#ReBPlaylist: Novembro 2023

7 meses atrás 131

Não há nada mais bonito do que a diversidade. Em tudo na vida — inclusive nos sons que ouvimos. É por isso que importa sempre tanto iniciarmos um novo mês com um balanço do que restou do anterior, algo que, por norma, faz destas #ReBPlaylists peças tão plurais quanto se querem. Pensada a 7 cabeças e escrita a 14 mãos, a nova entrada nesta rubrica vai dos temas instrumentais às canções em português ou inglês, cruza o oceano e qualquer barreira que defina géneros musicais, mesclando frequências de tarraxo, jazz, hip hop, electrónica e os respectivos desvios entre elas são possíveis de efectuar. É hora de parar para escutar.


[DJ BeBeDeRa] “Apocalypse”

As voltas que a vida dá. Há precisamente um ano, em Novembro de 2022, Alexandre Ribeiro escrevia pela primeira vez no Rimas e Batidas sobre DJ BeBeDeRa, a propósito da sua colaboração com Sara Tavares (“Grog d’Pilha”) mas também dos sinais que já vinha a deixar em diferentes compilações no universo da batida. 12 meses voltados, BeBeDeRa volta ao destaque na #ReBPlaylist porque acaba de lançar o seu álbum TRRX. São 11 faixas de embalos inebriantes, tarraxo electrónico a puxar pelo corpo, com produção elaborada mas ainda assim bastante crua, que nos transporta rapidamente para uma qualquer pista de dança underground, envolvendo-nos numa ambiência nocturna embriagante e algo hipnótica. Percussões que exigem balanço, sintetizadores que nos orientam pelas emoções, vozes dispersas ou cordas que elevam a fasquia. Um dos melhores temas é este “Apocalypse” em combustão lenta, mas a recomendação é ouvir o disco todo para não se passar ao lado de faixas como “The Big Booty”, “Hot Bass”, “Play No Games” ou “Slide On Me”.

— Ricardo Farinha


[Yard Act] “Petroleum”

Depois da ironicamente festiva “Dream Job”, os Yard Act estão de volta com mais um avanço de Where’s My Utopia?, o seu segundo álbum de originais com lançamento agendado para Março de 2024. Nesse primeiro single, contaram com a colaboração de Remi Kabaka Jr., conhecido pelo seu trabalho com Damon Albarn nos Gorillaz. Nesta nova canção, o produtor volta a juntar-se à banda inglesa para um tema mais preenchido mas que não destoaria caso o ouvíssemos no álbum de estreia The Overload.

O instrumental lembra-nos uma mistura de LCD Soundsystem e Queens of the Stone Age, gingado desde o início em que só ouvimos a bateria de Jay Russel e o baixo marcante de Ryan Needham. James Smith canta com um tom sedutor e lânguido sobre um momento em que a alma adormece e o combustível que esta precisa para acordar. É uma dança arrastada entre voz e a batida progressivamente mais atarefada, culminando numa cacofonia de guitarradas barulhentas e vozes exasperantes. Na recta final de 2023, os Yard Act dizem-se presentes mostrando o melhor que sabem fazer com uma abordagem mais polida.

— Miguel Santos


[L.I.P] “No Hands”

Nem sempre é a bisbilhotice do algoritmo que nos leva onde não sabíamos que queríamos chegar. E, se não fosse o bom velho passa-palavra, não teríamos dado de caras com a aparição de fininho de L.I.P — não o de Shameless. O diminutivo de “Phillip” serve aqui de acrónimo para “Living In Peace”, letras pelas quais Davide Neves se (re)apresenta artisticamente. Porque, ainda que esta seja na prática uma estreia em nome próprio, este artista nascido e criado na Parede acumula já longos anos de estúdio e estrada.

Desde a descoberta do beatmaking com J Dilla enquanto referência maior — e Chullage enquanto professor efectivo — até à formação de carácter artístico impulsionada por gente como Action Bronson, Ghostface Killah, Busta Rhymes ou Mick Jenkins, L.I.P — antes de o ser propriamente — passou ainda por uma mão cheia de bandas. Entre o metal e o punk hardcore, chegou a tocar além das suas fronteiras, mas é de volta à base que, finalmente, se propõe a trilhar caminho em seu nome.

Com apenas três temas cá fora, discretamente lançados de uma só vez no mês passado, “A Lil While”, “Lie for Me” e, sobretudo, “No Hands” — que já conta alguns anos de gaveta — antecipam o resultado promissor desse longo processo de maturação. Com esta é que não contavas, algoritmo.

