Navalha sobre SAKURAS: “Quero resolver coisas cá dentro através da música”

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SAKURAS é o novo projecto de três faixas do rapper e produtor Navalha, que no ano passado se estreou com o longa-duração Vai de Negro. O artista do Montijo explorou o tema do amor neste tríptico que o remeteu para as flores japonesas que dão título ao trabalho e que se entrelaçaram com o elemento da água. 

Na última faixa, “peixes”, Navalha explora um registo mais cantado, o que também vem no seguimento das aulas de canto que tem tido com Matheus Paraízo, que participa no primeiro tema, “seda”. Acima de tudo, Navalha deseja permanecer e elevar-se como rapper, mas a experimentação da sua voz e o alargar do espectro já parece estar a dar frutos. 

O Rimas e Batidas conversou com o rapper e produtor sobre o seu mais recente projecto.



Como é que surge a ideia para pensares nesta trilogia?

Surgiu de eu já há algum tempo querer fazer algo relacionado com o amor, mas de uma forma mais espiritual e mística. É um traço meu de personalidade, é a forma como também vivo, estou muito ligado à espiritualidade e tenho muita curiosidade sobre o místico e pesquiso bastante. Quis criar algumas ligações mais pessoais e fui até ao elemento da água, que é a base e a estrutura do projecto inteiro. Em todas as músicas há referências sobre água e era a ligação principal que eu queria fazer.

Mas pensaste logo de início que faria sentido ser uma trilogia? Ou chegaste a equacionar fazer um projecto maior?

Gosto deste conceito das duas ou três músicas. Já há algum tempo que tenho como referência alguns trabalhos, por exemplo, do Drake, como ele lançou o Scary Hours… Sabia que queria fazer algo assim. Eu já tinha a “seda” escrita, só não tinha beat, e numa tarde de Verão escrevi a “peixes” toda enquanto fazia o beat. E pensei: Ok, tenho aqui já duas músicas. Mas parecia que estava incompleto, que faltava alguma coisa, nomeadamente uma ponte entre as duas. E foi aí que surgiu a “eram_os_teus_olhos”. Foi escrita bem mais tarde, só no final de Outubro ou início de Novembro. Demorou algum tempo, não tanto pela letra; foi mais para encontrar o beat certo e conseguir fazê-lo. E eu já tinha lançado o Invencível em Setembro com duas músicas; em 2021 tinha lançado o Hustle – Care Package e o Heart – Care Package, também cada um com dois sons; ou seja, eu curto muito trabalhar este tipo de conceitos quando não estou em modo álbum ou EP. 

Acaba por ser uma colecção de músicas com um conceito próprio.

Exacto, primeiramente gosto muito de olhar para a estética das coisas. Porque associo-as muito a cores, trabalho muito assim. Se estou a ouvir um beat, aquilo está a levar-me para uma cor, que por sua vez me transmite um sentimento. Não sei se tem a ver com a escola do graffiti, mas penso bué através disso. Quando estou a fazer os instrumentais ou a escrever as letras, aquilo já me está a levar para uma estética. E, a partir dessas cores, depois acabo por explorar. E o SAKURAS no início levou-me mesmo para a cena figurativa das flores japonesas. A partir do momento em que percebi que queria juntar a água, queria continuar a representar as flores, mas queria que fosse sobretudo entre o azul e o roxo. Mesmo na capa do “eram_os_teus_olhos”, que tem muita pele, porque é a minha cara… A própria lâmina da faca está a puxar muito para o azul. Há sempre uma ligação entre todas as capas, o objectivo era fazer um tríptico. 

Obviamente nota-se esse cuidado com a estética, na forma como querias apresentar este conjunto de temas.

Sim, foi a principal razão para eu ter contactado o Chris Costa. Já acompanhava o trabalho dele há muito tempo e tinha a certeza de que ele tinha uma noção estética muito forte. Expliquei-lhe que aquilo que eu queria fazer era pegar em cada música, ouvirmos em conjunto, e percebermos quais é que seriam as barras mais impactantes para que pudéssemos transmiti-las em fotografia. Claro que haveriam sempre opiniões distintas, mas chegámos sempre facilmente a um consenso, o Chris foi sempre mega acessível e tranquilo, e muitas vezes optámos por rimas mais gráficas. E todas as capas das músicas são interpretações e referências a barras específicas. A fotógrafa Cristiana Morais foi igualmente dedicada ao projeto e é mega talentosa, percebeu logo a nossa visão e contribuiu bastante para ela.

Escreveste na última publicação que fizeste sobre este conjunto de temas que tinhas preparado um texto mas que preferias que a música falasse por si. Mas o que é que te levou a querer abordar este tema, o que é que querias explorar?

