Lantana no Teatro do Bairro Alto: uma unidade sónica de música não-premeditada

2 meses atrás 57

Um dos problemas da cronologia musical é a tendência para ser preservada maioritariamente pela sua discografia, excluindo projectos que não nos deixaram registos. No mercado discográfico português primordialmente patriarcal, é inevitável que um enquadramento histórico das franjas musicais seja uma espécie de “clube do bolinha”, onde “menina não entra” a não ser à sombra de um respeitado homem. Se Constança Capdeville se destacou na música contemporânea ou Isabel Soveral no campo da electroacústica, as seis compositoras das Lantana terão seguramente o seu nome inscrito na actual música improvisada nacional quando esta for estudada pelas gerações futuras. No sábado passado, no Teatro do Bairro Alto em Lisboa, o supergrupo apresentou Elemental e confirmou o porquê.

Cecil Taylor afirmava (com alguma polémica) que “se os músicos se preparam para um concerto, a audiência também o devia fazer”. Questionámo-nos sobre como nos prepararíamos para um espectáculo duplo de improvisação, pois a liberdade criada em palco dificilmente atingia na sua plenitude o público, visto estarmos num auditório. Quem está sentado está privado da liberdade de escolher se quer continuar ou sair sem causar estranheza, ou mesmo de como posicionar e mover o corpo para assistir a um espectáculo como bem quiser. Num TBA esgotado, algumas crianças presentes por vezes saíam sem regras dos seus lugares e o próprio técnico do sexteto passou a maioria da actuação a mover-se que nem um DJ com a pista ao rubro — imaginamos que para marcar o tempo do delay lançado para o palco. Ambos estavam mais libertos que a restante audiência, e essa liberdade para o receptor maior de idade seria mais facilmente alcançada, por exemplo, num festival ou num concerto no meio da rua, mas raros são os casos onde a música improvisada aí acontece. Condição que não se tornou num problema para quem assistiu aos dois concertos, face à capacidade de estarmos perante artistas de improvisação excepcionais no momento de desconfinar percepções.

O fim de tarde começou com a apresentação a solo do reputado saxofonista Rodrigo Amado, em duas peças de 25 e de 5 minutos de uma excelência a que o músico já nos acostumou. Não demorou um par de minutos até Amado deixar a subtileza do saxofone e demonstrar a sua capacidade em “sacar” o máximo do alfabeto do seu instrumento, somado à deliciosa captação de uma espécie de grão sonoro proveniente da vibração da sua boca, que nos levou a imaginar aquilo que conseguiria fazer se tivesse mais que 10 dedos nas mãos.



Após um breve intervalo apenas para ajuste do palco, rapidamente se iniciou a segunda actuação. Em entrevista a Rui Eduardo Paes, aqui mesmo no Rimas e Batidas, as Lantana explicaram que o seu background musical não tem herança jazzística. Para além da óbvia sonoridade, esse afastamento reflecte-se pela forma como o sexteto se corresponde entre si próprio, tanto em disco como ao vivo. Ao longo dos 50 minutos de actuação, em momento algum se sentiu a sobreposição de alguma intérprete perante as restantes, prática comum nas linguagens mais associadas ao jazz, por vezes excessiva proveniente de egos mais recalcados.

A electrónica de Carla Santana inaugurou os primeiros sons deste segundo acto. Partindo de um balançar sinusoidal a marcar o tempo, a artista ofereceu a introdução perfeita para o lento crescendo da exorcizada colocação vocal de Maria Radich, de cariz mais assombroso que o de Cathy Berberian. Num pavimentar certeiro do que estava para vir, as violoncelistas Joana Guerra e Helena Espvall cedo assumiram através dos seus instrumentos a estrada rítmica de toda a actuação. Enquanto Anna Piosik alternava as possibilidades tímbricas do trompete com a própria voz banhada de interjeições, a violinista Maria do Mar já participava na simbiose melódica entre os dois violoncelos. Não demorou até se alcançar uma equação completa de intensificação musical das seis artistas.

Em pouco menos de uma hora, sem pausas, assistiu-se a uma musicalidade de espectro sonoro coeso e com dinâmicas assertivas. Radich mostrou-se uma vocalista mutante através de personagens ora agressivas ora suaves, tanto a solo como em dueto com Piosik, que pontualmente escolhia sempre o momento certeiro para entrar, brilhar, e sair. A dada altura a voz da primeira transmitia mesmo um mantra quase lisérgico, afastado de qualquer crença ou religião mais conservadora, através de palavras indecifráveis.

As inexplicáveis (para a maioria, incluindo este que vos escreve!) técnicas de Maria do Mar ao violino, em sintonia com os sons atmosféricos de Carla Santana — que tanto comunicava com a violinista como com a trompetista através de instrumentos de contacto manipulados eletronicamente ou outras máquinas sintetizadas —, ofereciam as frequências mais curtas deste conjunto sonoro, num projecto que mesmo sem baixo nem bateria disseminava a quantidade suficiente de graves, quer pelos pizzicatos e glissandos de Joana Guerra, quer pelos métodos de attack que Helena Espvall exercia sobre o seu violoncelo, como se de uma percussão se tratasse.

Houve momentos de imersão musical que nos levaram mesmo a ter arrepios físicos, mas confessamos que também sentimos algo semelhante a medo por culpa da aliança posicionada em semicírculo que se observava em palco, deixando cair o mito que o “perigo” está aliado somente a concertos de rock’n’roll. Neste texto de apreciação sobre um passado evento de música improvisada — que se faz no presente indicativo —, afirmamos que fomos testemunha do vindouro, pois “o futuro é feminino”.


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