FMM Sines’22 – 28 de Julho: Manifestos sonoros para pensar em coletivo

1 mes atrás 33

Sines acordou uma cidade diferente nesta quinta-feira (28). Não só pelo impacto do concerto transcendente de Mdou Moctar ou pela explosão de ska punk dos bósnios Dubioza Kolektiv, mas também porque situações assim intensas são a justificação quasi-perfeita para descansos ainda mais exorbitantes. 

Contudo, tentamos não ceder à moleza a assolar mente e corpo e, neste segundo dia da nossa passagem pelo Festival Músicas do Mundo, fomos em busca de, em primeira instância, explorar além do centro histórico da cidade de Sines. Nessa pequena aventura matinal e pós-almoço, rapidamente percebemos que, apesar do movimento do festival, Sines continua a movimentar-se, nestas horas do dia, vagorosamente. Os muito guarda-sóis à beira-mar justificavam muitas destas casualidades, mas o próprio tempo ajudava – um ameno perfeito, onde as brisas do mar acalmavam qualquer calor em demasia que pudesse surgir. Todavia, nem esses fatores impediram-nos de nos deslumbrarmos com uma versão de “Let It Be” em estilo flamenco numa das ruas da cidade ou de um apetitoso polvo à lagareiro n’A Taska dos Figas. 

Terminadas as nossas cusquices pelo que Sines tinha para oferecer, estava na hora de regressarmos àquilo que nos trouxe até à costa alentejana: a música. Mas antes de irmos aos concertos propriamente ditos, há que haver espaço para mencionar uma das iniciativas que nos chamou mais à atenção no programa do FMM de 2022, o debate “Escrever sobre música em Portugal. Há mulheres que o fazem?” que aconteceu pelas 16h30 no Centro de Artes de Sines com a presença de Lia Ferreira, jornalista da Blitz e do Expresso, Inês Nadais, atual editora de cultura do Público, e a jornalista Sofia Branco. Ao longo de mais de uma hora, discutiram-se os temas em torno da presença de vozes femininas no jornalismo e crítica musical portuguesa, tentando chegar a uma “hipótese” ou conjunto de “hipóteses” – curiosamente, um tema abordado no texto do mais recente aniversário do ReB –  para ainda existirem tão poucas mulheres a escrever sobre música em Portugal. 

Mesmo que o debate tenha sido demasiado curto para a pertinência e urgência do tema em questão, continua a ser de louvar a existência destas iniciativas, nem que seja para iniciar mais futuros debates sobre o tema. As razões multiplicam-se para tal. Primeiramente, para se poderem ouvir as vozes de quem já tem experiência no meio para (tentar) identificar possíveis causas para o dilema e, segundamente, para se tentar criar possíveis soluções para o problema, com a visão de se criar um ecossistema nesta área com mais vozes diversificadas, onde a pluralidade das opiniões e vozes do meio vão além da heteronormatividade masculina vigente para que o jornalismo musical em Portugal contribua para a criação de uma sociedade mais inclusiva e progressista.

Concluído o painel de discussão, foi hora de regressar ao interior do Castelo visando arranjar um bom lugar para o concerto da cantora, compositora e “artivista” brasileira Bia Ferreira. Para além do contentamento em atingirmos o nosso objetivo, ficamos ainda mais felizes quando, praticamente às 18h em ponto, fomos agraciados com a entrada em palco da artista, de “arma” (o seu violão) em punho, enunciando para todos ali, primeiro, a alegria de ter tanta gente a querer partilhar este momento com ela – afinal, o Castelo estava praticamente cheio para a ver – e, segundo, informando a expectativa de que esperava as pessoas saírem do seu concerto indivíduos diferentes.

Havia boas razões para Bia Ferreira efetuar uma afirmação desse calibre. O seu concerto, acima de tudo, foi um manifesto político e social, onde a música – ótima, relembre-se – serviu de veículo para as histórias que pretende contar, sejam das suas próprias vivências, seja da história da comunidade LGBTQIA+ e da população negra no seu Brasil. Não foi à-toa que começou o concerto com uma espécie de canto de abertura, invocando a importância da arte para a consciencialização, antes de no final, e já acompanhada pela sua banda – uma teclista e uma baterista – em palco, voltou a relembrar: “Que a arte aqui presente faça diferença na sua vida”.

Continuando o seu show, Bia Ferreira procedeu a tocar um conjunto de faixas de Igreja Lesbiteriana, Um Chamado, o seu mais recente trabalho discográfico, que dominou grande parte das atenções da setlist. “Não Precisa Ser Amélia” abriu as hostilidades à séria, mostrando logo que, apesar da importância e urgência dos temas das canções de Bia Ferreira, as grooves eram impossíveis de resistir e o abanar de anca era imperativo em todo o momento. Para educação e elucidações deste estilo, estamos (mesmo) sempre disponíveis.

