"O SARS-CoV-2 é muito persistente"

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“Reduzimos muito todo o esforço da monitorização que estamos a fazer. No entanto, continua a haver alguma monitorização feita pela Direção-Geral da Saúde (DGS). O vírus continua a circular. Temos em termos de notificações 170-200 casos por dia. Isto tem estado muito estável desde o início do ano. É uma grande subestimação”, começa por dizer, em declarações ao i, Manuel Carmo Gomes, professor de Epidemiologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e um dos especialistas distinguidos com a Medalha de Serviços Distintos - grau Ouro do Ministério da Saúde, dias depois de se terem realizado grandes eventos que outrora seriam proibidos como os concertos dos Coldplay no Estádio Cidade de Coimbra e a celebração dos Santos Populares. Isto é, aglomerações que somente voltaram a acontecer devido à redução do índice de transmissibilidade do novo coronavírus.

“Neste momento, só temos conhecimento das infeções quando as pessoas são testadas. Portanto, este é um valor muito inferior ao verdadeiro número de casos. Mas a maioria não tem carácter de severidade. Estamos com uma média de 240 pessoas que testaram positivo e estão nos hospitais. É o valor médio dos últimos sete dias. Não tem variado muito. São as pessoas que estão no hospital e que testaram positivo, mas não quer dizer que tenham sido internadas por causa do vírus. Isso significa que o mesmo continua cá. De facto, não apresenta uma característica de sazonalidade como a gripe. Já não temos casos e quem diz gripe diz outros vírus”, continua o membro da Comissão Técnica de Vacinação para a covid-19.

“O SARS-CoV-2 é muito persistente. Houve uma diminuição geral, mas ele está cá. Outra evidência é o valor das águas residuais. Há um conjunto de colegas que toma amostras e vê se o vírus lá continua e ele está presente. E isto é geral: na Europa, na América do Norte, etc. Não representa já uma preocupação porque montámos uma grande proteção imunitária na população. A maioria foi infetada e vacinada. É raro encontrar quadros clínicos de gravidade por covid-19, com sintomas exacerbados. Entretanto, o vírus continua a evoluir”, adianta o especialista, sendo que apesar de grande parte dos portugueses já ter sido inoculado com as doses recomendadas da vacina contra o novo coronavírus, a verdade é que as percentagens de cobertura vacinal de janeiro pareciam não agradar totalmente aos especialistas. 

Até 22 de janeiro, o reforço com a vacina bivalente (que começou a ser dado a 7 de setembro) encontrava-se nos 75% de cobertura vacinal para os maiores de 80 anos, 77% para aqueles que têm entre 70 e 79 anos, 64% para quem está entre os 60 e os 69 anos e 43% para quem tem entre 50 e 59 anos. Nessa altura, Carmo Gomes disse que “a disponibilização dos 18 aos 49 anos foi homologada a 12 de janeiro e nas últimas duas semanas cerca de 7 mil pessoas dessas idades já se vacinaram. As coberturas vacinais contudo ainda são baixas (7% nos 40-49 anos). Gostaria que fossem mais altas porque tivemos valores muito mais elevados no passado recente”.

“Por exemplo, quando fizemos a terceira dose, o primeiro reforço, em outubro de 2021, ultrapassávamos os 90% para maiores de 70 anos. E Agora conseguimos os 75-77% e ficamos aquém daquilo que é desejável”, acrescentou o especialista, lembrando que, em maio do ano passado, a quarta dose da vacina da covid-19, ou segundo reforço, começou a ser administrada nos lares e todos os idosos com mais de 80 anos foram convocados para a vacina mais cedo do que estava previsto. Esta decisão de antecipar a vacina para os mais velhos na primavera, até ali planeada para o final do verão, foi comunicada pela DGS, após um pico de ocupação hospitalar associado à subvariante BA.1 da Ómicron e acompanhando a chegada da subvariante BA.5, o qual teve repercussões na mortalidade, com previsões de um agravamento da situação nas semanas seguintes tendo em conta a subida dos diagnósticos em todas as faixas etárias.

“Nessa altura, só chegámos aos 65%. Agora é melhor, mas não tão bom como aquando do primeiro reforço. Estudos muito recentes da efetividade no terreno (e não só no laboratório) mostram que o reforço com a vacina bivalente dá uma proteção bastante razoável mesmo contra apenas a infeção, limitada no tempo, é certo, mas muito elevada contra doença severa”, sublinhou Carmo Gomes. “Mas compreendo que as pessoas estejam com alguma saturação. Por exemplo, aquelas que têm mais de 80 anos já vão na quinta dose. Esta vacinação, combinada com o facto de muitas pessoas já terem sido infetadas, originou uma barreira imunitária protetora na população portuguesa, a qual por sua vez permitiu uma situação relativamente tranquila em termos de COVID este inverno. E agora temos de pensar no futuro”, concluiu, tal como frisou na entrevista que concedeu ao i no início daquele mesmo mês.

