As nossas reformas e o capitalismo

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Nos últimos dias, a esquerda francesa e os seus sindicatos levaram à rua um milhão de trabalhadores para lutarem contra a tentativa do Presidente Macron de aumentar a idade da reforma de 62 para 64 anos.

A direita veio defender, como principal argumento, que se a esperança média de vida sobe e a população diminui, então o aumento da idade legal da reforma é algo necessário para que o sistema continue a funcionar. Primeiro de tudo, particularizando o caso noticiado, a população não diminui como tanto veiculam: o crescimento populacional é positivo. Não é tão alto como há 20 anos, é certo, mas continua acima de zero. Por outro lado, a direita esquece que analisar a qualidade de vida das pessoas apenas pelo número de anos vividos, em média, é por si uma análise mais que insuficiente.

Segundo dados reunidos pela Pordata, em França, um cidadão possui em média 64 64 anos de vida saudável à nascença. Ou seja, vamos tirar o pouco tempo de qualidade de vida que resta a estes seniores. Não obstante, o argumento degenera numa alegada escassez de mão-de-obra e de contribuições para a economia. No fundo, a justificação é que vai faltar dinheiro para a Segurança Social e para o resto do aparelho do Estado. Mas não é então curioso que Emmanuel Macron, poucos dias após anunciar o aumento da idade para reforma, queira aumentar o orçamento militar francês em um terço, cerca de 118 mil milhões de euros, até 2030?

A pergunta que se deve fazer então a Emmanuel Macron é: se este é o destino dos tão preciosos e escassos fundos do Estado Social francês. As críticas a este aumento da idade da reforma, como à mudança do sistema de pensões, são abrangentes, contagiando economistas como Thomas Piketty, que acusam o futuro sistema de ser pago pelos mais “modestos”. É importante lembrarmo-nos do legado de Mitterrand e da sua luta quando em 1982 implementou a descida da idade da reforma para 60 anos.

Deste modo, o que falta na análise dos liberais é verem que isto não é um problema intergeracional, mas, fundamentalmente, um problema de classe. Devemos questionar-nos que sistema é este que obriga os nossos pais e avós a trabalhar uma vida inteira, enquanto bilionários vão ao espaço por diversão. Temos um grupo de pessoas que acumula em si um número infindável de riqueza, mas o que é preciso é ter pessoas “normais” a trabalhar até mais de 60 anos? Não dá para ver que é um problema fundamental e sistémico e não apenas intergeracional?

A automação seria uma boa resposta, em parte, para o problema futuro da estagnação populacional mundial, mas por si só não resolverá o problema da acumulação de riqueza. A luta por um sistema que defenda valores como a igualdade, liberdade, fraternidade e justiça social não pode ser esquecido pela esquerda. A resistência política contra um sistema que prioriza constantemente o lucro em detrimento da qualidade de vida das pessoas é em si uma luta moral e necessária. Deste modo, não temos que nos cingir ao modelo capitalista. O socialismo democrático defendido por Eduard Bernstein, Willy Brandt, Olof Palme e muitas outras personalidades da esquerda reformista, que ao contrário do sistema actual, vê a dignidade humana não como secundária ao lucro, mas como um antecedente para este. Partidos como o PS têm que revitalizar estes ideais, que em tempos defendia, se queremos ver-nos livres da exploração e viver uma vida digna para todos e não só para alguns.

Em conclusão, creio que o caminho para o futuro se resume em aumentar ao máximo a produtividade da economia para que se consiga gerar mais receita com menos trabalho, ou por outras palavras, automatizar, taxar e redistribuir. Isto só será possível com a mobilização da esquerda para lutar contra a tendência crescente da comodificação das pessoas e do trabalho. Tanto usando greves, como a democracia parlamentar, é nosso dever resistir e reivindicar mais direitos, por um sistema mais justo.

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