— Paulo Pena


[Il-Brutto, Dwó & Jack Crack] “Insónia (HADES I)”

“Tou com o 11 do Neymar no Barça” salta-nos à vista pela caneta de Dwó e francamente é uma bela descrição para esta faixa: os recortes geniais (e de autor) aliados a uma certa irreverência sónica de Il-Brutto são o pontapé de saída ideal para as rimas dos seus convidados, atribuindo-lhe a camisa 11 do brasileiro Neymar. No flanco oposto figura o malabarista imprevisível do “under do under” do rap tuga, Jack Crack, que já nos habituou ao seu flow e métrica quase únicas nesta conjentura nacional, que entusiasmam qualquer um que o oiça, à imagem do eterno Lionel com a 10 nas costas e o seu esplendor futebolístico ao nível de poucos.

O trio fica completo com o não menos relevante Luís Suaréz, na pele do rapper Dwó, que com a rima supramencionada a abrir o texto, denota tiques graves de um crónico matador de área tal e qual o uruguaio, antigo dono da 9 dos blaugrana, aqui sob forma de rimas, muitas delas que ressoam no interior de quem o escuta. Para Dwó podemos mesmo dizer que cada tiro, cada barra.

Enfim, com um alinhamento destes, díficil era não dar goleada. Já lá vai uma mão-cheia de bolas no fundo da rede para Il-Brutto em 2023, indubitavelmente um dos grandes MVP’s do ano por cá, só com clássicos assinados por si nas ruas desde Março.

Fusco é o nome do primeiro álbum de Il-Brutto que vai ganhando forma com as 5 faixas já disponíveis, mas este “Insónia” consta da recentemente anunciada coletânea HADES que se propõe a lançar uma faixa no último dia de Outubro todos os anos. Simplificando, a famosa questão “doce ou travessura?” de Halloween passa a ser retórica para Brutto que nós próximos anos vai aprontar umas belas diabruras para os seus ouvintes.

Esperemos que a brut(t)alidade venha para ficar.

— Carlos Almeida


[Aïsha Devi] “Immortelle”

Há quem transforme dores e desgostos em canções bonitas à guitarra ou ao piano, que facilmente embalam o ouvinte e, de certa forma, filtram ou mascaram o verdadeiro sentimento que esteve na base das suas criações. Outros fazem questão que todo esse desconforto seja sentido na pele de quem escuta, numa tentativa de nos tentar transportar até ao exacto momento em que os danos lhes foram causados. Em Death Is Home, caminhamos nos mesmos sapatos que Aïsha Devi, artesã sonora suíça-nepalesa que usa o seu mais recente disco como catarse para um passado marcado por abusos e isolamento. A cura está no centro da pista de dança e aqui sacudimos o que não nos pertence sob a batuta das suas lâminas e chicotes, que abrem as fendas necessárias para que possamos expelir toda e qualquer impureza do nosso interior. O seu primeiro single e, simultaneamente, o tema que mais se destaca neste alinhamento de dez faixas, “Immortelle”, é o melhor cartão de visita possível para nos apresentar à sua terapia musical, onde synths gélidos nos rasgam a pele e os graves corpulentos e profundos cavam buracos ao longo da nossa ossatura, indo ao cerne de qualquer trauma escondido pelos lugares mais recônditos do corpo humano.

— Gonçalo Oliveira


[DJ Harrison] “Lil Birdie”

O “DJ” no nome DJ Harrison não é reclamação de tradição hiphopiana, embora o baterista de Richmond, Vírginia, também faça beats e até edite na californiana Stones Throw, sede de tantos e tão brilhantes beatmakers. É mesmo a forma que Devonne Harris encontrou de contrair o seu nome. O baterista de Butcher Brown que também integra, por exemplo, a banda de Kurt “Superblue” Elling, é um músico de mão-cheia que se prepara para suceder ao belíssimo Tales From The Old Dominion (álbum que lançou na Stones Throw em Dezembro de 2021) com novo longa-duração do qual se conhecem já dois singles: o primeiro, “IGY”, uma versão da faixa de abertura do tremendo clássico que é The Nightfly de Donald “Steely Dan” Fagen, e o actual, “Lil Birdie”, revisão de um outro incontornável clássico, este do Vince Guaraldi Trio. O que já é bom indicador do que deverá ser então o próximo álbum de Harrison. É, aliás, muito curioso que estes dois temas balizem esse novo trabalho que esperamos que não demore a chegar em 2024: o primeiro, a revisão da matéria originalmente dada pelo genial Donald Fagen, aponta para um momento em que a pop, o jazz e algo mais se combinavam com o brilho cromado de uma era (1982) em que a tecnologia dos estúdios alterava para sempre a arquitectura do som; o segundo, este “Lil Birdie” que é re-imaginação de um clássico perdido de Guaraldi, vem de uma era — meados dos anos 60 — em que o jazz era fruto de interacção directa em estúdio mediada por microfones e sem quaisquer truques. A música de DJ Harrison viaja de forma fluída entre esses dois pontos da história e resulta, neste imaginativo presente, num som pulsante, marcado pelo hip hop, claro, mas informado por uma história que é muito mais longa e por uma capacidade musical que é real e sólida. De balanço absolutamente irresistível, este “Lil Birdie” de DJ Harrison é daquelas peças que nos coloca um sorriso na cara logo que as primeiras notas do que soa a linha de baixo tocada num Hammond se fazem ouvir. Segundo tiro em cheio no alvo do bom gosto por parte de DJ Harrison. Venha de lá o álbum (com pelo menos uma versão de David Axelrod, sff).

