Mucho Flow’22 – Dia 2: de armaduras imateriais a amores insólitos

2 meses atrás 60

Fotografia: João Octávio Peixoto

Publicado a: 08/11/2022

Impacto garantido.

Fotografia: João Octávio Peixoto

Publicado a: 08/11/2022

Quando Blackhaine saiu de cima do palco no Centro Cultural Vila Flor e se dirigiu para o meio do público, chegando a afastar quem não saiu da sua frente à chegada, a tensão aumentou de imediato (e ainda nem a meio do concerto íamos). La Haine foi a referência óbvia na escolha do alter-ego artístico do inglês Thomas Heyes e o sentimento que deu título a essa obra-prima do cinema francês foi transferido para o espectáculo ao vivo (outro exemplo: a certa altura atirou violentamente o suporte do microfone para longe); a tradução eficaz desse lugar mental tão sombrio e colérico agarrou-nos desde logo ao que este artista (que já trabalhou enquanto coreógrafo para nomes como Kanye West, Playboi Carti, Mykki Blanco ou Flohio) teve para nos dizer e mostrar durante a actuação, que não perderia esse tom desafiador até ao fim.

Como performer (pelas palavras e pelas acções), convenceu-nos que o fundo era real e não houve nada a apontar: a intensidade foi o combustível, e a entrega vocal encaixou sempre, e sem aparente esforço para fazê-lo, nos instrumentais híbridos. Com tanto a acontecer, difícil seria não fazer um bombardeamento dos diferentes apontamentos que fomos ouvindo: saímos de lá com “drill”, “noise”, “ambient”, “Three 6 Mafia”, “Dean Blunt” e “Yeezus” nas notas do telemóvel. E “Stained Materials” e “Black Lights on the M6” foram duas das faixas que figuraram no bloco digital como as “mais bem-conseguidas”.

Heyes não esteve sozinho em palco, fazendo-se acompanhar de um discreto DJ (que se manteve grande parte do tempo de costas para nós) e de Rainy Miller, o seu produtor predilecto e um dos outros nomes no cartaz do Mucho Flow, que actuou umas horas mais cedo no Teatro Jordão, servindo (e nessa altura ainda não sabíamos isso, obviamente) como uma espécie de antecipação mas numa versão mais emo (e mais alavancada no auto-tune) do que veríamos no CCVF.

O festival vimaranense mandou-nos uma mensagem clara quando programou Blackhaine, Miller e aya: há um movimento com validade a ocorrer actualmente no “North West” de Inglaterra e todos temos de prestar atenção — só ficou a faltar a dupla Space Afrika para o quadro ter ficado realmente composto.



Pode-se dizer que os artistas britânicos (ou bandas com base lá) tiveram um peso significativo nas contas finais da programação do MF e o segundo dia teve a maior evidência disso mesmo. A começar em FAUZIA no CIAJG, que nos transportou directamente para este vídeo — mas acompanhada apenas por uma violoncelista — e permitiu que, sentados (e alguns até deitados), algo que agradou à londrina, ficássemos suspensos numa nuvem; e a terminar em Jockstrap no Centro Cultural Vila Flor, dupla de Georgia Ellery e Taylor Skye que teve direito a uma das maiores enchentes desse palco na edição deste ano. Acabados de lançar I Love You Jennifer B, a teatralidade do grupo que chegou a fazer parte dos quadros da Warp Records tem um estranho apelo pop que realmente cativa. Mal terminaram de tocar “Concrete Over Water”, ficou a questão: era a isto que soaria Florence Welch se fosse produzida por Hudson Mohwake?

E, ainda sobre a armada made in UK, não podem faltar as menções aos MOIN (“Melon” é ainda mais letargicamente viciante ao vivo, como pudemos conferir no Teatro Jordão) e os Ill Considered (que merecem atenção à parte na reportagem de Rui Miguel Abreu). Tudo boa gente.

O fim, como já é tradição, teve lugar no São Mamede com Skee Mask, object blue e DJ Lynce. Saímos de Guimarães com a sensação de que realmente há muitos bons festivais de descoberta no Norte de Portugal, todos com uma curadoria cuidada que permitem a quem escolhe marcar presença perceber o que de mais fascinante se passa não só fora mas também dentro de portas.


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