Ava Mendoza e João Lencastre’s Communion no Jazz em Agosto 2022: invenções & dimensões

1 mes atrás 34

Fotografia: Vera Marmelo

Publicado a: 07/08/2022

Discursos múltiplos.

Fotografia: Vera Marmelo

Publicado a: 07/08/2022

Antes de lançar em 2021 o álbum New Spells, a feiticeira da guitarra Ava Mendoza deixou o seu nome em créditos de trabalhos de William Parker (tocou no excelente Mayan Space Station), Erik Friedlander ou Nate Wooley (apresentou-se, de resto, como parte do dilatado ensemble que acompanhou o trompetista na passada sexta-feira), revelando aí a força dos laços que a ligam a muita da mais desafiante música da actualidade. Escreveu-se até por aqui, na coluna Notas Azuis, que “Mendoza é figura conhecida na cena nova-iorquina que parece não reconhecer fronteiras e percorre todos os terrenos que se estendem entre o metal e o folk e blues tradicionais, incluindo a improvisação livre ou a música erudita clássica e contemporânea. Em todas essas aventuras acumulou uma já considerável discografia com cerca de cinco dezenas de títulos e que em tempos mais recentes inclui colaborações com gente tão diversa quanto os Negativland (The World Will Decide) ou o trompetista Nate Wooley (Seven Storey Mountain VI)”. Ainda a propósito da sua contribuição para o já mencionado trabalho de Parker, escreveu-se que sendo apoiada “por uma secção rítmica de absoluto luxo que nunca se remete exactamente para um segundo plano, Ava Mendoza é obrigada a aplicar o seu ‘A game’, rasgando por modos mais bluesy ou mais abstractos, em passagens de pendor rítmico mais acentuado ou mais livres, carregando naturais ecos de Sonny Sharrock ou até um certo músculo rock que Jimmy Page não desdenharia. O resultado final é estonteante, uma montanha-russa de enérgicas afirmações de personalidade. Sublinha o próprio Parker que ‘Ava Mendoza e Gerald Cleaver pertencem à linhagem dos viajantes sónicos que, como Sun Ra descreveu, ‘viajam pelo espaço’. Reinventando o processo e permitindo que a música flua através dos seus instrumentos’. Sem dúvida”.

Idêntica postura sónica foi exibida no palco do Auditório ao ar Livre da Gulbenkian na passada quinta-feira, quando Mendoza subiu ao palco antes do colectivo Communion comandado por João Lencastre. Começou por nos explicar que esta era a terceira vez no festival e que a sua última visita já datava de 2018 e depois atirou-se a um feérico solo arrancando da sua guitarra tonalidades rugosas com ecos fundos de blues e rock para ali mesmo tecer uma densa nuvem harmónica de drones banhados em reverb. Ava prefere manter o seu som em tonalidades sépia sendo contida no uso de pedais que lhe pudessem conferir uma maior variedade cromática, mas a força aplicada no seu guitarrismo é tamanha que nem se lamenta essa paleta mais estreita: há assomos de metal e de noise no seu discurso eléctrico e isso empolga naturalmente os presentes que no final da tempestade que Mendoza ali conjurou retribuíram com efusivos e plenamente justificados aplausos.



A mudança no palco foi depois muito rápida e o colectivo Communion de João Lencastre não se fez esperar: ao lado do baterista e compositor apresentaram-se Albert Cirera em saxofones tenor e soprano, Ricardo Toscano no saxofone alto, Benny Lackner no piano, André Fernandes e Pedro Branco nas guitarras eléctricas, João Hasselberg em baixo eléctrico e electrónica, e Nelson Cascais no contrabaixo. Quando por aqui se escreveu sobre o álbum Unlimited Dreams que a João Lencastre’s Communion lançou na Clean Feed, ressalvou-se a qualidade e originalidade do ensemble montado: “um autêntico grupo de ‘feras’ em que pontuam diversos líderes de pleno direito. Mas, ao mesmo tempo, um ensemble de geometria original graças à combinação de duplas de saxofones, guitarras e baixos, com o piano e a bateria a surgirem solitários, mas igualmente determinantes. O facto de dois dos músicos (Lackner e Hasselberg) ainda adicionarem variáveis electrónicas aos seus instrumentos principais afirma este colectivo como fonte de um vasto leque tímbrico, característica que serve na perfeição as composições panorâmicas de Lencastre”.

No palco confirmou-se, portanto, o que em disco já se tinha revelado notório e que aliás valeu ao líder o Prémio Play 2022 para melhor álbum de jazz: “Estes sonhos sem fim de João Lencastre são, afinal de contas, reais, assim que fechamos os olhos e deixamos que o som que se desprende das colunas nos invada o pensamento”. A enérgica Flying V de João Branco (que Lencastre fez questão de referir que estava a ser estreada naquela noite) a contrastar com a mais comedida guitarra do mestre André Fernandes, numa espécie de dinâmica  “bad cop, good cop”, ou os distintos discursos de Toscano e Cirera – ambos marcantes, ambos altamente personalizados –, foram algumas das marcas da dinâmica acentuada da apresentação destes Communion numa noite carregada de invenção e de múltiplas dimensões sonoras que se revelou mais um triunfo na variada programação do Jazz em Agosto em 2022.


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