— Rui Miguel Abreu


[Miguel Atwood-Ferguson] “Kairos (Amor Fati)”

Existe uma perceção generalizada (possivelmente comprovada por dados estatísticos, parece-me…) de que o álbum — o livro da música, se pensarmos nas faixas como os seus capítulos —, embora não tenha caído em desuso, já não é consumido exatamente da mesma forma. O tempo foi-nos roubado por ecrãs, redes sociais, rotinas frenéticas e mil e uma séries para ver na Netflix; e a música é-nos oferecida de bandeja, a qualquer hora e em qualquer lugar. Num exercício de funambulismo diário, equilibramo-nos entre tudo o que nos interessa e tudo aquilo a que somos obrigados a consumir. E fazemo-lo incrivelmente bem — repare-se! Neste esforço incrivelmente sobre-humano por interagir e perceber o nosso mundo, conseguimos – surpreendentemente – não passar por eremitas totalmente desfasados do zeitgeist.

Além disso, a verdade é que a estupidificação teórica do dito “ouvinte médio” tampouco se traduz na sua intrínseca incapacidade de apreciação de trabalhos musicais de longa duração. Se consumimos produtos culturais de forma superficial, é porque, acima de tudo, os agentes culturais promovem tais formas de consumo. Se o “ouvinte médio” ouve agora mais música avulso, mas de menor qualidade, tal deve-se ao facto de haver forças (maioritariamente económicas, claro está…) que movem a indústria nesse sentido. É, por isso, um acontecimento notável quando, em 2023, nos deparamos com lançamentos em contracorrente provenientes dessa mesma indústria.

Tudo em Les Jardins Mystiques Vol. 1 — o último álbum de Miguel Atwood-Ferguson, lançado pela Brainfeeder — assume contornos épicos. Vamos aos números: álbum triplo, 52 temas, 3 horas e meia de duração, mais de 50 colaboradores. Com estes dados, é fácil notar que não estamos perante empreitada corriqueira. Mas a envergadura verdadeiramente impressionante deste primeiro “solo” do músico de Los Angeles não fica por aqui: Les Jardins Mystiques Vol. 1 foi criado ao longo dos últimos 14 anos, e este é apenas o primeiro volume de um tríptico — à lá Hieronymus Bosch — de “jardins musicais” (místicos, neste caso…). Ressalte-se que o entusiasmo que estes factos geram deve-se tanto às dimensões da obra — em termos de amplitude, profundidade e duração — como à arte do seu criador. Para descrever os talentos de Miguel Atwood-Fergurson acumular-se-iam predicados infindáveis, e a importância e impacto da sua obra no tecido da música contemporânea são provavelmente comparáveis àqueles que, em centúrias anteriores, tiveram compositores como Bach e Handel, Mozart e Beethoven.

Para esta playlist, selecionei o tema “Kairos (Amor Fati)” por ser um dos mais bonitos do álbum e também por condensar várias ideias comunicadas nesta entrada. Além de ser a faixa mais longa do álbum (cerca de 14 minutos), “Kairos (Amor Fati)” é uma composição de múltiplas camadas que evolui em torno de um único motivo musical de base, o qual é reimaginado repetidamente. Os arranjos são sublimes e a experiência é a de estarmos travelling without moving, sem necessidade de recorrer aos típicos drones ou a outros dispositivos musicais enebriantes. Marcus Gilmore, Thundercat e Carlos Niño são alguns dos músicos que Atwood-Ferguson traz para este tema, e uma rápida passagem pelos créditos das restantes 51 faixas permite reconhecer tantos outros nomes. Curioso é também o título do tema: a ênfase dada à experiência qualitativa do tempo. A decisão de criar esta série de Les Jardins Mystiques pode muito bem ter sido um dos momentos kairóticos de Atwood-Ferguson nas últimas décadas, e nós sentimo-nos uns sortudos por podermos escutar estas epopeias musicais. Definitivamente, estamos perante um álbum que se deve ouvir de uma ponta à outra, não por mera teimosia, mas porque este é o modo de escuta que realmente acrescenta valor à experiência. Absolutamente essencial, caso seja preciso repetir.

— João Morado

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