“Aquela que domina é a variante da Ómicron que é a XBB e praticamente as outras desapareceram. Mas, felizmente, nenhuma delas aparenta ter características muito preocupantes. Vamos continuar com o vírus, temos de acompanhar para ver se surge alguma subvariante mais perigosa e teremos de estar especialmente vigilantes a quem é de maior risco”, salienta agora. “É previsível que tenhamos que reforçar a proteção através da vacinação. Nomeadamente, no início do próximo outono. Já houve várias reuniões e recomendações para renovar a vacina, adaptada a esta XBB, e será recomendada para as pessoas de maior risco”, afirma, exemplificando que nos EUA a sublinhagem XBB.1.5 da Ómicron “é ainda maioritária, representa 40% dos casos”. Por outro lado, em Portugal, acontece o mesmo e de seguida surgem a XBB.1.9 e a XBB.1.6.

Abordando os óbitos em específico, quando consultamos os dados veiculados pela DGS, percebemos que no dia 15 de junho foram registados 192 casos e 11 mortes. Ou seja, não existiam tantas mortes desde o dia 20 de maio, mas os casos diminuíram.

No início de maio, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, confirmou a tendência para a redução de mortes provocadas pela covid-19 nas últimas semanas, contudo, alertou para as “incertezas críticas” sobre a evolução do coronavírus.

“Em cada uma das últimas 10 semanas, o número de mortes notificadas semanalmente foi o mais baixo desde março de 2020”, avançou o diretor-geral da OMS, na abertura da reunião do Comité de Emergência desta organização. Os especialistas de várias áreas que integram este comité estão a avaliar se a pandemia ainda constitui uma emergência de saúde pública global e Tedros afirmou ser “muito gratificante ver que a tendência de queda” do número de óbitos continuou desde a última reunião, em janeiro.

“Esta tendência sustentada permitiu que a vida voltasse ao normal na maioria dos países e aumentou a capacidade dos sistemas de saúde para lidar com os potenciais ressurgimentos e com o fardo da condição pós-covid-19” (permanência de sintomas após a infeção ou ‘covid longa’)”, avançou Tedros Adhanom Ghebreyesus.

No entanto, o responsável da OMS alertou que ainda “persistem algumas incertezas críticas sobre a evolução do vírus, que tornam difícil de prever” a dinâmica da sua transmissão futura ou o seu comportamento sazonal. “A fadiga pandémica ameaça-nos a todos. Estamos todos fartos desta pandemia e queremos deixá-la para trás, mas este vírus veio para ficar e todos os países terão de aprender a geri-lo juntamente com outras doenças infecciosas”, reconheceu o diretor-geral da OMS.

Recorde-se que nesta época a organização já havia lançado um novo plano global para a gestão da covid-19 até 2025, que alerta para os milhões de casos de ‘long covid’ (covid de longa duração) que vão continuar a necessitar de cuidados médicos.

A vida que conhecemos hoje é aquela que imaginávamos? “Não podemos ser emotivos a pensar no que seria a vida pós-covid-19 e durante a covid-19 uma vez estabilizada a fase mais aguda da infeção e das transmissões. Penso que ninguém estava preparado para a duração da pandemia e isso é um facto que ninguém esconde mas, por outro lado, sabíamos que esta emergência pública iria passar”, começa por dizer ao i Tiago Correia, professor associado de Saúde Internacional na Unidade de Saúde Pública Internacional e Bioestatística e Investigador sénior no Global Health and Tropical Medicine, ambos integrados no Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.

“Não sabíamos quanto tempo demoraria e que preço iríamos pagar do ponto de vista de perdas humanas mas, em todo o caso, iria passar mesmo que não conseguíssemos vislumbrar o fim da pandemia. Aquilo que vejo hoje em dia é uma dimensão retórica importante das instituições e das pessoas que se recordam da covid, da sua importância, da aprendizagem, mas não vejo grandes mudanças estruturais”, frisa. “E não estava à espera delas porque se pensarmos noutras emergências de saúde pública, como a gripe das aves ou ébola, percebemos que uma vez passada a urgência e o medo as instituições voltam a uma certa inércia. Há sempre processos de aprendizagem, mas mínimos face àquilo que são as promessas de mudança nos momentos de maior aflição. Parece que se esquece demasiado depressa”, explicita.

