Faixa-a-faixa: Supermarket Joy de Margarida Campelo explicado pela própria

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Sai hoje o álbum de estreia em nome próprio de Margarida Campelo, teclista, cantora e compositora que até aqui conhecíamos sobretudo das participações em vários projectos colectivos, do Real Combo Lisbonense aos Cassete Pirata e Minta & The Brook Trout, ou de colaborações com artistas como Bruno Pernadas, Afonso Cabral e Joana Espadinha. Supermarket Joy sai com selo Discos Submarino e inspira uma conversa mais aprofundada que por aqui poderão ler amanhã. Mas para já, há por aqui um guia para os diferentes momentos deste original projecto, com Margarida a explicar sobre o que versam todas estas diferentes canções e exercícios de estilo.


[“Maegaki”]

“É a abertura do disco. Isto foram experiências que eu e o Bruno [Pernadas] fizemos em casa. A improvisar música enquanto íamos experimentando pedais e sintetizadores.”

O título aponta para o Japão. Alguma referência à cena city pop?

“É isso. Eu adoro city pop, é uma grande referência para mim. Eu queria um título que à partida pudesse até nem querer dizer nada, mas pelos vistos em japonês essa palavra significa ‘abertura’ ou ‘prefácio’. Nós fizemos esta experiência porque também queríamos que o disco tivesse algo de música improvisada que é também uma paixão nossa. E fizemos várias experiências sendo que esta fez mais sentido como uma abertura assim esperançosa e acabou por ficar.”


[“Physali Fit I” & “Physali Fit II”]

“Era suposto ser apenas uma canção, mas ficava grade demais porque nos entusiasmámos a fazer a introdução, que acabou por ser a ‘Physali Fit I’. A música foi logo pensada com esa introdução, quando eu criei o beat e o arpegiador que depois desembocava na parte canção. Mas porque podia haver quem quisesse ir logo directo à canção, decidimos separar as duas partes. A letra não quer dizer nada, mas até pode querer dizer algo, se alguém assim o desejar. Soa bem.”


[“Deusa”]

“Este é o elemento separador no disco. Há várias ‘Deusas’… Este é o primeiro e resulta de uma música que eu fiz inspirada pelo Thundercat. Quando a comecei a fazer pensei logo: “bem, isto soa imenso a Thundercat”. A maquete, já agora, tinha por título de trabalho ‘Ideia Thundercat’ [risos]. Depois com a letra ganhou este título. É uma ode a flores…”


[“Mapa Astral”]

“Foi a primeira música original que fiz para este disco, no meu computador que me foi oferecido pelos meus amigos em 2018 exactamente para que eu pudesse criar música – eu estava sempre a dizer que não fazia música porque não tinha como e eles, ‘ai é?’ Juntaram-se muito generosamente quando eu fiz 30 anos e, pronto, acabaram-se-me as desculpas. Eu, meio a brincar, fiz um beat disco, criei aquela linha de baixo e pensei: “isto soa muito bem, mas não tenho coragem de fazer uma coisa assim”. Mas lá perdi a vergonha, desenvolvi o tema e resultou neste ‘Mapa Astral’.”


[“Faz Faísca & Chavascal”]

“A primeira música em português criada para o disco. Foi a que deu o mote para a direcção, digamos, poética do disco. A inspiração veio mesmo da soul dos anos 60, Smokey Robinson, Aretha Franklin, por aí… Era isso que eu queria.”


[“Love Will Never Be Enough”]

“‘Love Will Never Be Enough’ foi a primeira balada de amor que eu fiz e acho até que foi a única… A minha balada era sobre amor feliz, mas depois quando pedi à Chica – à Francisca Cortesão – para escrever a letra ela virou o sentido da música ao contrário e eu adorei. Continua a ser uma balada de amor, embora com um intuito diferente, e eu tenho muito orgulho nesta música e na letra da Francisca.”