Se “Não Precisa Ser Amélia” trouxe à baila temas como a brutalidade policial e a crueldade da sociedade brasileira para com pessoas da comunidade LGBTQIA+, “De Dentro do AP”, tocada quase de seguida, revelou-se como um hino anti-precariedade com direito a um momento de beatbox e vocalizações que mereceram exaltações por parte do público. Porém, se essas exaltações em forma de carinho por parte do público já se mostravam intensas, daqui para a frente foi um avivar constante de sentimentos entre ambas as partes. “Levante a Bandeira”, cantada com raiva no coração, “Só Você Me Faz Sentir”, a transpirar suavidade e delicadeza, e o forró rítmico de “Pote Fundo”, a convidar uns quantos casais a trocarem passos de dança abraçados, celebraram o amor e rechearam o castelo de Sines com esperança, relembrando que com esse sentimento, não pode (nem deve) existir qualquer tipo de preconceito.

Momentos como a comunhão sentida ao longo destas canções também nos estimulam para outro tipo de pensamentos além-concerto. A música de Bia Ferreira, além da sua qualidade enquanto comentário social, consegue-nos relembrar do quão importante é o ideal coletivo e da união do povo para se mandar abaixo estados fascistas que permitem a chacina da população LGBTQIA+ e da população negra sem qualquer dó nem piedade. Nesse sentido, “Diga Não” teve ovação merecida pela eficácia da mensagem transmitida, tanto através das suas grooves hipnóticas e da interpretação aguerrida de Bia, como da sua poesia direta ao assunto. No final de “Diga Não”, ainda foi dita, em voz alta, a mensagem resumo para o futuro do Brasil, para que ninguém a esqueça: “Fora Bolsonaro”.

Mas falando em futuro, o próximo longa-duração de Bia Ferreira está no horizonte. Sairá no “próximo mês”, como indicou a artista antes de proceder a tocar “A Conta Vai Chegar”, uma das faixas que integrará esse seu próximo projeto. Se a dedicatória aos imigrantes oriundos de África, aos brasileiros presentes no interior do Castelo e a todos os que visitaram o FMM oriundos de países afetados pelo colonialismo não fosse o suficiente, o desenrolar da faixa tornou óbvio a sua agenda anti-imperialista, antifascista e anticapitalista. Da nossa parte, tudo certo.

Todavia, não se assuma que os temas pesados colocavam algum tipo de entrave à festa que se fazia sentir no interior do Castelo. Houve muito espaço para dança e para a celebração da identidade própria, mas também do coletivo que se cria quando os individualismos são colocados de parte para a inclusão em comunhão imensa. “Bota Fé” manteve a energia ao máximo com o seu refrão orelhudo, dando o mote para se iniciar os procedimentos que levariam à conclusão do concerto. Primeiro, uma aula de história ao vivo preparou-nos para “Cota Não É Esmola”, cantada e tocada com toda a pujança e emoção como se toda a gente em palco tivesse sido possuída pelo fantasma dos seus antepassados, e, quando tudo parecia ter terminado, houve direito a encore com “Sharamanayas”, canção que fecha Igreja Lesbiteriana, Um Chamado, a justificar muitos coros por parte do público que bem se estenderam depois da artista e da sua banda abandonarem o palco para dar por conclusão esta cerimónia que, bem podemos dizer, tem a inclusão e o pensamento comunitário como religião. Um maravilhoso concerto e uma incrível aula de cidadania e história por parte de Bia Ferreira que esta foi, com certeza.

É com o coletivo e com a comunidade em mente, então, que avançamos no enredo do segundo dia da passagem do ReB pelo FMM. Mais concretamente, avançamos para o concerto de Ana Tijoux, a iniciar-se com quase 40 minutos depois da sua hora inicial esperada – as 23h. Surgindo acompanhada por uma banda ao vivo formada por um baixista, uma bateria, um teclista e um conjunto de sopros, o concerto da rapper chilena – uma das acarinhadas e aclamadas da América Latina – na edição de 2022 do FMM marcou o seu regresso a Sines, sete anos depois da sua última passagem pelo festival. Porém, entre 2015 e 2022, Ana Tijoux não colocou cá fora nenhum álbum – em 2020, até chegou a ser anunciado um novo disco, mas até hoje, ainda não se materializou . Por isso, grande parte do seu set foi uma travessia por faixas de 1977 e Vengo, dois dos seus mais emblemáticos trabalhos. Não se pense que isto é algo de mal, contudo. A música de Ana Tijoux tem aquela aura de intemporal, e estas canções, transportadas para cima de um palco, continuam a ter energia para dar e ver e mensagens que continuam a ter de repetidas ainda hoje.

Foi precisamente com duas faixas de Vengo, aquele que é o seu mais recente longa-duração, lançado em 2014, com Ana Tijoux iniciou sua passagem pelo FMM de 2022. “Mi Verdad” marcou os passos iniciais do concerto, bem groovy, com “Vengo” de seguida a fazer aumentar a energia, abrindo espaço para que “Sube” – dedicada aos estudantes que continuam a protestar em busca de mais reformas e melhores condições para o povo chileno – finalmente conquistasse o público do Castelo.

