FMM Sines’22 – 30 de Julho: A alegria e honra de testemunhar o adeus aos palcos de Omara Portuondo

1 mes atrás 29

Não se meçam as palavras nem se entre em rodeios. O último dia (30) do Festival Músicas do Mundo 2022 tinha aquele que muito possivelmente seria o nome mais aguardado da edição deste ano: Omara Portuondo.

São escassas as palavras para descrever a vida e legado de Omara Portuondo no mundo da música. Princesa do filin, senhora maestra do son cubano, ícone do jazz, a sua carreira é de uma longevidade invejável, estendendo-se dos anos 50 até aos dias de hoje, passando por grupos como as Cuarteto d’Aida ou os Buena Vista Social Club, culminando nesta digressão de despedida dos palcos em que Sines teve o enorme prazer de a receber, e de braços bem abertos.

Naturalmente, sendo isto possivelmente uma oportunidade única de poder presenciar uma lenda viva como Omara, as muralhas do castelo de Sines ficaram a abarrotar com tanta gente a encontrar-se no seu interior. A expectativa era muito alta e, quando pouco depois das 22h, a apresentação da artista fez-se ecoar pelo PA do recinto, a aclamação e carinho do público fez-se imediatamente sentir, dando o primeiro mote de um concerto mui-especial que deixou a sua marca na edição de 2022 do FMM e, arriscamo-nos a dizer, na própria história do festival.

Após se ouvir a apresentação da artista, tivemos a primeira oportunidade de ver a banda que a acompanha em palco a mostrar as suas qualidades, tocando grooves bem afincados para aquecer o público para o momento que toda a gente esperava: a entrada de Omara Portuondo em palco. Com a ajuda do seu teclista, a vocalista lá se deslocou para a sua poltrona, sempre de sorriso na cara, como quem sabe de que o palco é o seu habitat, enquanto houver palcos para cantar, há também vida (e amor – sempre amor) para dar. A sua primeira saudação do público, um pequeno olá e um acenar de mãos, garantiu logo resposta. Estava tudo pronto, então – que começasse o espetáculo.

Para abrir as hostilidades, Omara e a sua banda procederam a tocar “Tabú”, canção belíssima incluída no seu disco Flor de Amor, onde os 91 anos da artista pouco se sentem na sua voz. As primeiras notas de “Tabú” a serem cantadas foram de arrepios débeis para quem as ouvisse e de arrepios magnânimos para quem as sentisse. Os aplausos no final deixam-nos a pensar, contudo, que foi mais o segundo caso em abundância que o primeiro. Afinal, como é possível não se emocionar a presenciar (e a sentir) tudo isto?

Aproveitando-se do sentimentalismo que já embebia o castelo e, talvez até, se propagasse por toda a cidade de Sines, o concerto continuou com uma belíssima rendição de “Quizás, Quizás”, com muita palma a acompanhar, seguida de “Solamente una Vez”, interpretada por Omara com a emoção de quem já viveu muitas vidas, acompanhada sempre afincadamente pela sua banda. As ovações no final de ambas as músicas provaram, mais uma vez, que o público se encontrava em sintonia total com a sensibilidade da artista, entregando-se de corpo e calma nesta chance de uma vida de presenciarmos Omara em cima de um palco. Mas se é para falar de amor a ser oferecido de bandeja, que dizer dos acompanhamentos em coro a canções como ”Veinte Años”, canção icónica dos Buena Vista Social Club, ou “Tal Vez” (faixa gravada com Maria Bethânia para Omara Portuondo e Maria Bethânia), estendida em beleza nos seus grooves românticos e cantorias quase infinitas, respondidas sempre com carinho por parte do público. 

No final do concerto, marcado pela interpretação magnífica de “Dos Gardenias” e “Bésame Mucho”, a ovação geral do público para com a artista, sempre de sorriso esbatido na cara, a divertir-se como alguém que respira e vive música, foi o coroar de uma noite onde só podemos sair felizes, de orelha a orelha, por termos tido a honra e prazer de presenciar, em carne e osso, uma lenda viva como ela. Se isto foi mesmo a última noche em que a vimos, só nos podermos dar por contentes por assistirmos a tamanha comunhão para celebrar a vida, o legado e a musicalidade de uma artista sem igual. Do fundo do coração: Obrigada, Omara.

Contudo, se o concerto da artista cubana foi a grande atração do dia, que mais teve o FMM para nos oferecer no seu último dia?

Primeiro, ao final da tarde, sob um sol quentíssimo a torrar a cidade de Sines, tivemos a oportunidade de assistir a mais um concerto de Pedro Mafama. Já muito se escreveu aqui no burgo do Rimas e Batidas sobre o autor de Por Este Rio Abaixo, mas nunca é demais apreciar o seu talento e, de como com cada concerto, parece ter um aumento de confiança e presença em palco capaz de cativar cada vez mais gente. Faixas de Por Este Rio Abaixo como “Leva”, “Estaleiro”, “Algo Para a Dor” ou “Borboletas da Noite” foram resgatadas para apogeu do público, enquanto “Lacrau” fez as delícias dos fãs presentes em Sines que estão com Mafama desde o início. No final, um encore merecido com “Não Saio”, tocada pela segunda vez e com direito a cumprimentos diretos aos fãs das primeiras filas, marcou o derradeiro triunfo de Pedro Mafama perante o FMM. Afinal, Sines é uma cidade piscatória: que melhor palco para a sua música do que este?

Segundo, ficamos para assistir à festa do Castelo feita ao som de Sean Kuti e dos seus Egypt 80. O filho mais novo de Fela Kuti, pai do movimento afrobeat, fechou os concertos no Castelo da melhor forma possível – com direito a fogo de artifício e tudo. Canções como “Love and Revolution” ou “Emi Aluta” fizeram-se ecoar pelo Castelo, celebrando a música negra, a diversidade e a consciencialização como só ele o poderia fazer naquele momento – com ritmo, amor e devoção ancestral para antepassados a serem encarnados nos muitos passos de danças a replicarem-se por entre palco e público.

A festa, contudo, não terminou por aí. O coração de Sines continuou a bater noite dentro, até que os primeiros nevoeiros da manhã deste domingo (31) caírem sobre a cidade. Para nós, a missão estava finalmente completa com o acordar do novo dia. E quem diz nós, diz para todas as pessoas que tiraram tempo para vir viver, ao longo de vários dias, a comunhão e a diversidade musical que pode (e deve) ser visto como verdadeiro serviço público.

De quem vos escreve deste lado, no final da sua primeira visita ao FMM, fica a dica: se tiveram a oportunidade de virem ao festival, não a desperdicem. Vale a pena. É um serviço publico que, apesar de ter sempre o “problema” de cair num caldeirão associado ao termo hórrido que é a “world music”, revela-se extremamente importante nos seus dogmas de educação cultural, de exposição a aventuras musicais e sonoridades que, num mundo “pós”-pandemia e crescentemente globalista (para o melhor e para o pior que isso pode ter), têm de ser constatadas pela Europa e pelo Ocidente branco como muito mais do que apenas algo exótico. Que em 2023 o Festival Músicas do Mundo regresse (esperemos que não haja interlúdios infortúnios frutos da mãe natureza…) e com ainda mais vontade de quebrar barreiras e consciencializar – para o coletivo, já agora.

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