"Atiraram-no à água". Guarda costeira grega acusada de causar a morte de migrantes

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Terão sido 43 as pessoas a morrer após serem forçadas a sair das águas territoriais gregas entre maio de 2020 e 2023, segundo a estação britânica. Algumas delas ainda estavam em embarcações quando foram encontradas pela guarda costeira, enquanto outras já tinham alcançado ilhas gregas e foram obrigadas a regressar ao mar.

Um dos migrantes ouvidos, natural dos Camarões, explicou que foi perseguido por guardas quando, em setembro de 2021, chegou à ilha grega de Samos com a intenção de se registar como requerente de asilo.

"Ainda mal tínhamos atracado e a polícia apareceu por trás", contou. "Eram dois polícias vestidos de preto e três outros em trajes civis. Estavam mascarados, só se viam os olhos".

Este homem estava acompanhado por dois outros, um também dos Camarões e outro da Costa do Marfim. “A polícia começou a discutir com um deles. Atiraram-no à água. Depois o outro disse ‘salvem-me, não quero morrer’. Mas atiraram-no e afundou-se, as águas envolveram-no”, relatou à BBC o migrante, que disse ter sido espancado e atirado igualmente à água, mas conseguido nadar até à costa.

Os corpos dos dois outros homens, Sidy Keita e Didier Martial Kouamou Nana, foram recuperados pela guarda costeira turca.

A BBC mostrou a um antigo membro da guarda costeira da Grécia vídeos de 12 pessoas a entrarem numa embarcação das autoridades e a serem depois aparentemente largadas ao abandono num pequeno barco. Para este ex-guarda, o ato é "obviamente ilegal" e "um crime internacional".

Grécia rejeita acusações
Há muito que o Governo grego é acusado de regressos forçados de migrantes, nomeadamente de forçar pessoas a voltar para a Turquia, o que é ilegal à luz do direito internacional. Nunca foram, porém, conhecidos oficialmente números acerca de mortes de migrantes como consequência dessas ações.

A investigação da BBC, que surge no novo documentário “Dead Calm: Killing in the Med?” (“Calmaria: Matar no Mediterrâneo?”), baseou-se em testemunhas, imprensa local, organizações não-governamentais e na guarda costeira turca.

Em cinco dos 15 incidentes analisados, os migrantes disseram ter sido atirados ao mar pelas autoridades. Em quatro desses casos, já se encontravam em terra, nas ilhas gregas, quando foram encontrados e obrigados a regressar ao Mediterrâneo.

Vários outros migrantes contaram que foram colocados em embarcações insufláveis sem motor que, já no mar, se esvaziaram, com algumas a aparentarem terem sido furadas.

A BBC revelou às autoridades gregas as descobertas, mas estas responderam que a sua equipa trabalha “incansavelmente com o maior profissionalismo, um forte sentido de responsabilidade e respeito pela vida humana e pelos direitos fundamentais”, negando todas as acusações.

A Grécia é a porta de entrada de muitos migrantes para a Europa. Em 2023, este país recebeu 16 por cento das mais de 263 mil chegadas destas pessoas ao continente.

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