“A grande aflição do ponto de vista da nossa vida quotidiana foi a impossibilidade de trabalhar e, em alguns casos, o funcionamento das escolas e a alteração das interações humanas. Se a pandemia foi impactante foi, sobretudo, devido a estas dimensões. Três anos depois, talvez tenham ficado algumas mudanças como a flexibilização do trabalho - há uma certa eficácia do online da qual não havia uma perceção generalizada -, e acho benéfico, mas do ponto de vista das interações... Não há alterações significativas do ponto de vista de como as pessoas se relacionam”, continua. “Ainda há uma certa consciência, quando há sintomas gripais, de as pessoas se resguardarem ou de utilizar máscara e isso, a meu ver, é algo que encontramos no Oriente e não tínhamos a Ocidente. Agora, será que isto se vai manter daqui a uns anos se não houver outra emergência de saúde pública? Direi que este comportamento se vai alterar e penderemos para a inércia e para nos desligarmos daquilo que, a certo momento, foi tão crítico e central nas nossas vidas”.

“Novos surtos e novas emergências de saúde pública existirão: não há qualquer dúvida de que, mais tarde ou mais cedo, as sociedades se confrontarão com isso. Não só pela natureza das infeções, mas também pela forma como estabelecemos a nossa vida quotidiana à escala global. Sabemos que a circulação de pessoas, mercadorias, animais, o modo como os países exploram e se relacionam com os recursos naturais expandindo a vida humana para áreas cada vez mais remotas procurando matérias-primas, pensando no modo como as grandes cidades foram construídas e que neste momento não há alternativa, pensando no direito ao lazer e nos circuitos globais... As preocupações mantêm-se”, indica, explicando, contudo, que nem tudo aquilo que deveria ter-se modificado está diferente do que era há três anos.

“Não considero que os países estejam mais preparados do ponto de vista dos instrumentos de saúde pública. É importante diferenciar os países: uns utilizam muito bem a evidência e esses foram-no fazendo à medida que foram lidando com a covid-19. Outros tomaram decisões muito mais baseadas numa certa contingencialidade e incluo Portugal nesse leque. E há um terceiro que tomou decisões sem qualquer ligação com a evidência como os casos paradigmáticos da China, dos EUA e do Brasil”, declara, referindo que “quanto ao funcionamento do trabalho, das escolas, do voto (eleições)... Colocar-se-iam os mesmos problemas, em Portugal, se nos confrontássemos com outra pandemia”. 

“Saímos da pandemia, temos uma alteração importante no funcionamento do Ministério da Saúde, tivemos uma reconfiguração da orgânica do Ministério, temos outras valências - como as relações internacionais - da DGS que passam para a secretaria-geral do MS. Portugal não está preparado por mudanças de orgânica que ainda não estão estabilizadas e outras que não são claras. E temos inação política”, clarifica Tiago Correia. “Não podendo fazer futurologia, algo que me preocupa é a resistência aos antibióticos, aos antivíricos e antifúngicos. E penso que essas resistências podem causar uma emergência de saúde pública muito grave, os chamados super bugs. Já é uma preocupação muito grande, já causa muitos danos, já mata muitas pessoas. Não querendo antecipar qual será a próxima emergência de saúde pública, direi que não podemos olhar apenas para os coronavírus”, avisa, sendo que, em setembro do ano passado, a título de exemplo, um grupo de investigadores revelou que havia sido encontrado um novo coronavírus em morcegos, na Rússia: o Khosta-2. Rapidamente, surgiu uma preocupação generalizada. O i falou com James Ou, Professor de Microbiologia e Imunologia na Califórnia, Stephen Goldstein, investigador especialista em coronavírus, do Utah, também nos EUA, e Stephanie DeWitte-Orr, professora de Ciências da Saúde e Biologia numa universidade canadiana, que se mostraram preocupados com o futuro. 

“Quanto aos ensinamentos: temos de aprender com os erros. Do ponto de vista de tomada de decisão, dos processos políticos... Devíamos ter uma Lei de Bases de Saúde Pública em vigor e, sobretudo, temos de perceber que não é apenas o MS que resolve os problemas. Falta-nos uma visão muito mais intersetorial para entendermos que os problemas de saúde também estão relacionados com políticas veterinárias, económicas, a organização dos espaços... Temos de pensar a organização do território, evitar grandes aglomerações populacionais. É fundamental também pensar os instrumentos de saúde pública e algumas das decisões deviam subir às organizações internacionais”, finaliza Tiago Correia. 

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