COP28. “Acabar com os combustíveis fósseis é regressar ao tempo das cavernas”

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A cimeira do clima, COP28, está a decorrer no Dubai e tem sido o palco de afirmações polémicas sobre o papel dos combustíveis fósseis.

O papel dos combustíveis fósseis tem sido uma das questões mais controversas durante a cimeira do clima (COP28), que se realiza este ano no Dubai.

De um lado da «barricada» estão os países que defendem uma eliminação tão rápida quanto possível dos combustíveis fósseis. Do outro, há quem defenda uma abordagem mais “real, séria e pragmática”.

Chaminés a deitar fumo. Poluição© Chris LeBoutillier / Unsplash

É o caso do Sultão Ahmed Al Jaber, que preside a COP28. Al Jaber é atualmente o Ministro da Indústria e da Tecnologia Avançada dos Emirados Árabes Unidos. Por outro lado é também o responsável máximo da Abu Dhabi National Oil Company (ADNOC) e o Presidente da Masdar, uma empresa estatal ligada às energias renováveis.

Na COP28, Al Jaber acabou por estar no centro de todas as controvérsias devido a algumas das suas declarações, efetuadas durante o painel “She Changes Climate” (ocorrido a 21 de novembro), moderado por Mary Robinson, antiga presidente da Irlanda e atual presidente do Elders Group, um grupo independente de líderes mundiais.

Em resposta à pergunta de Robinson sobre se iria ou não liderar a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis, Al Jaber respondeu que “não existe nenhuma ciência ou cenário que diga que a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis é a solução que vai permitir atingir o objetivo de (redução da temperatura em) 1,5 ºC”.

No final, após a insistência de Mary Robinson sobre este tópico, Al Jaber rematou com um «apelo»:

“Por favor, ajude-me, mostre-me um roteiro para a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis que permita um desenvolvimento socioeconómico sustentável, a menos que queira regressar ao tempo das cavernas”.

Dr. Sultan Ahmed Al Jaber, Presidente da COP28

Hoje, já na COP28, Al Jaber procurou esclarecer as suas palavras controversas junto dos jornalistas, que diz terem sido mal interpretadas: “Eu sempre fui muito claro sobre o facto de estarmos a garantir que tudo o que fazemos é centrado na ciência”.

Reforçou afirmado que “a redução gradual e a eliminação progressiva dos combustíveis fósseis é inevitável. De facto, é essencial, mas tem de ser ordenada, justa, equitativa e responsável”.

Reações às declarações de Al Jaber na COP28

As polémicas declarações de Al Jaber despertaram diversas reações, como seria de esperar. Entre elas está a de Carroll Muffett, presidente do Centro para o Direito Ambiental Internacional (uma organização sem fins lucrativos), referindo que “a única forma de ‘descarbonizar’ o petróleo e o gás com base em carbono é deixar de os produzir, rapidamente, completamente e permanentemente. Tudo o que não seja isto, é apenas mais greenwash da indústria”.

O discurso de António Guterres na cerimónia de abertura da COP28 inclui declarações com a mesma linha de raciocínio:

“Não podemos salvar um planeta em chamas, com os fogos provocados pelos combustíveis fósseis. Temos de acelerar e ajustar a transição para as energias renováveis. A ciência é clara. O limite de 1,5 ºC só é possível se deixarmos de queimar todos os combustíveis fósseis. Não é reduzir, não é diminuir, é eliminar, com um calendário claro”.

António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas

Ainda em reação às declarações de Al Jaber, Bill Hare, o diretor executivo da Climate Analytics e autor de diversos relatórios da ONU sobre as alterações climáticas, afirmou que o debate entre Mary Robinson e Al Jaber foi “extraordinário, revelador, preocupante e conflituoso. ‘Regressar ao tempo das cavernas’ é um argumento recorrente da indústria de combustíveis fósseis e que praticamente demonstra uma negação perante todas as alterações climáticas“.

Hare acrescentou ainda que “num dos últimos relatórios da Agência Internacional de Energia, está escrito que não pode haver qualquer novo desenvolvimento de combustíveis fósseis. A ciência é absolutamente clara, o que se traduz numa eliminação progressiva até meados do século, melhorando a vida de toda a humanidade.

Como conclusão, Hare referiu que “o verdadeiro desafio para os setores do petróleo e do gás é deixar de produzir petróleo e gás. No final, nada mais importa”.

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