Coala Festival Portugal’24: um sonho chamado lusofonia

1 mes atrás 99

No passado mês de Abril, o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, defendeu que Portugal devia reparar as nações que prejudicou durante o seu período colonialista e reacendeu um debate que dura há já várias décadas. Enquanto uns se apressaram a descartar essa ideia, houve também quem a defendesse. Já sobre o tipo de reparação a executar, há quem ache que ela deva ser financeira, enquanto outros procuram colocar todas as nações envolvidas sentadas à mesma mesa para que se possa discutir o que de errado foi feito lá atrás, dando a oportunidade a que, pelo menos, Portugal reconheça os males que causou e peça desculpas pelos mesmos. Como em quase tudo nesta era de crispação que atravessamos, não há quaisquer sinais de consenso, e o assunto parece causar uma divisão ainda maior entre as pessoas, ao invés de nos aproximar para que, juntos, possamos finalmente sarar uma ferida aberta há séculos.

Enquanto a política e a sociedade em geral vão jogando este jogo do gato e do rato, é principalmente na cultura que o problema se vai tentando resolver. E quem marcou presença na estreia do Festival Coala Portugal no passado fim-de-semana, dias 1 e 2 de Junho, no Hipódromo Manuel Possolo em Cascais, dificilmente terá notado essa tal tensão que ainda existe entre povos que se consideram irmãos. Principalmente composta por portugueses, brasileiros e descendentes dos PALOP, a audiência que se reuniu neste evento deu ares de uma comunhão total, daquelas que só costumamos ver em sonhos. Todos remaram para o mesmo lado sem que nenhuma nação se achasse mais importante do que a outra, aplaudindo artistas de diferentes origens e backgrounds de igual modo. Foi a música a demonstrar uma vez mais o seu poder aglutinador, característica que deveria ser tida mais vezes em conta quando se calculam orçamentos para um país que deixa sempre a cultura para um patamar de quase-desprezo.

No alinhamento, essa mistura entre as diferentes nuances da lusofonia também ficou vincada através dos nomes escolhidos para actuar no festival. Com um palco de clubbing especialmente populado por DJs que fazem parte da cena nacional — Vanyfox, King Kami, Caroline Lethô, ZenGxrl, Shaka Lion ou RIOT foram alguns deles —, foi na principal montra do festival que essa pluralidade se mostrou ainda mais acentuada. E foi precisamente na grande estrutura montada em pleno Hipódromo Manuel Possolo que o Rimas e Batidas andou para poder assistir a todos os 10 concertos prometidos pelo cartaz, sempre intercalados por breves DJ sets assinados por gente como Berlok, Patrick Tor4 ou Ubunto.



Numa conjugação perfeita entre novos e velhos talentos da música portuguesa, brasileira, angolana e cabo-verdiana, o Coala arrancou ao som de Rita Vian, que se apresentou com o habitual parceiro de cena João Pimenta Gomes a operar as electrónicas. A cantora passou em revista os novos temas que no final de 2023 integraram o seu álbum de estreia SENSOREAL, mas não deixou de revisitar algum do seu passado. Numa tarde bem quente, a sua voz cristalina foi como uma brisa boa e reconfortante. Pelo meio da prestação trouxe ainda a palco um guitarrista, que a ajuda a descolar ainda mais esta nova versão do seu espectáculo dos formatos anteriores.

Também EU.CLIDES se fez passear entre canções recentes e outras mais antigas, mas o formato de banda permitiu que estas soassem mais musculadas e dinâmicas face à sua antecessora. No seu vocabulário, a ideia de power trio inclui teclas no lugar do baixo, e a manuseá-las está o irrequieto TOTA, ajudante do cantautor luso-cabo-verdiano no processo de composição e peça-chave nas suas actuações ao vivo, quer pela técnica da qual as suas mãos são dotadas, mas também pela capacidade de fazer todo o tipo de sons com a boca, aplicando camadas menos óbvias aos temas. Na bateria, Ricardo Coelho completou a formação e executou todo o tipo de ritmos que esta música portuguesa com sabor a África pede.

Quando os termómetros começaram a exibir um temperatura mais agradável, Pongo compensou a descida dos graus com um show bem electrizante. Foram quatro os músicos que a acompanharam, entre eles o mago da percussão Iúri Oliveira, sendo que, pontualmente, surgiram também quatro bailarinas para dançar ao som de alguns dos temas. “Wegue Wegue”, “Hey Linda”, “Kuzola” e “Bruxos” foram as músicas que mais reacções arrancaram da plateia, com a artista angolana a reservar também um par de surpresas para esta data especial — a primeira foi quando chamou o rapper brasileiro BK para contracenar consigo num par de faixas; depois, já perto do final, quando deu a conhecer o seu próximo single, “Katana”, que revelou estar prestes a ser editado.

A grande surpresa do dia inaugural desta primeira edição do Festival Coala Portugal estava reservada para quando o Sol se começou a pôr. Os Baiana System estão para a música brasileira como os Buraka Som Sistema estão para as batidas angolanas e deram-nos uma valente lição sobre como fundir sonoridades tradicionais a uma electrónica capaz de transformar grandes plateias num espectáculo onde o público vira um conjunto de marionetas, movendo-se ao sabor das cadências do grupo. É impossível ficar indiferente ao colectivo liderado pelo rapper Russo Passapusso e pela cantora Claudia Manzo, que mistura ritmos quentes de samba ou reggae com mensagens de folia e intervenção. Além dos sons, os Baiana System surpreenderam também pela qualidade da produção da sua performance, com jogos de luzes repletos de vida e cores, projecções visuais e danças tribais.