Antes de prosseguir com uma intensa e emocionante versão ao vivo de “Sacar la Voz”, um dos temas mais icónicos de 1977, Ana Tijoux certificou-se que o mote desta quinta-feira, 28 de julho, no FMM, era mesmo o de tentar estimular o pensamento coletivo. Num discurso emocional, a rapper muniu-se da sua capacidade com palavras para se pensar em coletivo dado a situação política e social atual a nível global, pedindo para se tentasse caminhar na direção de novas formas de organização – outra vez, e bem, o pensamento anticapitalista a vir ao de cima –, rumo a uma “utopia” que, na realidade, devia ser um objetivo e não uma simples miragem.

O concerto prosseguiu com mais uma passagem por 1977 – desta vez, pela energética faixa que dá título ao disco –, antes de irromper em “Antripatriarca”, onde o seu refrão orelhudo e imponente remata a poesia interventiva (feminista, anticapitalista e anti-imperialista) da rapper nos versos, havendo espaço para palmas e coros por parte do público e chamamentos por parte da artista para o público de forma a entender quem ali se encontrava do “seu povo” – leia-se, da América Latina – para iniciar a festa rumo à sua libertação das garras afincadas dos países do Norte global.

Mantendo a ideia de bangers antifascistas bem viva, Ana Tijoux procedeu a disparar com dois dos seus mais recentes temas. “Antifa Dance” atirou-nos para o universo do nu-jazz, relembrando-nos como sabe muito bem navegar estes diferentes universos sonoros, sempre à sua maneira, e “Pa Que” transportou todo o castelo de Sines para as calles do seu Chile, servindo-se como uma espécie de forrobodó onde a dança foi a peça que faltava a este concerto que, agora na sua reta final, virava festa. Foi mesmo em festa, então, que terminou o concerto, com “Somos Sur”, tema de Vengo, celebrando-se o orgulho da história e, também, da música latina. Sempre em coletivo, claro.

Se o mantra desta quinta-feira no FMM era mesmo o ideal de coletivo, então fez todo o sentido que as operações no interior do Castelo tenham sido terminadas com o concerto dos Steam Down, um dos mais excitantes coletivos a florescer na cena de jazz londrina. Apesar de o concerto ter começado quase uma hora depois da hora pretendida – certamente, o cansaço já começava a ser o inimigo de muita gente –, o concerto dos Steam Down serviu como uma injeção de energia para aguentar o que faltava da noite. 

Em palco, o grupo começou por se apresentar apenas com um baterista e teclista, mas rapidamente ganharia a sua forma completa. Uma linha de teclado suave e onírica ia criando espaço para os primeiros ataques à bateria, crescendo até que Ahnansé, carismático e bem-humorado saxofonista e vocalista que lidera o coletivo, junta-se à festa, procedendo a destilar riffs e movimentos com o seu instrumento como quem quer romper com todas as noções do que é visto como ritmo e groove a partir de uma perspetiva ocidental e branca. 

Com todos os instrumentistas em palco, o grupo desenrolou duas faixas de instrumental ao longo dos próximos minutos, levando todo castelo de Sines numa verdadeira viagem cósmica, conseguindo, simultaneamente, aquecer a noite fria que se fazia sentir em Sines e apresentar a sonoridade futurista que marca o seu afro-jazz

A primeira parte do concerto dos Steam Down foi marcada particularmente pelas suas vibes imaculadas, enquanto a reta final do concerto foi marcada por uma energia contagiante. Durante a parte primeira parte do concerto, a banda desfilou temas como “Etcetera” – já com a companhia de uma vocalista e MC em palco, lado a lado com Ahnansé a incentivar o público a mexer-se – ou “Empower” para boa receção do público, preparando terreno para um dos momentos altos do FMM deste ano. Bebendo da ambiência de Sines e das energias do público, os Steam Down fizeram uma jam session ao vivo para deleite da audiência, conseguindo a proeza de nos transportar para o seu quotidiano de Londres e, em simultâneo, fazer-nos olhar-nos para o futuro que, com comunhões deste estilo, só pode mesmo ser – adivinhe-se – atingido a pensar em coletivo. 

À semelhança do que aconteceu quando marcamos presença no concerto do coletivo no Teatro da Trindade INATEL, em 2021, os Steam Down deixaram para o final “Free My Skin”, lançada para o ar com espírito negro e interventivo à cabeça para suscitar as mais frenéticas danças, e “Can’t Hold Me Back”, uma explosão de groove que patenteou definitivamente o ideal comunitário que deixou a sua marca nesta quinta-feira de FMM. O Festival Músicas do Mundo prossegue pelas ruas de Sines esta sexta-feira (29) com concertos de artistas como Fado Bicha, Niño de Elche ou Crystal Murray, entre outros.

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