Pink Siifu no Jardim da Galeria Quadrum: um jeito próprio e misterioso de abalar as fundações

1 mes atrás 36

Há um mês, a notícia que dava conta da vinda de Pink Siifu a Portugal teve uma recepção, em certa parte, agridoce. De um lado, os apreciadores do artista como um todo rejubilavam com a oportunidade de o ver ao vivo, num registo que, no futuro, pode não voltar a repetir-se (afinal de contas, NEGRO já completou duas voltas em torno do Sol); do outro, os adeptos da estética que lhe serve de matriz, um rap de cariz altamente descontraído e inventivo, torciam o nariz relativamente à ideia de se enfiarem num recinto para levar um banho de música punk quando o que mais queriam era que GUMBO’! fosse o centro das atenções.

A data materializou-se na passada sexta-feira, dia 29 de Julho. Foi graças à Filho Único que o rapper e produtor conseguiu incluir Lisboa no roteiro da sua Tha Negro Alive Experience, digressão que está a fazer com que o som de NEGRO (e também o de NEGRO DELUXE) chegue ao público europeu, já que foi o projecto que mais tracção deu a Pink Siifu a nível internacional — o peso desse disco é reconhecido pelo próprio, na entrevista que concedeu recentemente à nossa publicação. A entrada era gratuita e, nas nossas cabeças, já imaginávamos um cenário semi-caótico, em que o número de bilhetes não ia chegar para todos os interessados. Tudo não passou de um receio, já que, às 19h30, o jardim das Galerias Municipais – Quadrum, em Alvalade, estava longe de estar completamente ocupado — se é que chegou sequer a metade da lotação. Éramos poucos, mas éramos suficientemente bons a fazer barulho e, juntos, formávamos um dos mais fiéis quadros daquilo que são as gentes da capital portuguesa. Havia jovens, adultos (alguns até levaram os filhos), brancos, negros, pessoas com mobilidade reduzida e até mesmo outros artistas presentes na plateia — desde Moor Mother, que aproveitou a passagem pela cidade (vimo-la, depois, um par de vezes no Jazz em Agosto, aqui e aqui) para apoiar o amigo no arranque da tour, a outros nomes cá da nossa praça, com Herlander, Tristany, Oseias., L-ALI, Shaka Lion ou ari.you.ok à cabeça.

Ao passarmos a porta que dá acesso ao edifício das Galerias Municipais, tínhamos logo uma pequeníssima banca com algum merchandise (contabilizámos três modelos de t-shirts diferentes e as edições físicas, tanto em CD como em cassete, de NEGRO e GUMBO’!). Seguindo em frente, fomos dar ao extenso relvado onde o palco estava montado e pronto a receber o artista principal e os seus músicos, que foram os primeiros a entrar em cena. Neste arranque, as atenções recaiam, principalmente, sobre Chris Williams, ele que esteve sempre munido de um trompete e algumas peças de maquinaria musical, como pedais de efeitos ou uma Roland SP-404. Foi da sua boca que saíram as primeiras notas, numa introdução ao concerto que demorou vários minutos, com cada um dos restantes instrumentistas entrarem à vez na manifestação sonora que se estava a edificar, tijolo a tijolo, mesmo à nossa frente. Mekala Session (bateria), BLK DECO (guitarra) e Parker McAllister (baixo) completavam o quarteto que serve de banda de suporte a Pink Siifu nesta digressão, todos eles músicos extremamente dotados e versáteis no que toca às diferentes linguagens pelas quais o som se expressa.

Pode dizer-se que o espectáculo se iniciou com uma espécie de ritual, fazendo sobressair um jazz de cunho espiritual até que chegasse a hora do MC de Cincinnati se mostrar. Munido da sua viseira de ski, da Oakley, e a envergar uma t-shirt que tinha estampado o flyer com as datas da sua Tha Negro Alive Experience, Pink Siifu fez-se notar primeiro visualmente. E foi na sua presença que o registo musical começou a sofrer mutações, aproximando-se do punk a cada novo “black is god” que o artista ia vociferando ao microfone. O baixo tornava-se mais pulsante, a bateria mais agressiva e a guitarra mais rasgada, com alguns samples, efeitos e pormenores de trompete a contribuir para o estrago.

“SMD” foi a primeira canção que se fez escutar no alinhamento e motivou desde logo uma intervenção por parte do vocalista, que pedia para que o volume da sua voz fosse aumentado. Segundo percebemos, nada se alterou naquela mixórdia que nos estava a entrar pelos ouvidos, e Pink Siifu foi rápido a deixar o assunto morrer, até porque tinha uma árdua tarefa pela frente, que um artista do seu calibre não pode colmatar apenas com recurso às cordas vocais. Irrequieto durante todo o concerto, não demorou muito até despir a t-shirt, retirar a viseira da cabeça e começar a interagir com o público. Enquanto cantava, dava a sensação de que estávamos perante uma marioneta que podia muito bem estar a ser orquestrada em conjunto pela mão esquerda de Jimi Hendrix e a mão direita de Prince, tais eram os olhares, cheios de mistério, que lançava na nossa direcção e o sem número de expressões diferentes que conseguia exibir estampados no seu rosto naquele seu jeito sacana. Que não fiquem dúvidas: cheira a estrela este homem que veio tornar o circuito do hip hop alternativo ainda mais eclético e que merecia estar inserido num qualquer palco de um dos grandes festivais de Verão do nosso país.

“run pig run.” e “DEADMEAT” foram dois dos ossos mais duros de roer naquele fim de tarde, tendo temas como “FK” ou “Nation Tyme.” ajudado a dar outras cores à apresentação, já que a banda, sempre que pisava os terrenos da música afro-americana com mais groove, entrava em modo de jam session, fazendo com que uma só faixa pudesse dar azo a longos minutos de desbunda instrumental, deixando vir ao de cima a soul, o jazz e o funk que residem dentro de todos aqueles corpos. Já na recta final, Pink Siifu exibiu todo o seu carisma quando fez, literalmente, mover todas aquelas pessoas que tinha à sua frente e incitou ao moshpit, tendo ele próprio descido do palco e acompanhado toda aquela confusão bem no olho do furacão.


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