Benjamim: “Se eu morrer miserável a fazer a música em que acredito, isso vai de encontro ao meu propósito”

2 meses atrás 121

Nas palavras do seu autor, As Berlengas é um projecto megalómano. Essa grandiosidade começa desde logo na riqueza musical impressa num alinhamento que nasceu de um processo de escapismo, com Benjamim a refugiar-se da realidade numa MPC e em instrumentos como piano, bateria, baixo e sintetizadores; e agiganta-se pela multiplicidade de formatos a que dá origem, com a habitual edição fonográfica (em vinil e digital) a ver-se acompanhada por manifestações sob a forma de dança e cinema, com o realizador Bruno Ferreira e o coreógrafo João Reis Moreira a unirem esforços para a concepção de um filme que ainda está por saír — mas do qual já podemos observar alguns excertos, através dos videoclipes para “As Berlengas (Parte 1)” e “Atrás da Barricada”.

Numa ode à pop indie nacional, abrilhantada por momentos de jazz ou electrónica, As Berlengas saiu no passado dia 4 de Abril e veio selado pela Discos Submarinos, tendo sido apresentado ao vivo em Lisboa no final do mesmo mês, no Teatro Maria Matos. Foi antes dessa data que inaugurou esta obra em palco que nos sentámos por alguns minutos à conversa com o cantautor, músico e produtor para uma entrevista em torno do sucessor de Vias de Extinção (2020) que podem ler em seguida.



Quero começar por te perguntar: no conjunto da tua obra, que espaço é que ocupa este disco? Já disseste antes que este disco está um bocado fora do formato daquilo que tu tens feito antes.

É fora do formato, sem dúvida. Este não é um disco de canções, apesar de ter algumas canções e de eu até achar que é um disco pop [risos]. Não é um disco para a rádio nem tem funcionado bem na rádio, apesar de haver uma ou duas malhas que talvez tenham um formato mais radiofónico. Se eu fosse um músico de jazz, não seria, provavelmente, um disco assim tão fora do formato, face ao que tenho lançado. Apesar de haver sempre divagações nos meus discos, neste trabalho só a terceira música é que tem voz — e a introdução dessa música tem um minuto [risos]. Para aí 50% da música do disco é instrumental… Não são músicas convencionais nem são músicas às quais eu cheguei de forma convencional. Eu não me sentei ao piano para compor uma canção. Elas vêm de samples, de sons de sintetizadores, de jams, de sons…

O disco foi feito naquela sala que tu tens no estúdio louva-a-deus ou vem de antes disso?

Vem de antes. O disco começou a ser feito há seis anos. Começou todo numa MPC. Usei alguns sintetizadores, comecei a sequenciar tudo…

Então pertences a essa rara classe que em 2024 ainda está a apresentar trabalhos que nasceram antes da pandemia.

Sim. Quer dizer, ele nasceu antes da pandemia, mas há muitas coisas que foram escritas e trabalhadas já durante a pandemia. O disco originamlemente tinha para aí 27 músicas. Entretanto escrevi mais músicas e livrei-me de umas quantas também. Outras reciclei, por exemplo, a terceira parte da música. Houve alguma reciclagem de ideias, mas também há muitas músicas que são novas, apesar de tudo.

Porque é que te apeteceu fazer um disco assim tão fora, que como tu dizes acaba até por limitar o alcance? Ele não é tão encaixável nas rádios que temos, se calhar vai até dificultar o lado cantarolável que sempre existiu nos teus concertos. Como é que justificas que tenha sido este o tipo de disco que te apeteceu fazer agora?

Porque a coisa mais importante, o meu foco, será sempre a música. Se eu morrer miserável a fazer a música em que acredito, isso vai de encontro ao meu propósito. Eu gosto de música pop e de canções, portanto faço canções que gosto que as pessoas cantem. Eu também gosto de ir a concertos e cantar. Mas há uma coisa que eu não quero, que é ficar preso numa gaveta da qual eu nunca poderei sair. Eu já tinha este projecto há tanto tempo e não queria que ele ficasse preso dentro da minha MPC ou arquivado no computador. Queria acabá-lo e lançá-lo. Achei que este era o momento certo. Tive sempre muita consciência de que este disco seria muito difícil de comunicar, que ia ser difícil de apresentar e que, de certa forma, tenho de convencer as pessoas a darem uma oportunidade para o escutarem, porque hoje em dia pedir uma hora e 13 minutos de atenção é estar a pedir muito. Ao mesmo tempo, também faz parte da minha missão, e eu já disse isto muitas vezes: numa altura em que estamos presos aos 15 segundos dos reels de Instagram, temos que nos libertar disso. Nós, artistas, não podemos só aceitar esse facto. A produção musical está presa a isso. Tu vais a uma reunião de editora e falam-te dos skips do Spotify. Há várias razões para eu ter feito este disco. Há questões políticas, outras de teimosia…

Fala-me dessas, das políticas.

