FMM 2022: antes de Sines houve Porto Covo

1 mes atrás 37

Sim, o Festival de Músicas do Mundo não é só no castelo da cidade de Sines, inicia-se antes na aldeia uns quilometrozitos mais abaixo. O Rimas e Batidas esteve lá em dois dos três dias e conta como foi, em complemento da série de reportagens que fomos publicando.

Quando um festival tem por nome FMM Sines, parece haver a tendência para esquecer que o dito começa no fim-de-semana anterior um pouco mais abaixo, em Porto Covo. Não o público (ou os públicos, porque se misturam vários, desde malta branca com rastas – ups, apropriação cultural, que antes de rumar ao Boom passa pela aldeia alentejana, até gente com cabelos brancos, alguma até contribuindo para o cheiro a ervinha que paira pelo ar). Pois foi aí, a 23 e 24 de Julho passado, que este ouvidor foi banhar-se nas músicas do mundo, e também nas águas das praias ali perto. Falhou-me o primeiríssimo dia, porque estava noutras andanças.

O programa reservado para Porto Covo justificava esses preliminares, ao mesmo nível do que viria a seguir na cidade perto, com a vantagem de todos os concertos (ao ar livre, saliente-se) serem grátis. Entenda-se que vantagem para quem lá vai e não quer, ou não pode, pagar entrada, razão também para o campismo selvagem que se espalha pelas falésias a Sul, ali mesmo à beira da praia e a Norte, porque esta prática autárquica dá também a entender a muitos que os músicos, tal como a restante humanidade, tem de comer e pagar contas. 

Pois era o que se esperava depois de dois anos e tal de confinamento: um magote de gente. Gente que tropeçava nos pés uns dos outros para se deslocar, que batia em objectos invisíveis deixados no chão porque não dava para ver o dito chão e que era empurrada à bruta por homens (masculinidade tóxica, curioso numa edição do festival pensada no feminino), gente que metia os dedos na boca para assobiar mesmo ao lado dos ouvidos dos outros. Uma nota só mais para esta descrição: devia ser homem, também, quem manipulava as luzes do palco e nos atirava com leds brancos para a cara.

O som, lamento, não se comportou de melhor maneira. Baixos a cobrir tudo e vozes a serem deixadas para segundo plano, quando eram elas as protagonistas. O que vale é que era uma festa e houve concertos de estalo. Desculpou-se que o trompete de Diogo Duque se ouvisse mais do que a voz de Aline Frazão, que abriu a noite de sábado de forma muito agradável. Com balanço jazzístico e cores angolanas (mas também abrasileiradas), a cantora proporcionou-nos um bom arranque para a longa noite que se teve de passar de pé, a não ser quando a demasiado aconchegadinha multidão fazia com que ficássemos no ar, em meio aos passos de dança.



Um dos melhores momentos do fim-de-semana aconteceu logo de seguida, com as catalãs Maruja Limón, um grupo inteiramente de mulheres. Foi então que ficou mais evidente o pendor feminista e LGBTQ deste FMM, na atitude, nas letras e nas intervenções faladas entre canções. Uma delas foi um apelo ao respeito pelas pessoas trans, parecendo que a banda de Barcelona tinha lido as alarvidades que foram publicadas pela imprensa portuguesa por essa mesma altura. Foram muitas as aprovações surgidas da plateia ajardinada, mas também houve um sujeito, já com os copos, que repetia incessantemente “PCP, PCP, PCP”, em contrariação e julgando-se que por influência do texto transfóbico, anti-queer, de má-fé e mal informado escrito pela comunista lésbica Joana Tomé, que assim se juntou ao coro dos reaccionários do costume (e de outros, novos, que andam a esticar o pescoço para aproveitarem os ventos fascistas de feição) e de umas figuras que já foram “fedorentas” e, num caso em particular, que é dona de uma certa “padaria” bué iluminada, mas que explora os seus trabalhadores.

Seguiu-se Daymé Arocena, de Cuba, a gusto mas sem surpresas de maior e depois Baiuca, da Galiza, um misto de canto tradicional pelas irmãs pandeiras Andrea e Alejandra Montero e de beat techno/club music por Alejandro Guillán. Foi quando mais se dançou, apesar da irritação causada pelo facto de uma das cantoras estar com o volume mais baixo do que a outra e de as vozes de ambas parecerem que vinham de Aljustrel. Bom, depois foi montar a tenda no escuro, partir os óculos (no domingo já não deu para distinguir as caras em cena), dormir e, ao raiar do sol, descer ao mar. 

No domingo falhei a quebequiana Dominique Fils-Aimé, porque a janta (primeira refeição verdadeira do dia, porque o Atlântico e o sol falaram mais alto e me dediquei à minha segunda vocação, a de massagista) atrasou-se, mas que boa, que boa, foi a intervenção que veio logo depois de Maya Kamaty, das Ilhas Reunião. Intervencionista, artivista, com raízes na música indiana e com mensagem sáfica ou em prol da justiça social. O cenário mudou completamente, aprés, com a percussionista luso-francesa Lucie Antunes. O paradigma minimalista da sua música, meio Steve Reich e meio dream pop, congelou a assistência nos primeiros 20 minutos, mas as pulsações foram acelerando e ficou tudo a pular em cima dos pés dos outros.

O fecho da noite foi terrível, com o fenómeno TikTok de Marina Sena, a cabeça-de-cartaz de Belo Horizonte (cidade linda do Brasil onde nasceram as super hiper Érika Machado e Bia Ferreira) do bloco de concertos de Porto Covo. Vá lá saber-se porquê, pois a cuja, desculpem dizer isto, não tem voz, não sabe cantar e usa coreografias tão básicas que até eu me mexo mais. Bem sei que ela justifica as nádegas ao léu (não que eu as tivesse percebido na minha cegueira sem óculos) como empoderamento, mas só serve o gaze hetero-normativo dos homens que lá estavam a babar-se. Esta era das redes sociais não tem sido apenas a mediadora da estupidez e do ódio humanos, também anda, decididamente, a disseminar o mau gosto e o engano.

E pronto, não se esqueçam para o próximo ano que, antes de Sines, há Porto Covo. Mil perdões pelo atraso, mas entretanto fiz uma entorse grave num pé. Numa rocha da praia, pois.


Ler artigo completo