"Insultos racistas? Processo educativo já passou. O jogo tem de terminar, ponto"

3 meses atrás 94

O futebol tem reproduzido com nefasta constância abjetas injúrias raciais. Aqui fica uma visão ampla do problema

Thuram passou a carreira a alertar para episódios de racismo que sofria em Itália, quando era uma referência do Calcio, decorriam os anos 90 e nunca deixaram de ter eco casos perturbantes de insultos em estádios, atentatórios da dignidade. Muitos jogadores se queixaram, outros de fora repudiaram, anos e anos passaram, entrelaçados em décadas e nunca existiram políticas desportivas, suportadas em medidas estatais, que tenham permitido eliminar o foco de desdém racial em jogos de futebol. O tema continua presente, dominante na agenda de muitos países, a sua discussão repete-se como prioritária, mas tarda-se em repor uma imagem firmemente airosa e salva de preconceitos de qualquer espécie.

O caso de Vinícius fechou a liga espanhola com gritos de indignação pelo que sofreu o atleta em Valência, mas, simultaneamente, com provas efetivas de que há um pensamento racista dissimulado por outras questões ou até ignorância. Falámos com Nuno Silva, um dos responsáveis da SOS Racismo, em Portugal, com a particularidade de percebermos o que continua errado ou por fazer, sendo o nosso entrevistado um feroz - apenas na dedicação e paixão - adepto de futebol, que vai a jogos quase todos os fins de semana.

"Não consigo imaginar o que é estar na pele do Vinícius, ser constantemente alvo de insultos, uma época inteira, e chegar a um limite, um modo explosão, por assim dizer, num jogo de alguma tensão. Só pode ter sido horrível, alguém que joga pelo prazer do jogo, exerce a sua profissão e do princípio ao fim vive isto. O jogo tem de terminar, ponto!", assevera. "Há medidas previstas nos regulamentos, porque o jogo pode ser interrompido numa primeira fase até que os ânimos acalmem, à semelhança do que é feito com questões climatéricas. Basta que se entenda o caso como uma agressão bárbara, que é, porque agride o espírito do jogo e tudo o que se possa passar dali para a frente é adulterado", explica Nuno Silva, entendendo que estes acontecimentos ferem a verdade, até porque o próprio dentro do calor dos acontecimentos.

"A partir deste ponto não estamos a falar de futebol. Há um jogador impedido de se concentrar, violentamente agredido e ninguém da organização do jogo o defende, a não ser alguns colegas que pedem calma aos adeptos. Mas a fase de pedir calma já passou, sou adepto fervoroso de futebol mas não tenho disponibilidade para ver um jogo nestas circunstâncias", conta o responsável", tentando colocar travão num chavão instituído.

"Há um pouco a conversa moral de que o desporto deve avançar sempre para que o mal não vença. Mas é preciso perceber que, em casos de racismo, o que vem a seguir não importa", relata Nuno Silva, compreendendo o que alguns reclamam, que só uma equipa retirar-se, por inteiro, do campo, fará mudar mentalidades.

"Há um papel de todos para resolver isto. Os adeptos têm-no. Os que sabem ver um jogo e não compactuam com isto devem sair do estádio, os jogadores que não compactuam também o devem fazer, é certo! Mas a primeira responsabilidade é de quem organiza os jogos. São as autoridades que devem tomar medidas, mesmo que haja sempre responsabilidades individuais, até porque uma resposta coletiva é mais eficaz", admite e contra-ataca. "O futebol padece de uma cultura que tende a desculpabilizar a violência. Se apertarmos nas condutas entre jogadores, entre jogadores e árbitros, seria uma mensagem clara quanto ao desrespeito ou comportamentos violentos", invoca.

"Processo educativo já passou"
Nuno Silva reage ainda com incredulidade face à onda de alguns comentários culpabilizantes para o atleta.

"Isso é a celebre desculpa do "vem de minissaia e pôs-se a jeito". Não há comportamento algum de um jogador que justifique insultos raciais. O futebol é contraditório, por um lado é o desporto que mais une cores, nacionalidades e proveniências, tudo é admitido, mesmos em países com altos índices de xenofobia. Há uma diversidade enorme mas não chega", argumenta. "Se não gostamos de um jogador, há um espaço criativo, e até de algum humor, para o fazer, mesmo que não seja admissível, à luz dos regulamentos. Isto para dizer que não estamos a pedir que o futebol seja um espaço completamente higienizado, porque fazem parte alguns berros, comportamentos mais exacerbados, mas nunca marcar alguém de forma racista para o tentar perturbar e, assim, adulterar as regras do jogo", explica Nuno Silva, analisando o caso de Vinícius associado a outros, que tiveram mais repercussão por cá.

"Não é um caso isolado, e é a prova de que temos um problema em mãos, o que se passa no futebol é uma dimensão da nossa vida em sociedade, se existem tais comportamentos, o futebol também os vai reproduzir. Há, sim, um espaço de condescendência maior para com a violência ou uma conivência que não faz sentido, nem se vê noutros desportos. O caso Marega foi interessante, porque foi a primeira vez que me apercebi de um jogador ameaçar abandonar o campo. Esse jogo devia ter terminado, porque não há valor superior à dignidade humana", revela, mergulhando no vazio que veio à tona depois de tanto falatório. "Condenou-se muito, foram abertos processos, aplicada uma coima ao Vitória. Mas, agora pegamos nisto, a coima foi irrisória e o Tribunal anulou todas as decisões que surgiram por falta de prova no que à captação sonora do estádio diz respeito. A sociedade não tem mecanismos eficazes para combater o racismo, aplicar coimas para questões desta dimensão não é aceitável", acusa, deslizando o dedo para outra ferida.

"Acho positivas as campanhas de sensibilização, nada contra, mas, perceba-se que o processo educativo já passou. Dizer não ao racismo já não é relevante, são precisas alterações significativas nas ferramentas jurídicas. Há uma Comissão para a Igualdade e contra a Discriminação Racial inoperante. Crescem reclamações e isso não se repercute nas condenações. No futebol é a mesma coisa. É preciso ir mais longe nos instrumentos jurídicos, mas, primeiro, sem perder mais tempo, deve-se aplicar o que há. Já poderia funcionar. É preciso uma abordagem diferente, menos tolerante e dar seguimento a condenações muito mais vezes", reclama.

Ler artigo completo