O disco tem uma mensagem… Quer dizer, tem várias mensagens. A narrativa deste disco tem muitas dimensões, seja por uma fuga pessoal, numa tentativa de fugir para uma ilha imaginária…

Na verdade, por muito fascinante que seja o mundo pop, que tu conheces bem, ele também pode ser muito cruel e ingrato, tornando-se ele próprio uma prisão, não é?

Claro que pode. Mas deixa-me responder-te à parte política. Nós vivemos num mundo cada vez mais polarizado. Politicamente estamos a viver tempos assustadores. Eu também não quero fazer música panfeletária, mas As Berlengas contam uma história. É a história de várias pessoas que vão para uma ilha. No filme que estamos a fazer, a perspectiva de quem está a contar esta história é a de uma pessoa que chega à ilha e já lá estavam outras pessoas que também fugiram para lá. O que acontece na ilha é que, de repente, todos os problemas que existiam no mundo “real” também existem na ilha. Na ilha também existe uma polarização enorme, existe violência, tens pessoas presas aos seus traumas, aos seus passados, e querem libertar-se deles. Há várias metáforas muito grandes ao longo do disco. É uma mistura quase de ópera, de teatro, de cinema… São samples disso tudo. É um disco pop, no fundo, mas não quis ficar preso àquela ideia de: “Agora vou escrever 10 canções, pô-las num disco e arranjar conceito para a coisa.”

Mencionaste aí que está a ser feito um filme?

Sim. Ao longo dos anos isto foi-se mutando, ganhando outras dimensões. Isto começa comigo na MPC a criar umas músicas, como uma fuga, em que eu começo a imaginar-me numa ilha enquanto faço aquilo. Eu chegava a casa, metia uns phones e não existia mais nada para além desse universo. Depois surge a ideia das Berlengas, e eu nunca tinha ido às Berlengas, então começo a ir ao Google Maps, a ver fotos das Berlengas, a ler sobre os mitos, os corsários que atacavam a ilha, as pessoas que lá viviam, como é que eles construiram o forte, os pescadores, as tempestades, os naufrágios… Tudo isso. Na minha cabeça apareceu uma história e esta música começou a ser a banda sonora para um filme que não existia. Mas não era ainda uma ideia pronta.

Desculpa-me interromper-te, mas bandas sonoras para filmes que não eixstem há muitas. Esse é um ângulo normal. Agora, uma banda sonora para um filme que há-de existir, isso já é o processo inverso.

Sim. Ou seja, eu comecei a criar um guião a partir da narrativa musical. Falei sobre esta ideia com o Bruno Ferreira, o realizador, disse-lhe que imaginava pessoas a dançar no filme, e ele disse-me: “Vamos fazer uma espécie de bailado a partir do disco e vamos para as Berlengas filmar.” Eu não tinha o disco acabdo e isso foi muito importante no resto do processo todo de criação. Eu dei uma margem no guião para o coreógrafo, o João Reis Moreira. Ele devolve-me o guião escrito por ele, baseado no meu, mas coreografado, que traz outras metáforas, outras linguagens, em que ele agarra na minha ideia mas transforma-a em dança e amplifica-a numa coisa melhor. O Bruno, com a visão dele de realizador, também o faz. De repente, nós estivemos nas Berlengas a filmar e eles estão a dançar ao som de música que ainda não está acabada. Quando eu volto desta rodagem, transformo também a música, mudo coisas. Houve muita coisa que mudou pelo facto de termos ido filmar, pelo facto de termos feito a coreografia, pelo facto de termos ido rodar às Berlengas.

Trouxeste sons gravados lá?

Trouxe, trouxe. Isso era uma das coisas mais importantes. Mal fomos fazer a repérage, trouxe logo sons. Isso foi logo decisivo.

Como é que os captaste? Com um telemóvel?

Não. Com um gravador. Depois, quando fomos filmar, um amigo meu, sonoplasta, levou uns sound devices mais profissionais.

Então foi uma coisa séria. Não foi aquela cena do turista acidental que grava no telemóvel.

Não, não. Há uma coisa curiosa: tu nunca ouves os sons 100% puros. O som é sempre manipulado com reverb, ou com delay, ou com noise de modulares, ou misturado com pássaros digitais que eu fiz em sintetizadores. Há sempre uma dimensão…

De fantasia?

De fantasia. Exactamente. Isto é uma fantasia. Não há nenhum momento em que esta ilha corresponda à ilha das Berlengas que as pessoas vão visitar.

Não é uma reportagem nem um documentário. É mesmo uma fatasia.

Isso.

E como é que isto se vai resolver em palco?

Está a ser um desafio muito, muito grande [risos].

Estas dimensões que me estás a descrever — música, imagem, coreografia… — vão coexistir em algum momento de uma apresentação?