A fechar a programação deste primeiro dia esteve o regresso aos intemporais clássicos de Jorge Ben Jor. O bandleader mais velho de todo o cartaz do Coala não acusou nunca o peso dos seus 85 anos e impressionou pela destreza que mantém em palco, desdobrando-se entre voz e guitarra eléctrica com uma técnica digna de quem está há décadas no pico da sua forma. Acompanhado por uma grande banda — um dos seus elementos fazia anos e teve direito a uma canção de parabéns —, o veterano cantautor e guitarrista do Rio de Janeiro recorreu a êxitos como “Oba, Lá Vem Ela”, “Mas, Que Nada!”, “Chove Chuva” ou “Take It Easy My Brother Charles” para enfeitiçar os presentes com o seu samba-rock. Depois de ser avisado que já só tinha tempo para mais uma música, fez valer o seu estatuto para esticar o concerto para lá da hora prevista ao entregar um longo medley, ao mesmo tempo que ia presenteando a audiência com algum do seu merchandise.



As ondas sonoras mostraram-se mais calmas ao segundo dia do novo certame acolhido por Cascais, a começar desde logo com uma prestação despida e intimista de Mayra Andrade. A cantora cabo-verdiana actuou apenas com o guitarrista Djodje Almeida ao seu lado, entregando-nos versões mais cruas dos seus temas, levando-as a chegar mais próximas da sua génese — é apenas com voz e violão que muitas das composições começam, conforme explicou ao público, e é nessa forma que as quer mostrar ao vivo neste momento enquanto prepara um novo disco, que revelou estar nos planos para ser editado ainda este ano. Neste formato, a voz angelical de Mayra Andrade chega mais rapidamente às nuvens e transporta-nos para um ambiente de paz e comunhão total. Durante a actuação foi também preenchendo alguns espaços do espectro sonoro com pequenos instrumentos de percussão, deixou uma emocionada mensagem de esperança para o povo palestiniano e levantou-se do cadeirão onde esteve sentada para interpretar a última canção de pé, arrancando fortes aplausos antes da retirada.

A promover um novo álbum lançado no final de Abril, Novela, Céu foi o nome que se seguiu na programação. A cantautora de São Paulo nascida Maria do Céu Whitaker Poças trouxe até ao Coala uma proposta de MPB com traços de funk e soul bem sedosos, a combinar na perfeição com as vestimentas de toda a banda, que pareciam trajes de dormir aveludados. A adornar os seus vocais estiveram um baterista, um guitarrista e um baixista, replicando originais como “Gerando na Alta”, “Into My Novela”, “Varanda Suspensa” ou “Malemolencia”, sucesso maior da sua discografia que está quase a atingir a redonda marca dos 20 anos de vida.

A toada soul e funk manteve-se para o show de Rubel, embora envolta de uma estética mais próxima do jazz graças aos arrojados arranjos que o músico e cantor brasileiro orquestrou para a grande banda que o acompanha — houve sopros, teclas, percussões, cordas e até um pequeno coro onde se incluia a portuguesa Beatriz Pessoa, visivelmente entusiasmada pela oportunidade de tocar lado a lado com um dos mais emblemáticos compositores da nova escola da música brasileira. Com a sua voz e letras, Rubel fartou-se de derreter corações com canções de amor, dando especial destaque ao seu mais recente LP, AS PALAVRAS, VOL. 1 & 2., editado há pouco mais de um ano.

Depois de um certo gostinho a novos fados dado por Rita Vian no dia anterior, a aproximação à matriz mais tradicional do género musical português fez-se através da enorme voz de Carminho. Apesar de ser o acto com menos groove de todo o alinhamento, a fadista de Lisboa conquistou todos os presentes com uma prestação imaculada em torno de versos com diferentes origens — uns eram originais, outros repescados dos arquivos de alguns poetas ou doados por colegas e amigos seus, como Marcelo Camelo, Joana Espadinha, Luísa Sobral ou Rita Vian. O que Carminho não tinha ao nível de batida foi compensado com alguns fados mais corridinhos que convidavam à dança. Já o parco movimento cénico foi trocado por um interessante jogo de luzes e sombras, mostrando como é possível criar efeitos visuais que nos prendem a atenção sem recorrer a uma produção do outro mundo.

Aos 81 anos, Gilberto Gil assegurou o slot de derradeiro cabeça-de-cartaz da primeira edição do Festival Coala Portugal. Foi ao som de mais uma lenda viva do cancioneiro brasileiro que nos despedimos do certame, com o experiente músico, cantor e compositor de Salvador, Bahia, a apresentar-se inserido num extenso conjunto de instrumentistas, entre os quais pudemos encontrar alguns dos seus filhos e netos, como são os casos de João e José Gil, eles que já conhecem o sabor do sucesso em nome próprio devido ao trabalho que desenvolvem no trio Gilsons. Tal como Jorge Ben Jor, também este pioneiro da tropicália disfarça a idade em palco com pilhas que duram e duram e uma execução que nunca compromete, fazendo justiça a clássicos como “Palco”, “Esperando na janela”, “Andar com fé” ou “Aquele Abraço”. Além do samba e da bossa nova, puxou das influências do reggae para recriar “No Woman No Cry” de Bob Marley e foi alvo de um grande carinho por parte da plateia, que com praticamente toda a gente em uníssono entoou “Gil, eu te amo!” Antes do adeus, deixou-nos com a confirmação de que o Festival Coala Portugal veio para ficar e anunciou as datas para a edição de 2025 — dias 31 de Maio e 1 de Junho.


Ler artigo completo