Atividade física e transtorno do espectro autista

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Nos últimos anos, a atividade física tem vindo a receber maior atenção como potencial recurso terapêutico para pessoas – em particular crianças e adolescentes – com transtorno do espectro autista.

Artigo da responsabilidade do Prof. Sérgio Machado Neurocientista. Licenciado em Educação Física; Ph.D. em Saúde Mental – Universidade Federal do Rio de Janeiro; Ph.D. em Ciências do Desporto – Universidade da Beira Interior; fundador e diretor técnico do Instituto Neurodiversidade (Rio de Janeiro, Brasil)

O transtorno do espectro autista (TEA) é um transtorno do neurodesenvolvimento, caracterizado por um quadro extremamente complexo de défices consistentes na comunicação social e na interação social em múltiplos contextos, bem como por padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades.

De acordo com o estudo epidemiológico “Prevalence of Autism Spectrum Disorder Among Children and Adolescents in the United States from 2019 to 2020”, publicado recentemente na revista JAMA Pediatrics, 1 em cada 30 indivíduos com idade entre 3 e 17 anos está no espectro autista. Esse número é 32% maior que a última estatística de prevalência publicada pelo Center for Disease Control and Prevention (CDC) dos Estados Unidos da América, que era de 1 a cada 44 pessoas na mesma faixa etária.

POTENCIAL RECURSO TERAPÊUTICO

Levando em consideração esse aumento do número de pessoas diagnosticadas com TEA, é extremamente importante a adoção de estratégias terapêuticas eficazes para combater as comorbidades comummente observadas no TEA.

Cada vez mais esses indivíduos estão a chegar a todos os setores da sociedade, e a saúde é um desses setores. Contudo, apenas nos últimos anos é que a atividade física vem recebendo maior atenção como potencial recurso terapêutico para pessoas com TEA.

Nos últimos anos, estudos vêm mostrando que o sobrepeso, a obesidade e a inatividade física têm atingido maiores taxas em indivíduos com TEA do que na população geral. Em especial, as crianças com TEA estão muito abaixo dos níveis de atividade física recomendados pela OMS, em grande parte devido a problemas com dificuldade social, regulação emocional e habilidades motoras abaixo do ideal.

BARREIRAS PARA A PRÁTICA DE ATIVIDADE FÍSICA

As taxas mais altas de sobrepeso, obesidade e inatividade física em crianças e adolescentes com TEA podem ser atribuídas a uma série de fatores que vão desde estimulação sensorial e ansiedade social até mesmo barreiras físicas. Outros fatores que podem influenciar são o tratamento psicofarmacológico, genética, sono e padrões alimentares atípicos, assim como deficiência intelectual grave.

Habilidades motoras atrasadas parecem afetar fortemente a prática de atividade física no TEA, por exemplo, dificuldades na coordenação mão-olho, perceção e equilíbrio. Além disso, crianças com TEA também exibem défices posturais, motores e de força. Esses défices podem ser frustrantes para a criança/adolescente, enquanto ela tenta acompanhar os seus colegas nas atividades físicas. A criança pode ficar para trás ao participar em atividades de grupo, por causa da concorrência ou natureza das atividades.

Situações e ambientes que exigem compreensão social ou que a falta de estrutura pode ser muito desafiadora podem levar ao isolamento, explosões, depressão e níveis mais elevados de stress para a criança/adolescente com TEA.

Atividades físicas e desportos ou brincadeiras organizadas, geralmente, apresentam cenários mais difíceis para crianças/adolescentes com TEA, resultando em participação reduzida. Da mesma forma, crianças/adolescentes com TEA que interagem com menos frequência com os seus pares também são menos fisicamente ativas. Além disso, podem ter dificuldades em seguir regras específicas nas atividades, especialmente ao aprender uma nova atividade; na manutenção do ritmo de jogo e na forma como os papéis dos jogadores podem mudar ao longo do jogo; ou na interpretação e resposta a vários métodos de comunicação usados pelos colegas (por exemplo, movimentos das mãos, sinais, comemorações).