Em algum momento sim, vão. Mas não já neste concerto de apresentação [n.d.r.: aconteceu no passado dia 29 de Abril]. Deverá existir projecção de vídeo, que não será o filme, mas com imagens do filme. Haverá uma espécie de video mapping no concerto. Mas a ideia é que, no futuro, possamos fazer um espectáculo… Há uma ideia muito importante para mim, que é: isto começa com um disco que eu faço sozinho, e eu depois passo a bola a um realizador e a um coreógrafo, transforma-se num álbum, depois num filme, e há um concerto ao vivo… Há um lado quease de jazz nisto, no sentido em que nós não vamos reproduzir o disco exactamente nota por nota. Nós estamos a montar a coisa de forma a que eu possa tocar os samples da MPC em tempo real e, se quiser, temos um solo a meio da música que não está no disco. Se calhar, a introdução da música é diferente, apesar de eu usar os mesmos samples. Os músicos que vão tocar, eles têm intervenção na música, para que o concerto possa ser um objecto artístico diferente. Tal como o filme será um objecto artístico diferente. No futuro, o que eu gostava que acontecesse é que apresentássemos um bailado ao vivo, que também já é uma desmultiplicação daquilo que é o filme.

Eu lembro-me de termos conversado, talvez, há um par de anos. Nessa altura, mencionaste-me que te estavas a afastar deliberadamente do trabalho de produção porque te querias concentrar na tua própria arte. Este disco também é uma consequência desse passo muito deliberado na tua carreira, não é?

Sim. Foi o que me permitiu ter tempo para o fazer. Este disco demorou muito tempo a gravar e o processo não foi fácil, com muitas dúvidas, muitos recuos… Por isso, sim, se eu não tivesse tomado essa decisão não tinha conseguido terminar este disco.

Eu tenho-me vindo a cruzar contigo no estúdio dos Capitão Fausto, no estúdio do Afonso e da Minta… Há um certo universo da música portuguesa que tu habitas, de uma forma muito natural. Como é que essas pessoas se foram manifestando quando lhes mostravas o disco?

Com alguma curiosidade [risos]. Ainda é muito cedo. O disco saiu há uma semana e pouco.

Mas dentro dessa comunidade, o disco começou a rodar mais cedo, não?

Mais ou menos. Eu tenho alguma dificuldade em estar a: “Olha, vem aqui ouvir o meu disco. Dá-me uma hora e 13 minutos da tua vida para vires aqui ouvir isto.” As recações têm sido interessantes, as pessoas têm ficado surpreendidas com o que têm ouvido. Obviamente que é uma guinada à esquerda, e eu acho que isso deixa sempre as pessoas curiosas e espantadas. Apesar de tudo, acho que as pessoas que me são próximas já estão à espera que eu não quero fazer o mesmo disco que…

Essas pessoas estão à espera que as surpreendas.

Sim. Até agora, as recações têm sido curiosas. Eu fico mais surpreendido com mensagens que recebo de pessoas completamente anónimas. Há um fenómeno curioso, que é: pessoas que não seguiam a minha música, agora seguem por causa deste disco. Já cheguei a receber mensagens da Alemanha, por exemplo, de malta que vem cá passar férias e que, por alguma razão, se ligou às Berlengas e, de repente, descobriu o meu disco, ouviu-o e ficou espantado. A crítica, até agora, tem sido simpática com o disco. Não sei, eu acho que a reacção tem sido boa, mesmo apesar de ser um disco tão fora do formato habitual.

Não vais demorar seis anos a fazer o teu próximo disco, pois não?

Não, não [risos].

Já começaste a preparar material para o futuro ou estás concentrado neste agora?

Tenho canções, algumas coisas que quero fazer. Mas tem sido tão complicado montar o concerto…

Quem é que vai estar contigo em palco?

Sou eu, o João Correia na bateria, o Nuno Lucas toca baixo, o Manuel Pinheiro na percussão, a Vera Cruz toca teclas e canta, e o António Vasconcelos Dias toca teclas, guitarra e canta. São muitos sintetizadores em palco, mais MPC, piano, caixas de ritmos, congas…

É um sexteto, portanto.

Um sexteto, sim.

Então tu não estás numa de facilitar a tua própria vida.

Não. Nada.

Tens tudo. Um filme, uma coreografia, um sexteto em palco…

Este é um projecto megalómano.

Nós vivemos numa era muito reducionista, em que está toda a gente está a reduzir meios para, nomeadamente, poder ir para a estrada…

Isto está a ser um problema para mim. Um problema grande. Porque eu, apesar de estar conotado como um artista indie, eternamente emergente… Nós, em Portugal, sentimos sempre que somos limitados pela nossa pequenês. Ao mesmo tempo, eu não quero baixar os braços e resignar-me a esse facto. Este era o disco que eu queria fazer e foi desta maneira que eu o quis fazer. Estou completamente pronto para que seja um falhanço tremendo. Estava pronto para que o disco saísse e tivesse zero reacções, para que as pessoas se estivessem completamente nas tintas para ele. Em algum momento ia doer, mas eu estava pronto para isso. Vou tentar fazer ao máximo, levar até às últimas consequências, esta ideia. E esta ideia nasce como uma ideia megalómana. Qual vai ser o sucesso disso? Honestamente, não sei. Pode falhar e eu estou pronto para que falhe. Mas vou tentar fazê-lo. Isso, para mim, é importante.


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