalmente ir para estúdio. Eu queria voltar a isso. Chegámos a uma altura em que parece que as pessoas produzem demos e mas enviam, para depois irmos a estúdio. Eu queria voltar a trabalhar de forma orgânica. Então marcámos algumas sessões apenas para jams, para criar, e daí vieram ideias que ficaram gravadas. O Jason e mais alguns dos rapazes da banda pegaram nessas gravações, levaram-nas para casa e criaram arranjos a partir daí. Mas fomos sempre trabalhando todos juntos, por isso a música é muito orgânica, veio de uma cena colectiva, depois com a mente brilhante do Jason na parte dos arranjos. Foi assim que aconteceu. Tivemos apenas três dias em estúdio, mas a malta estava preparada e todos sabiam o que tinham a fazer. E assim foi.

Depois disso ainda enviou a música a outros produtores de remisturas, que a levaram a transformar-se em algo novo. Presumo que seja adepto da cultura dos remixes, caso contrário não os teria encomendado. Mas como é que reage quando recebe uma nova versão para algo que já tinha feito e que leva as suas palavras para outro lado quaisquer?

Na verdade, eu não sou grande entusiasta dessa cultura das remisturas. Foram muito poucas as que eu já pedi para fazer. Uma delas é do Kaidi Tatham, uma espécie de maestro do broken beat que fez uma remistura maravilhosa para um dos temas deste disco. O Osunlade Yoruba também já fez um remix de uma música minha há uns anos. Mas não é uma coisa em que aposte, não é muito a minha cena. Agora, a mistura do álbum, isso já acaba por ser uma colaboração minha com quem está a misturar e a produzir comigo. Temos os ficheiros actualizados diariamente e fazemos as coisas de modo a estarmos todos de acordo. Mas os remixes… Não são muito a minha cena [risos].

Fale-me da banda que traz consigo para o concerto em Portugal. Como é que as coisas vão funcionar em palco?

Cada álbum representa uma regeneração. A banda contém alguns músicos com quem trabalho há muitos, muitos anos, mas também outros rostos novos que vão integrando o projecto durante períodos de dois ou três anos — alguns voltam para colaborar no álbum seguinte, mas depois voltam a rodar. Este processo é lindo. Mas tenho uma rede de músicos muito próximos. Tenho sempre alguém com quem trabalhei no passado a quem posso ligar, seja para ajudar num disco ou num espectáculo. É um colectivo que se regenera. Mas para Portugal vou levar o Rod Youngs na bateria, que também trabalhou no disco — já toco com ele há cinco ou seis anos, muito tempo. Ele é um dos melhores, na minha opinião. Tenho o Andrew no baixo, que está comigo desde o dia um — desde 1991, como disse. Levo o Colin Webster, um saxofonista que é brilhante e também está comigo desde o início. Tenho um gajo novo, teclista, chamado Renato Paris. É um jovem espantoso que está a tocar comigo pela primeira vez. E ainda há o Thibaut Remy, guitarrista com quem já trabalho há sete ou oito anos. Todos eles grandes músicos. Eu não os escolho pela sua técnica, mas sim por serem bons seres humanos. Para mim, é assim que tudo funciona. Eu vou sempre preferir trabalhar com aquela pessoa que pode não ser a melhor executante do mundo, mas que é muito fiel e profissional.

Estou a ver atrás de si alguns discos de que gosto muito. Vejo Horace Silver Quintet, Pete La Roca… Tem grandes discos aí, deduzo que seja um coleccionador.

Sou sim!

Eu vejo uma colecção de discos como um depósito de memórias. Nós estamos a manter arquivos de todos os grandes nomes que andaram por aqui. Acho isso uma coisa muito bonita.

E é, sem dúvida.

Tenho só mais uma questão para si. O seu concerto em Aveiro acontece num momento em que o nosso Presidente, muito recentemente, iniciou um debate sobre se Portugal deve reparações aos países afectados por todo o mal causado durante o período colonialista. Houve até esta segunda-feira, que foi feriado nacional, uma manifestação fascista junto a um monumento que faz alusão aos nossos “descobrimentos”. Isso gerou confrontos com alguns anti-fascistas que também lá estavam. Portanto, nesta questão, nós estamos muito atrás de outros países que já iniciaram esse debate há mais tempo. Você há pouco mencionou não querer usar as suas palavras para magoar, mas será que as palavras não devem também ferir, se isso ajudar as pessoas a encarar os seus próprios traumas?

É um bom ponto. Eu quando disse que não usaria as palavras para magoar ninguém, falei a um nível mais pessoal, de uma pessoa para a outra. Olhando para a história e o estado das coisas… Claro que sim! Há via aberta para isso. Temos de usar os dentes da democracia. Temos de usar as palavras. A tradição dos The Last Poets, do calipso e tudo mais, está toda assente nisso. Chamo a isso um impulso revolucionário. Mas isso não é direccionado a uma só pessoa. Não será um ataque meu a alguém a um nível pessoal, que já é outra coisa completamente diferente. Eu posso atacar o modo como a história nos é pintada, os fascistas enquanto grupo… Isso eu acho que é necessário. Parte da responsabilidade de se ser um poeta negro é a de termos de carregar aquele peso de… Temos de ter o impulso revolucionário. Caso contrário… Temos tantas coisas apontadas contra nós, sabe? Estamos inseridos num sistema que não foi construído para nós, então não temos escolha.


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