Consegue o corpo humano aguentar os efeitos do aquecimento global?

1 mes atrás 12
Num relatório divulgado na segunda-feira, a Organização Mundial de Saúde alertou para o risco de o impacto do aquecimento global para a saúde pública ser maior para as populações mais vulneráveis.

"Calor extremo, inundações, secas, incêndios florestais e furacões: 2021 quebrou muitos recordes", escreveu Tedros Adhanom Ghebreyesus no relatório. "A crise climática está a afetar-nos, sendo alimentada pelo nosso consumo de combustíveis fósseis".

"As consequências para a nossa saúde são reais e frequentemente devastadoras", advertiu ainda o diretor-geral da OMS.

As consequência do aquecimento global são sentidas em todo o planeta, mas afeta mais as populações de países mais desfavorecidos. Nesse sentido, a OMS considera que a "saúde e a equidade são fundamentais para atingir as metas do Acordo de Paris".

As alterações climáticas são já consideradas "a maior ameaça à saúde que a humanidade enfrenta", uma vez que podem levar os progressos na saúde global a regredir aos níveis de há meio século, afetando não só a saúde e a vida da humanidade como também aumentando as desigualdades no acesso aos cuidados das populações.

De acordo com o recente relatório, o aquecimento global está já a impactar a saúde de muitas populações, incluindo o aumento de mortes e de doenças que surgem em consequência de "eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, como ondas de calor, tempestades e inundações, ou as falhas nos sistemas alimentares". Os riscos de saúde específicos associados ao aumento das temperaturas incluem lesões devido ao calor extremo, doenças relacionadas com o calor, doenças transmitidas pela água, desnutrição e zoonoses [doenças infecciosas transmitidas pelos animais aos seres humanos]. A crise climática também pode afetar a saúde mental das comunidades e sobrecarregar os sistemas de saúde.

"Estes riscos para a saúde são desproporcionalmente sentidos pelos mais vulneráveis e desfavorecidos, incluindo mulheres, crianças, minorias étnicas, comunidades pobres, migrantes ou pessoas deslocadas, populações idosas e pessoas com problemas de saúde subjacentes".

Mas como é que o aquecimento global afeta o corpo humano?

O calor extremo, por exemplo, pode matar ou causar problemas de saúde a longo prazo, embora cada vez mais populações considerem que as alterações climáticas e as temperaturas mais altas são o "novo normal". Mas as alterações que têm afetado o planeta com o aquecimento global têm um impacto direto e indireto na saúde, não se verificando de forma igual na população global.

O impacto do calor extremo no corpo humano não é muito diferente do que acontece quando um automóvel super-aquece: um ou dois sistemas do organismo começam a falhar e, eventualmente, começa a afetar todo o organismo até que o motor pare - segundo uma explicação do epidemiologista Mike McGeehin.

"Quando o corpo não consegue arrefecer mais, o sistema circulatório fica imediatamente comprometido. O coração, os rins e o corpo todo ficam cada vez mais quentes e, eventualmente, começamos a perder as nossas capacidades cognitivas - e é aí que as pessoas começam a desmaiar, podendo entrar em coma e morrer", comentou ao Guardian o especialista em saúde ambiental dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças.

De acordo com a OMS, entre 1998 e 2017, mais de 166 mil pessoas morreram devido a temperaturas extremas. Nos últimos anos, uma grande parte dos países tem sido afetado pelo aumento gradual das temperaturas, atingindo muitas vezes recordes. Embora para muitas pessoas o calor extremo e "insuportável" se esteja a tornar no "novo normal", é mais provável que afete desproporcionalmente os mais pobres, os mais vulneráveis e com doenças crónicas e os idosos.

Cada órgão do nosso organismo responde de maneira diferente à exposição ao calor extremo, com sintomas que rapidamente se tornam fatais ou causando danos prolongados. Mas nem todos os seres humanos têm as mesmas vulnerabilidades, a mesma exposição ou condições ambientais e sociais para responder às alterações climáticas.

