Molero | Simão Bárcia | ZDB: o permeável lugar da imaginação

1 mes atrás 42

Fotografia: ipipa

Publicado a: 01/08/2022

Ficções-visões.

Fotografia: ipipa

Publicado a: 01/08/2022

Impenetrabilidade. Um imaginário colectivo que se constrói em torno de geografias reais e imaginadas. Percorrer um atlas, há falta de melhor opção, conduz-nos fatalmente a lugares tão distantes como os desertos, os pólos, os altos picos montanhosos e as luxuriantes florestas tropicais. No último caso, a Amazónia como coroa de viagens e expedições entre flora luxuriante e fauna exótica. A paisagem confunde-se com imagens desenhadas mentalmente onde espécies nunca vistas e outras por descobrir se misturam com sonhos de cariz ora mais contemplativo ora e, bem mais frequentemente, de temperamento mais alucinogénio. Na literatura, os relatos de Stefan Zweig sobre a Amazónia brasileira, objecto de constantes comparações com as paisagens europeias, realçando a escala e imensidão sul americana em confronto com a pequenez das segundas, são um mero exemplo. No cinema, o recorrente Fitzcarraldo de Werner Herzog, o presságio para a fatalidade e a constante incapacidade para o homem subjugar a natureza, e mais recentemente A cidade perdida de Z de James Gray, das pesquisas sobre os relatos de povos indígenas existentes ou não, eis a dúvida que no caso de Percy Fawcett o guiou à morte. Na música, outras tantas referências, fiquemos pelo recente trabalho de MoleroFicciones Del Trópico, editado pela criteriosa Holuzam e cujo excelente concepção gráfica de Paula Lavanderos não só deve ser merecedor de nota de atenção como de convite ao universo impenetrável que ainda hoje é esse território da Amazónia. 

Impenetrabilidade é conceito longínquo a Ficciones Del Trópico, aquando da sua audição em disco, como também o foi no concerto na Galeria Zé dos Bois, no dia 27 de Julho. Em vez de construir canais por entre montanhas ou convocar grandes expedições, prefere observar cautelosamente, gravar e apontar, numa aparente quanto ilusória inacção. Opta por se misturar, em vez de confrontar. Procura ler no presente as marcas do passado, e como o tempo nosso, pode e em muitas vezes é uma leitura permanente sobre legados ancestrais. Escolhe um Yamaha CS-60, uma Roland Space Echo RE-201 e um Moogerfooger Murf como instrumentos de trabalho. O início é estranhamento límpido e claro. Um respirar profundo. Um inusitado chamamento para se fazer o que é necessário ser feito. Na serenidade de uma pesquisa tanto de individual como colectiva vai sobrepondo as diferentes camadas que compõe a sua sonoridade como definidoras da riqueza e complexidade dos objectos e do contexto em que se inserem. Queremos lembrar-nos. O que foi, o que se pode construir e sobretudo desenhar os limites da acção humana. O recurso a texturas analógicas, a sons que remetem para um universo natural, sobretudo o das aves, acompanham-nos ao longo da quase uma hora de concerto. Se o início transparecia clareza, o percurso adensa-se e no final a única certeza que o tempo, dos trópicos ou fora dele, nunca será aquilo que pensamos que é.

Uma expedição/noite que não foi de um solista só. Como primeira parte, uma excelente pequena apresentação/concerto de Simão Bárcia. Guitarra e um dedilhar tão delicado como inteligente na interpretação/reinterpretação/construção de temas a partir de referências musicais íntimas que Bárcia assume como marcantes. Se o conhecemos anteriormente de bandas como Cíntia, nesta apresentação a solo Bárcia assumiu-se como o mais que adequado parceiro de auscultação e observação de Molero. Um autor a que se deve prestar uma justa e atenta audição.

Por fim, e porque um conto real ou imaginado, faz-se de todos os seus protagonistas, alusão para o distinto cartaz de Carlos Gaspar. Talvez já se encontrassem nas manchas de azul, verde e vermelho os permeáveis lugares da imaginação.


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