BENEFÍCIOS DA ATIVIDADE FÍSICA

A atividade física para crianças/adolescentes com TEA contribui para melhorias comportamentais. Por exemplo, um estudo mostrou que o exercício de corrida levou a diminuições em comportamentos desadaptativos e aumento da autoeficácia por aproximadamente 40 minutos após o exercício. Além disso, o uso de videojogos ativos também diminui os comportamentos repetitivos. Portanto, o exercício pode não apenas fornecer benefícios gerais à saúde e bem-estar, mas também melhorar os comportamentos indesejáveis ​​exibidos pelas crianças/adolescentes com TEA.

Melhorias no estado atencional, comportamento social e aprendizagem também foram demonstradas nas crianças/adolescentes com TEA após a prática de atividade física. Correr durante 45 minutos promove um efeito positivo na atenção e controle inibitório das crianças com TEA por um período de duas horas pós-exercício. Melhorias também são observadas no desempenho escolar e no comportamento em sala de aula.

Outro estudo mostrou que um programa de exercícios em esteira diminuiu o índice de massa corporal de indivíduos com TEA. Por último, foi observado num estudo que 20 semanas de um programa de equitação melhorou a proficiência motora e funções integrativas sensoriais das crianças com TEA.

ESTRATÉGIAS PARA IMPLEMENTAR A PRÁTICA

Pesquisas indicam que crianças/adolescentes com TEA, assim como os seus pares sem deficiência, gastam significativamente menos tempo em atividades físicas de intensidade moderada, em comparação a atividades sedentárias. Portanto, é de extrema importância o envolvimento das crianças/adolescentes com TEA numa variedade de jogos, desportos e exercícios físicos que envolvam habilidades motoras. Para isso, existem diferentes estratégias pedagógicas.

Uso de histórias na preparação das atividades físicas

Usar uma história antes da aula com crianças/adolescentes com TEA ajudá-los-á a saber o que esperar da aula, ambiente e professor. A história pode ser lida para, com ou pelas crianças/adolescentes. Por exemplo, o professor pode criar uma história usando uma forma visual de comunicação, como o sistema de comunicação de troca de imagens. A história é, então, enviada às crianças/adolescentes para que a possam ler antes das atividades físicas. O professor também pode fornecer às crianças/adolescentes um ou dois equipamentos que representam as atividades, juntamente com orientações para como praticar uma habilidade motora usando o equipamento. A criança/adolescente pode praticar a habilidade motora antes da atividade física. Esta abordagem orienta as crianças/adolescentes para o que a vai ocorrer, proporcionando uma continuidade reconfortante e previsível com relação às atividades que serão realizadas.

Preparação do ambiente

O ambiente deve ser preparado com antecedência para que as crianças/adolescentes com TEA enfrentem os desafios sensoriais, para promover a comunicação e a prevenção de comportamentos desafiadores. Suportes visuais podem ser muito úteis e podem incluir, por exemplo, um relógio grande pendurado na parede, colocando um grande cronómetro num lugar de destaque, postando transições das atividades físicas onde a criança/adolescente possa vê-las à distância, designando limites para todas as partes dessas atividades, e pré-selecionar o equipamento a ser usado com uma cor única para aquela criança/adolescente ou para a equipa da mesma. Em combinação, essas estratégias fornecem previsibilidade, o que ajuda a reduzir a ansiedade e a preparar os alunos para cenários rotineiros.

Adaptação das atividades físicas

O nível de desenvolvimento e aprendizagem, assim como o nível de suporte da criança/adolescente com TEA devem ser respeitados. Um ambiente físico “seguro” para as atividades torna-se necessário quando as atividades se tornam muito exigentes.

Atividades seguras e estratégias de ensino incluem o foco em atividades físicas individuais, limitando os desportos coletivos; atribuindo equipas em vez de permitir a seleção por pares; fornecendo feedback positivo constante, usando linguagem explícita e concreta ao dar direções, usando atividades ou abordagens pedagógicas que precisam apenas de pistas sociais mínimas para uma implementação bem sucedida; e usando restrições individuais, ambientais e de tarefas para individualizar lições apropriadas ao desenvolvimento.

É importante avaliar continuamente, não apenas a progressão da habilidade motora da criança/adolescente com TEA, mas também sua progressão de desenvolvimento, permitindo mudanças de estratégias nas atividades.

Leia o artigo completo na edição de outubro 2022 (nº 331)

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