Beyoncé // RENAISSANCE

1 mes atrás 35

O cenário convida a fantasiar sobre mil e uma noites de prazer e corpos frenéticos, salas escuras e luzes que se movem em comunhão com o beat da música, roupas exuberantes a condizer com os egos, flashes de câmaras e o necessário registo para a posteridade, resquícios de amor em part-time, pisos que colam quer pelo cocktail de bebidas sobre si entornadas, quer pela incapacidade de nos movermos estando submersos na energia excêntrica da multidão. O local onde o género, cores e sons adquirem novas formas. Modelos, actores, drag queens, pintores, os Andy Warhols, as Grace Jones, os Jean-Michel Basquiats e os Calvin Kleins desta vida num só espaço. Tudo isto aliado à sensação de que era obrigatório estar-se ali para se testemunhar o início de uma nova era e ser-se parte dela. A pista de dança era o palco onde o “eu” concedia o seu lugar ao “nós” – existir em conjunto na vida boémia transforma-nos num corpo colectivo.

Senhoras, senhores e não-binários, sejam bem-vindes ao Studio 54: do hedonismo excêntrico à liberdade de expressão, a disco fever está de volta no sétimo álbum a solo de Beyoncé, RENAISSANCE, para nos regalar com um revivalismo de um tempo que é agora nosso também. Não é por acaso que se faz esta ponte entre lugares e tempos: a vida quotidiana imita a arte e o olhar atento de internautas captou as semelhanças entre a capa do novo trabalho de Beyoncé e a icónica fotografia tirada a Bianca Jagger montada num cavalo, no seu aniversário em 1977, no Studio 54. Valeu-lhe, igualmente, a comparação com a pintura Lady Godiva de John Maler Collier.

RENAISSANCE cumpre a sua missão num mundo pós-pandémico em que se declara como inegável o abraço ao hedonismo, a transformação do progressismo em algo pop e mainstream, ao carpe diem e ao escapismo/optimismo que não são necessariamente opostos. Tal como nos anos 70 com a revolta de Stonewall, o retorno da disco fever é significante, pois surge, mais uma vez, como resposta a uma época conturbada a nível de saúde, direitos humanos e política global. A urgência do seu propósito reside no seu carácter desafiante.

Há que entregar as flores a quem as merece: as comunidades queer, latinas, negras e hispânicas do final dos anos 60 em Nova Iorque existiram e resistiram sempre na mira da exclusão social e da discriminação por parte da sociedade maioritária. Encontraram a sua salvação e refúgio numa subcultura que lhes pertencia: a música de dança. E é exactamente uma celebração dessa diversidade e legado que Beyoncé como anfitriã e aliada pretende ao dedicar este álbum à comunidade queer e ao seu familiar Uncle Jonny, que faleceu de VIH.

Aos 40 anos, com uma legião bem sólida de fãs e uma responsabilidade acrescida, a artista não se preocupa com a irreverência de continuar a traçar o seu caminho, desafiando o status quo da indústria musical que tende a atribuir prazos de validade às carreiras de mulheres. Como a diva pop por excelência é adorada e glorificada pela comunidade queer, justamente pelo emanar de uma confiança e elegância que a própria comunidade reclama para si. Este projecto (que se subdivide em três actos) prova-nos, caso ainda fosse necessário, que está mais que apta a empregar o ethos.

… and the category is… black excellence!” — imagine-se isto dito pela voz de Pray Tell, interpretado por Billy Porter na série Pose da FX, e obtemos a introdução para este novo álbum que promete fazer com que nos prolonguemos em festas sempre que algumas das suas músicas fizerem estremecer as colunas.
O techno, o house, os afrobeats, o jersey club, o new jack swing e o Ballroom entram nesta festa cujos convidados de honra são nomes como Grace Jones, Tems, Drake, Honey Dijon, Skrillex, Donna Summer, Robin S., seja no plano concreto em colaborações, seja em samples ou como fonte de inspiração.

Iniciamos esta viagem em formato de DJ set com um hino à auto-confiança e ao síndrome de personagem principal (“I’M THAT GIRL”), seguindo para o reconhecimento das outras personagens principais deste álbum, acompanhada por Ts Madison e Honey Dijon (“COZY”), que representam quem, inúmeras vezes, é colocado em segundo plano nos aspetos cruciais das vivências pessoais: as pessoas racializadas, trans e quem vive/perdeu a vida a lutar contra o VIH.

Entrando na sua era Paris Is Burning e com produções dignas de figurar na cena de dança do filme Climax do Gaspar Noé chega-nos “ALIEN SUPERSTAR” e “PURE/HONEY” com uma justaposição de pop virada para a rádio dos anos 80 com segmentos que podiam ser presenciados numa ballroom battle. De seguida, ‘’CUFF IT” e ‘’ENERGY”, num tom provocante e flirty, darão lugar a “BREAK MY SOUL” que tanto pode ser interpretada como um hino anti-capitalista como se pode pensar em qualquer actriz de comédias românticas dos anos 2000 a cantá-la, em alto e bom som, no seu quarto enquanto agarra uma escova de cabelo. Sim, Emma Stone, estamos a olhar para ti. Em “CHURCH GIRLl” juntam-se os opostos que se atraem: o sagrado e o profano. “PLASTIC OFF THE SOFA”, “HEATED” e “VIRGO’S GROOVE” são a pausa romântica e necessária para recuperar o fôlego para “MOVE”. “THIQUE” é uma ode à aceitação corporal enquanto “AMERICA HAS A PROBLEM” deve ser aquela que mais pontos de interrogação suscitou dado o título que induz na ideia de que seria um tema objectivamente político — porém, trata-se somente de uma referência à música “Cocaine (America Has a Problem)” de Kilo Ali. Finaliza-se a viagem com “SUMMER RENAISSANCE”, repescando a influência de Donna Summer ao começar com o ritmo de “I Feel Love“.

O político encontra-se diluído no pathos em RENAISSANCE. Beyoncé move-se através de uma causa que abraçou como sua por reconhecer a importância de valorizar publicamente os contributos de quem sempre remou contra a maré. Fá-lo enquanto, simultaneamente, se traça o caminho do que foi a influência negra e queer na música disco e se reivindicam géneros musicais gentrificados que sempre foram negros e agora regressam às suas origens neste álbum que é memorial-lembrete.

Apesar da intenção deste álbum ser criar um lugar para sonhar e abrigar-nos, durante tempos sombrios, não devemos cair no erro de olhar para ele com condescendência. Também se tomam decisões importantes nas pistas de dança, às quais podem ser atribuídos significados que mudam rumos fora dos contextos em que ocorrem. De facto, não existem revoluções políticas que não antecedam revoluções culturais e o inverso.

Escapes momentâneos como a vida nocturna, a dança e as festas são uma forma de auto-preservação, uma forma de manter a esperança e elevar o astral – existe coragem no acto de escapar. As circunstâncias em que nos encontramos relembram-nos a paridade com os nossos ídolos ao partilharmos estes sentimentos que nos transcendem e aproximam de certo modo.

Este renascimento com o qual Beyoncé nos mimoseou assemelha-se ao nosso conhecido da História por conferir ao ser humano uma nova dignidade. Uma que reconhece que a leveza do ser nem sempre tem de ser insustentável. Almeja uma libertação pessoal da qual podemos fazer uso, tal como Beyoncé, à procura de algo que vive dentro de nós. 


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