Primeiro de tudo, queria ser o mais honesto comigo possível. Antes de fazer música, eu escrevo. Esse é sempre o meu ponto de partida. E foi sempre uma forma que arranjei de conseguir traduzir o trânsito que vai na minha cabeça. Então, tentei mesmo ser o mais sincero possível e não partir do ponto do rapper mais badass e ir se calhar para uma letra mais orgulhosa, “eu é que estou bem e os outros é que estão mal”, “não quero saber se me magoaste, eu também te magoei”… Não queria trocar esse tipo de sentimentos com quem pudesse ouvir a música. Não queria transmitir isso ao ouvinte, quis ser o mais sincero, dentro da minha verdade, da experiência pessoal por que passei. Acredito que nenhuma experiência é individual, todas são colectivas são é pessoais. Por isso é que, nós, apesar de termos todos vidas diferentes uns dos outros, acabamos por nos rever em muitas coisas, nomeadamente na arte dos outros. E foi um desabafo, se calhar também um passo de maturidade para olhar para situações passadas ou até mais recentes, e ver isso com outros olhos. Talvez pôr o ego um bocado de parte o que, como rapper, muitas vezes é difícil; e mesmo nas letras deste projecto ainda se sente um bocadinho isso; mas tentei ser o mais verdadeiro possível. A “seda” é muito mais trabalhada no sentido musical. Tanto que convidei o Matheus Paraízo, o meu professor de canto, que conheci numa sessão de estúdio com o Fumaxa já há um ano e pouco. Clicámos e ele acabou por se tornar o meu professor de canto e convidei-o. Então a “seda” é a que tem mais cuidado musical, por assim dizer. Tem uma estrutura de canção mesmo. A “eram_os_teus_olhos” é um drumless, e o objectivo sempre foi ter uma cama para poder falar à vontade. Foi mais um exercício de escrita, de querer transmitir isto desta forma…

De dares prioridade à letra.

Sim, eu acabo sempre por dar prioridade às letras, mas à medida que vou evoluindo vou querendo estruturar mais as coisas, de forma mais profissional. Na “eram_os_teus_olhos” tinha aquelas linhas e balizas, e queria jogar naquele campo. A “peixes” foi a música mais fácil de fazer do projecto inteiro. É a música que se calhar até está mais fora do contexto de rap, porque eu estou a cantar. Mas foi a música que me saiu mais naturalmente. Comecei a fazer o instrumental, e lembro-me de ficar na boa umas seis ou sete horas só a ouvir o loop e a começar a escrever e até a trautear a melodia. Às vezes um gajo está ali a batalhar um bocado, na “peixes” não batalhei mesmo nada. Deixei fluir e esse som transmite-me liberdade criativa e de expressão. 

Ia perguntar-te por isso, por ter o tal registo mais cantado. Como dizes, foi completamente natural, mas deve ter-te dado gozo e se calhar até te abriu o leque de possibilidades para o futuro.

Sim, aquilo que senti ao fazer a “peixes” foi que poderia ser livre, que aquilo estava dentro do contexto mas era uma coisa nova. “Ah, ok, também posso ir por aqui”. Não sei se as aulas de canto com o Matheus deram algum resultado, mas pelo menos não me está a soar mal [risos]. E como o objectivo do projecto era que fosse mais atmosférico… A “peixes” é a que me leva mais por aí. Eu sabia que estava a fazer uma cena que curtia e que estava a abrir novos horizontes também. Como artista, é uma das cenas que mais te dão prazer e que mais te realizam.

E essas aulas que tiveste com o Matheus foram no sentido de quereres começar a trabalhar mais a tua voz? Estavas à procura, intencionalmente, de explorar registos mais cantados?

O meu objectivo, pelo menos até agora, é evoluir o máximo possível como rapper. Eu não quero ser cantor até porque, sinceramente, seria um bocado desrespeitoso para quem canta mesmo e tem uma grande voz. Eu quero sempre ser rapper, quero rimar. Mas cada vez mais caminhamos para um rap em que a melodia está mais presente. Aquilo que quis com as aulas de canto foi conhecer melhor a minha voz e não estar tanto num registo monocórdico, que foi o que sempre senti desde que comecei a fazer música, e queria perceber até onde é que a minha voz ia, o que é que eu poderia fazer com ela, e mesmo em termos de rima como é que poderia acentuar de outra forma. No fundo, conhecer todos os limites da minha voz. E ainda estou nesse processo. Às tantas até posso perceber que posso cantar mais, mas é perceber o espectro da minha voz, até onde é que ela vai, até onde é que quero que ela vá, as técnicas de respiração que são muito importantes para as músicas ficarem cada vez mais tight mas também para me preparar para a eventualidade dos concertos ao vivo… O objectivo é sempre rimar, mas rimar bem também implica teres controlo sobre a tua voz e saberes como é que colocas as coisas.

E estamos mesmo a terminar o ano. Como vai ser o teu 2024? Mencionaste a eventualidade de dares concertos, estás a preparar algo?

Se a oportunidade de dar concertos surgir, estou completamente aberto. Estou a preparar-me, enquanto profissional e músico e rapper, para estar sempre pronto para alguma eventualidade. E também estou à procura de sítios para tocar. Para 2024 tenho algumas coisas em mente. Sei que quero e que vou lançar projectos, e que continuam muito num registo de eu para eu, e não tanto de eu para os outros. Por enquanto, os projectos vão estar à volta disso, acho que tenho primeiro de falar para mim, e resolver algumas coisas cá dentro através da música, curar através dela. Mas tenho como objectivo dar concertos e chegar a sítios onde ainda não cheguei.


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