Irreversible Entanglements no Jazz em Agosto 2022: activismo no Jardim das Rosas

1 mes atrás 36

Todo o acto é político. Um concerto de Moor Mother e Irreversible Entanglements é manifesto em catadupa. Uma leitura e leitura requer solenidade. Haverá momento mais cerimonial que o silêncio? Camae Ayewa conhece a linguagem e respectivos códigos, todos em cada um dos seus detalhes. Silêncio e uma volta completa ao palco ou já podemos começar a chamar de ringue? Vestido negro. Antecipar. Criar tensão. Ainda não se avistam, mas sentem-se. Os nossos demónios individuais, colectivos, nacionais. Do quotidiano, de cada dia em tensão e de memória(s) histórica(s) escondidas e mal resolvidas. Ainda não os vemos, mas sentem-se. Os que em nome de uma moralidade nos querem impor condutas, os que em nome de religiões oprimem e os que em nome de uma raça matam. O subconsciente está consciente bem leve e desperto. As imagens, as de Bruno Candé, da esquadra de Alfragide, de disparos que atravessam carrinhas e matam filho de cigano ou de Cláudia Simões, algemada e espancada pela polícia em frente à filha de oito anos. Cláudia Simões! Cláudia Simões! Cláudia Simões! Pequenos elementos percussivos começam a ser agitados. O som sublime. Agarram-se os pratos de uma bateria dispostos no chão de cimento, chapa e outros elementos metálicos, a Moor Mother junta-se Keir Neuringer (saxofonista, sintetizadores e percussão). Começam a bater com força. O som (“the sound”) é frontal. Frente a frente. A tensão acumula-se. O confronto é próximo. Agora, não somente um, nem dois, mas todos os elementos Aquiles Navarro (trompete, sintetizadores), Luke Stewart (contrabaixo) e Tcheser Holmes (bateria, percussão). Os cinco e um auditório cheio. Preparados para uma hora e meia de luta? Preparados para lutar pela liberdade, sem início nem fim. A luta começa. Open The Gates.

Moor Mother num microfone e as palavras em arremesso. Claras e afiadas ao início. Um microfone, dois microfones, uma só voz. As palavras, sempre a palavra, menos perceptíveis entram num mantra e numa proclamação dos direitos civis. Todo o acto é político. A repetição. Repetir para não esquecer. Repetir para consciencializar, consciencializar entrando no subconsciente de cada um. The sound, the sound uma e outra vez. Os fantasmas acordam. Dois microfones, junto à goela, porque a palavra é de ordem, é grito. O som adensa-se, transforma-se em massa. Luke Luke Stewart, num contrabaixo imparável e um amplificador como seu aliado, Tcheser Holmes na bateria sem descanso, Aquiles Navarro no trompete que penetra pelo microfone sondando as vozes do interior, Keir Neuringer acompanha-o nos sopros ou parte para os sintetizadores acrescentado massa e divergência. Calma momentânea. Ligeiro descanso. Carregam. Estamos num museu de arte contemporânea, lembra-nos Moor Mother. Estamos e somos objecto de apropriação. “They don’t us let go”, “they don’t us let go”, “they don’t us let go” continua impiedosamente. Não nos deixam sair porque somos uma sociedade construída sobre o princípio do dinheiro, da acumulação. Do capitalismo manchado com sangue, do capitalismo que se serviu e serve da escravatura, do capitalismo que tudo absorve e que tudo transforma em matéria mercantilizável. Estamos num museu de arte contemporânea — não esquecer. Calma, calma aparente. Moor Mother agarra noutros objectos de percussão, com eles bate na mesa de partitura. Manifesto contra os discursos formatados, como em ano anterior fizeram Von Calhau no mesmo palco? Fica a dúvida. Miles Davis e a referência a “Jack Johnson“. Dúvidas não há, estamos num museu de arte contemporânea feito ringue de box. “Freedom and love”, “freedom and love” porque há luta e no final ainda há esperança. Os dois como os maiores aliados seja na Gulbenkian, em Lisboa, Filadélfia, Chicago, Brooklyn, em casa, nas escolas, nas ruas. Moor Mother dança. Feliz pelo regresso a Lisboa, cidade que bem conhece, feliz por um despertar das consciências e pelo público que aplaude de pé a ela e aos restantes elementos de Irreversible Entanglements.

Mas o desconforto só se tornará verdadeiramente irreversível quando lutarmos pela liberdade incondicional de todos, quando o activismo galgar o Jardim das Rosas, largarmos o copo da mão e não deixarmos esquecer o Bruno Candé, a Cláudia Simões, todos quantos são vítimas de violência de uma polícia e sociedade racista, de todos que são despejados das suas casas. De termos coragem para levar concertos assim à Quinta da Vitória, a todos os bairros, a todos as comunidades que vivem na pele, sem nenhuma metáfora, o discurso de Moor Mother. Aí sim, estaremos mais próximos do K.O..


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