Isabel Moreira denuncia ofensas do Chega a mulheres, Ventura pondera avançar na justiça

1 mes atrás 73

"Já ouvi coisas como vaca, mugidos ou nomes que normalmente se chamam a deputadas que são assumidamente lésbicas.” A denúncia de Isabel Moreira, feita na Rádio Observador, dirige-se à bancada do Chega. Segundo a deputada socialista, é comum ouvir-se nos corredores do Parlamento todo o tipo de ofensas verbais feitas especialmente a mulheres, quando "os microfones estão desligados". Outras deputadas, de diferentes partidos, confirmam os relatos de Isabel Moreira, enquanto o Chega pondera avançar na justiça contra a parlamentar, caso não sejam apresentadas provas.

“Há um quotidiano infernal, ingerível, de se ficar com os ouvidos verdadeiramente afetados, e uma ofensa e uma injúria permanente”, afirmou a deputada socialista, sublinhando que os alvos das ofensas “são sempre mulheres, ou quase sempre mulheres".

Isabel Moreira relata que tudo se passa quando as deputadas estão sem companhia: "Fazem nos corredores quando estamos sozinhas e ninguém está a ouvir ou dizem coisas absolutamente insuportáveis. Fazem as piores ofensas, intimidações, etc., com o microfone fechado, para não serem ouvidos e para serem só ouvidos pela pessoa que estão a injuriar”.

Além de misoginia, a socialista fala também em racismo: “Já ouvi, por exemplo, a uma deputada negra, ao meio-dia dizerem: ‘boa noite’, senhora deputada, que é uma coisa normal de se dizer ao meio-dia uma pessoa negra." A ofensa em causa foi confirmada por Romualda Fernandes, antiga deputada do PS.

De resto, acusa os parlamentares do Chega de saberem o que fazem e, por isso mesmo, evitarem fazê-lo quando há testemunhas. "Fazem-nas com o microfone fechado para não serem ouvidos e para serem só ouvidos pela pessoa que estão que estão a injuriar, quase sempre mulheres. Ou nos corredores quando estamos sozinhas e ninguém está a ouvir.”

Inês Sousa Real, do Pan, e Alma Rivera, do PCP, confirmaram a existência de ofensas verbais, enquanto Cristina Rodrigues, do Chega (e já depois das declarações do líder do seu partido) disse nunca ter visto "ninguém a insultar ninguém". Além disso, disse que o Chega pondera denunciar a situação, já que, no entender do partido, Isabel Moreira incorreu no crime de difamação.

Também Paulo Muacho, do Livre, disse à SIC Notícias que já ouviu alguns dos exemplos relatados de insultos a deputados na Assembleia da República, nomeadamente sons de mugidos quando uma deputada vai usar da palavra. “Têm acontecido situações que podem roçar alguma falta de decoro. Já ouvi deputados que fazem mugidos quando algumas senhoras deputadas se levantam para discursar. É claro que no plenário, muitas vezes, é difícil conseguirmos perceber quem está a fazer esses sons, mas a verdade é que acontece, inclusivamente gestos que são feitos”, afirma Paulo Muacho.

A situação não é de agora, defende Alma Rivera, ex-deputada do PCP, que adianta que os insultos já existiam na anterior legislatura e não se dirigiam apenas a mulheres. “Foram-me relatados na altura em que aconteceram alguns destes episódios que entretanto foram tornados públicos, algo que envergonha qualquer pessoa”, disse Alma Rivera à SIC Notícias.

Os insultos não são apenas dirigidos a mulheres. “Esta atitude rufia e imatura, de gente que não sabe estar, não é algo que se direcione só às mulheres. Embora tenha particularmente acontecido com mulheres, mas também sei de situações de deputados homens em que há provocações constantes e gestos impróprios”, sublinha a antiga deputada do Partido Comunista.

O dever dos deputados perante estas situações é de se "insurgir", defende, por seu turno, Inês de Sousa Real. "Recordo-me de uma das primeiras vezes, porque fiquei escandalizada. É do conhecimento público que dei uma queda [em Maio de 2021] e fracturei duas vértebras e disseram-me: Vê lá se não cais outra vez", disse ao Público, acrescentando que, na legislatura passada, ouviu uma do Chega chamar "senil" à socialista Edite Estrela.

Para a deputada única do PAN, a solução passa por pedir que todos os apartes que são feitos no Parlamento, e que não são ouvidos por quem está nas galerias porque os microfones estão desligados, passem a ficar nas atas. Essa será a sua estratégia e já a usou na passada semana, durante o debate sobre reparações às ex-colónias portuguesas, quando foi sucessivamente interrompida. E tal como Isabel Moreira, diz que os insultos são de todo o género, incluindo o "vociferar ou fazer vozes de animais".

Outro exemplo, passado na legislatura passada, foi apontado por Romualda Fernandes, ex-deputada do Partido Socialista, que denuncia ter sido alvo de um insulto racista nos corredores do Parlamento por parte de um elemento do Chega. Em declarações à SIC Notícias, Romualda Fernandes diz que não conhece o nome do deputado em causa, mas consegue identificá-lo se o encontrar.

“Confirmo que aconteceu e sou capaz de identificar o deputado que fez essas ofensas. Cruzando-me com ele no corredor da Assembleia, ia eu para uma reunião na sala das comissões quando abro a porta e, em pleno dia, olha para mim e diz: ‘boa noite’. Tomei aquilo como uma ofensa e eu percebi do que se estava a tratar. Pelo tom, pela forma jocosa como disse e prosseguiu rindo-se. Voltei a encontrar-me com essa pessoa na Comissão dos Negócios Estrangeiros, voltou a olhar para mim e riu-se”, recorda a antiga deputada.

De acordo com Romualda Fernandes, o grupo parlamentar do PS foi informado do incidente e terá reportado a situação na reunião da conferência de líderes parlamentares, sem consequências. “Senti como uma ofensa, com o intuito de me ofender pela cor da minha pele”, sublinha.

Chega pondera agir contra Isabel Moreira

André Ventura falou sobre o caso duas vezes, na manhã de terça-feira e à tarde numa ação de campanha a propósito das eleições na Madeira. Além de considerar que é ele o deputado mais insultado nos corredores do Parlamento, instou Isabel Moreira a provar as acusações que fez.

"Eu próprio já fui atacado de todas as maneiras por deputados do Bloco de Esquerda, por deputados do PS e por outros. Provavelmente ninguém é tão ofendido no país e no Parlamento como eu e não estou aqui a chorar à frente das câmaras", disse aos jornalistas na Assembleia da República.

Na Madeira, regressou ao assunto. "Foi grave dizer que o Chega tem este tipo de comportamento quando ela [Isabel Moreira] sabe perfeitamente que os seus colegas de partido têm um comportamento igual ou pior connosco, e comigo em particular", acrescentou. "Se houver provas nós cá estaremos para as analisar, agora não se faz acusações destas sem provas."

Caso não apresente provas, assegurou Ventura, o partido irá avançar com um processo judicial contra a deputada.

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