"Todos os seres humanos estão em risco se forem expostos ao calor extremo - o corpo funciona com determinadas condições ambientais", continuou McGeehin. "E quando essas condições ambientais se tornam extremas, as pessoas ficam em risco".

Respostas do organismo face ao calor extremo

Quando exposto a calor extremo, o corpo precisa de transpirar e arrefecer, alterando o fluxo sanguíneo dos órgãos centrais para a periferia do corpo e, assim, provocar uma queda da pressão sanguínea nos órgãos vitais.

O coração começa então a bater mais rapidamente para compensar essa perda. Porém, se a pessoa não se hidratar, a pressão arterial pode descer ainda mais e provocar desmaios, como explicou ao Guardian Pieter Vancamp, investigador pós-doutorado do Centre National de la Recherche Scientifique de Paris. Na pior das hipóteses, pode levar à insuficiência cardíaca, se não houver intervenção imediata.

Já no cérebro, sendo o hipotálamo uma espécie de termostato interno, este regula a temperatura corporal usando informações transmitidas por sensores de temperatura na pele, músculos e outros órgãos. Quando são detetadas altas temperaturas, o cérebro inicia uma série de respostas para ajudar o corpo a arrefecer, produzindo suor e aumentando a respiração e a sede. Mas quando o sistema aquece demais, essas respostas começam a falhar e podem começar a falhar também os sistemas de comunicação no cérebro, deixando a pessoa confusa, com tonturas e alterações de comportamento.

"Uma célula normal funciona melhor aos 37º. Quando aumenta a temperatura (...) a comunicação entre as células nervosas começa a funcionar mal. E é nesse momento que a comunicação com o corpo começa a falhar", explicou o especialista.

Cerca de 20 por cento das pessoas que sobrevivem a uma insolação, podem nunca recuperar totalmente, ficando "com alterações de personalidade e falta de equilibrio ou de coordenação".

Os rins são outros dos principais órgãos que mais são afetados pela alterações extremas de temperatura, uma vez que regulam as concentrações sanguíneas de água e sal. E, como explicou Richard Johnson, quando o corpo começa a aquecer em demasia perde muita água e sal através da transpiração.

Segundo o professor de medicina da Universidade do Colorado, as hormonas produzidas no cérebro são necessárias para que os rins funcionem, mas quando o calor afeta o cérebro e interrompe o nível normal dessas substâncias químicas, os rins (e outros órgãos) são afetados. O "stress térmico" recorrente e a desidratação podem assim causar doença renal crónica.

Também o fígado é suscetível ao calor extremo. Durante uma insolação - quando a temperatura interna do corpo ultrapassa os 40° - os danos provocados nas células do fígado revelam-se pelo aumento dos níveis de enzimas hepáticas no sangue.

"O fígado requer uma temperatura altamente regulada - e descobrimos que o stress térmico recorrente causa danos ao fígado de baixo grau que eram bastante perceptíveis, mas não se sabe no momento se isso pode levar a doença hepática crónica", afirmou Johnson ao GuardianE, como o sangue flui dos órgãos centrais para responder à exposição ao calor, o oxigénio torna-se limitado, podendo impedir o funcionamento normal do organismo, incluindo do trato gastrointestinal, provocando inflamação e, em casos extremos, náuseas e vómitos.

Em 2013, investigadores do Hospital Universitário de Zurique descobriram a ligação entre o risco de surtos de doenças inflamatórias intestinais e as ondas de calor.

Para agravar este quadro, o calor extremo pode também causar "vazamento no intestino", permitindo que toxinas e bactérias patogénicas se infiltrem no sangue, aumentando a probabilidade de infeções. Nesse caso, a pessoa fica mais suscetivel a desenvolver uma septicemia, visto que "a permeabilidade intestinal parece ser um grande problema".

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