"Ficámos dessensibilizados" e "entrámos em exaustão emotiva". Quatro meses depois, estaremos a "normalizar" a guerra?

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Quando, às primeiras horas da manhã do dia 24 de fevereiro, as forças russas invadiram a Ucrânia, o mundo acordou em sobressalto e o Ocidente temeu pelo povo ucraniano, pela Europa e pelos tempos em que vivemos. Desde então, nos últimos quatro meses, assistimos a uma sucessão de acontecimentos: bombardeamentos, negociações, avanços e recuos que têm sido noticiados em permanência e ampliados nas redes sociais, à boleia de um sentimento de incerteza e confusão - e que de certa forma já conhecemos de experiências anteriores, como a pandemia.

"Sabemos que acontecimentos extremos, como é o caso da guerra, fazem com que estejamos mais atentos à informação e a todo o tipo de dados que são veiculados sobre os mesmos. O problema é que é pouco provável que esse padrão se mantenha indefinidamente ou seja sustentável", referiu o psicólogo Renato Gomes Carvalho

Mas o psicólogo adverte que, com o tempo, "é previsível a instalação de um sentimento de saturação ou de fadiga" - nem que seja pelo sentimento de impotência de que quem se encontra a milhares de quilómetros ou pela necessidade de dar resposta a outros acontecimentos de vida - "e que pode corresponder a um fator de risco adicional para a importância que damos ao que se está a passar, para a nossa reatividade e envolvimento, e até para a acomodação de alguns impactos económicos, por exemplo, que decorrem das sanções". Na prática - e tal como aconteceu com a pandemia - a certa altura, as imagens e relatos que chegam têm menor impacto em nós, explica.

"E normalizar não quer dizer que aceito a guerra ou que não queira saber, mas sim que não reajo de maneira tão intensa porque fui continuamente exposto a esta informação", esclarece o psicólogo em entrevista à CNN Portugal, acrescentando que, nesse sentido, o termo indicado é de "dessensibilização":

"Ficámos dessensibilizados. E tal não tem um valor moral associado: não quer dizer que estejamos indiferentes, mas sim que, do ponto de vista cognitivo, estamos menos disponíveis. A capacidade das pessoas processarem esta informação é que é diferente".

"E temos de ter em consciência disso", frisa Renato Gomes Carvalho, que refere que "a nível institucional tem de se ter consciência de que não conseguimos ter a atenção das pessoas continuamente": "Se esta guerra se transformar numa guerra contínua a longo prazo, sabemos que, se as pessoas se dessensibilizarem e virem as condições de vida a deteriorar, pode ser perigoso do ponto de vista institucional e do clima social."

"A fadiga emocional que temos foi-se deteriorando com o tempo, tal como no caso da fadiga pandémica", conclui o psicólogo.

"Entrámos em exaustão emotiva"

Já Adelino Cunha, historiador e investigador da Universidade Nova de Lisboa e da Universidade Europeia, lembra que esta é a primeira vez em que há guerra no território europeu com as redes sociais em destaque. O que significa que, nalguns casos, "entre o acontecimento e o público, a intermediação passou a ser feita pelas redes sociais". E, dando o exemplo do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, "ele está a falar diretamente com cada um dos europeus" - o que permite uma mediatização social da guerra.

"Estamos a fazer uma interpretação da guerra exclusivamente emocional", afirma Adelino Cunha, que lança a questão: "Como é que podemos fazer uma interpretação da guerra sem ser pelas emoções?".

"Tendo em conta que a intermediação da guerra tem sido partilhada entre jornalistas, produtores informais de conteúdos e protagonistas diretos, a interpretação dos factos continua a ser quase exclusivamente emocional. Esse permanente apelo às emoções provoca uma exaustão dos públicos. É fundamental insistir na perspetiva do conhecimento histórico: dar contexto baseado naquilo que aprendemos com o passado sem desvios militantes", afirma Adelino Cunha.

Consequentemente, o investigador admite que "entrámos em exaustão emotiva" da guerra: "Isso vê-se nas aberturas dos jornais televisivos e no comportamento das redes sociais": a atenção está a virar-se para outros temas, nomeadamente a inflação, o aumento das taxas de juro e preços dos combustíveis.

A Rússia lançou, a 24 de fevereiro, uma ofensiva militar na Ucrânia que já matou 4.597 civis e deixou 5.711 feridos, segundo dados da ONU, que sublinha que os números reais poderão ser muito superiores.

A invasão russa da Ucrânia foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e a imposição à Rússia de sanções que atingem praticamente todos os setores, da banca ao desporto.

2022-06-24 08:00 Rafaela Laja

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