[“Deusa Coral”]

“É a mesma ‘Deusa’, porque estas faixas partem sempre da mesma música, mas com uma orquestração diferente. Esta tem apenas guitarras, a cargo do Bruno Pernadas. É a única música do álbum em que é só ele a tocar.”


[“Maggie”]

“Esta…”

É o nome por que os teus amigos te tratam, certo?

“É verdade. É mesmo assim que os meus amigos me chamam e por isso até estive quase para dar ao meu projecto esse nome, Maggie, e depois concluí que seria um erro: há 300 mil Maggies no Spotify e no Google… Ainda assim, achei querido dar esse título a uma música que, curiosamente, é aquela de que mais me orgulho neste disco. Eu sinto imenso prazer a ouvir todas estas músicas – isto pode soar pouco modesto, mas é verdade: ouço o meu próprio disco com muito prazer. E fico sempre muito excitada a pensar que mais alguém vai ouvir o disco. Posso estar enganada, mas até agora se alguma das pessoas que já o ouviu não gostou essa pessoa nada me disse. Talvez eu esteja a viver numa bolha, mas ainda bem. Gosto assim [risos].

Esta música foi uma ideia que tive mesmo antes de adormecer, que depois desembocou nesta espécie de bossa nova que, para mim, é assim uma espécie de junção de muitas coisas que eu cresci a ouvir e que estudei. E acho que está bonita. Não tem letra e é provavelmente a minha música preferida no disco.”


[“Aura de Panda”]

“Esta música esteve quase para não entrar, mas é a música preferida de quase toda a gente que já ouviu o disco. Foi uma ideia que eu tive à última hora. Também se inspira em soul dos anos 60. E foi a última a ser terminada, assim mesmo a correr, mas acabou por ficar espectacular. Pusemos o solo do Tomás [Marques] e ficou incrível e a letra é super divertida. Fiquei mesmo contente por a termos conseguido terminar, porque esteve mesmo quase a não entrar.”


[“Deusa de Cera”]

“Esta ‘Deusa’ é uma ‘Deusa’ em que o Bruno pegou e…”

Meteu-a no Madame Tussauds?

“Exacto [risos]. A maquete não tinha título porque ainda não havia uma letra, era assim uma coisa numa espécie de inglês que não fazia sentido, não queria dizer nada, mas que já apontava sons. Ele pegou na maquete, com esses sons, e fez uma ‘Deusa’ à parte. É o Bruno em modo corte-e-costura e está óptima.”


[“Tropicasio”]

“Esta é a minha música mais antiga. Tive esta ideia há uns oito anos. Eu sei que isto pode parecer estúpido, mas eu esava a brincar com um Casio e tive esta ideia tropical e pronto, a coisa é mesmo tão básica quanto isso. Fui trabalhando nisso e ela já esava quase pronta quando se decidiu que devia entrar no disco. Na verdade, esteve quase para nem entrar porque foge muito às outras referências que aqui estão, mas acabou por fazer sentido. Pedi um poema a uma amiga que é actriz, a Sofia Dinger. Ela deu-me esta letra em português e eu gravei e ficou uma maluqueira boa.”


[“Gemma” & “Love Ballad”]

“‘Gemma’ é um separador minúsculo, para acabar o poema da ‘Tropicasio’. Tem uma parte de piano do ‘Physali Fit II’ que depois desemboca na última faixa. A ‘Love Ballad’ foi a primeira música que eu fiz, uma versão de uma música dos L.T.D., de 1976. O cantor original tinha um vozeirão, mas eu fiz esta música porque o George Benson, outra das minhas referências, também tem uma versão deste tema, muito mais rápida do que a original. Eu pensei, ‘e se eu fizesse ao contrário, uma versão ainda mais lenta do que a original?’ Esta é então uma versão lentíssima desta balada que eu adoro. E foi a primeira que eu fiz no Logic, assim completa. Foi o que me fez pensar: ‘e se eu fizesse um álbum inteiro todo nesta onda?’ Foi com esta música que perdi a vergonha [risos].”

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