Regresso a Casa, uma "ajuda de braço" contra a solidão e os internamentos sociais

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Com o aumento dos internamentos sociais, estão também a aumentar os pedidos de apoio ao projecto Regresso a Casa, que acompanha pessoas mais velhas depois de terem alta hospitalar. Sem esta "grande ajuda, não tenho mesmo ninguém", lamenta uma das utentes. Reportagem TSF no centro de Lisboa.

Regina Cabral, 79 anos, mora sozinha em Alfama.

Foi operada à anca esquerda em Março, depois de já ter colocado uma placa na anca direita. Sinalizada pelo Hospital São José, Regina começou a ser acompanhada pelo projecto Regresso a Casa, da Associação Mais Proximidade. Só assim estavam garantidas as condições para poder sair do hospital, depois da alta médica.

No primeiro mês, a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior forneceu as refeições, através do projecto Mesa dos Afectos. Com duas canadianas, "a agarrar uma panelinha de sopa, podia queimar-me", explica Regina, que três meses depois da cirurgia, voltou a ter dores na anca. A placa ter-se-á deslocado ou ficou mal colocada e por isso, "vou a andar e isto vai a ranger. Como isto está solto, vou a andar e isto faz trrr trrr trrr, parece o comboio de Chelas", descreve bem-humorada.

Durante a recuperação, Regina Cabral foi acompanhada por Beatriz Roque, do projecto Regresso a Casa. A viver sozinha, Regina sai de casa apenas para comprar pão, ao fundo da rua, e Beatriz é a sua única visita. "Ela tem sido uma grande amiga, é como se fosse uma filha para mim, uma grande ajuda", agradece emocionada. "Ela vai comigo ao médico" e se não fosse este apoio, "não tenho ninguém. Vou sempre sozinha, porque não tenho mesmo ninguém que me acompanhe".

Desde que foi criado em 2019, o projecto Regresso a Casa sinalizou 55 casos de doentes mais velhos a necessitarem de apoio pós-internamento no Centro Hospitalar de Lisboa Central, que integra, entre outros, os hospitais de São José, Curry Cabral, Santa Marta e Capuchos. Destes 55 doentes com indicação para alta hospitalar, 36 foram integrados no Regresso a Casa. A coordenadora do projecto, Patrícia Silva, admite que gostaria de apoiar "muitas mais pessoas". O objectivo é garantir todas as condições no regresso a casa, "após o momento da alta", libertando assim, os hospitais dos chamados internamentos sociais. Muitas altas são "proteladas por questões sociais, porque estas pessoas não têm rectaguarda familiar ou institucional", frisa Patrícia Silva. Com o Regresso a Casa, estes moradores mais velhos "sabem que têm alguém com quem contar" e "estaremos aqui para ajudar", assegura a coordenadora do projecto.

A área de intervenção da Associação Mais Proximidade centra-se na baixa de Lisboa e os utentes têm, em média, 85 anos, apresentando várias comorbilidades. O Regresso a Casa procura ser uma "ajuda de braço", em especial na área da saúde, no acompanhamento e marcação de consultas, exames, idas à farmácia, organização da medicação ou ajudas técnicas, como "emprestar uma canadiana, um andarilho ou uma cadeira de banho".

No entanto, a ajuda estende-se a outras tarefas quotidianas. Beatriz Roque conta que faz "um bocadinho de tudo": além do acompanhamento às consultas, há utentes que lhe pedem para ir à padaria, à farmácia ou para lhes fazer companhia em alguma urgência. "Nota-se muito o impacto que temos", refere Beatriz, "se não fossemos nós a fazer isto, se calhar estas pessoas não tinham a saúde monitorizada. Faz toda a diferença na vida dos nossos utentes". Regina Cabral confirma e garante que tem sempre a porta aberta para Beatriz. As duas já têm encontro marcado no final do mês, quando Regina voltar ao médico. Ansiosa e preocupada, Regina ficará então, a saber se tem de ser novamente operada à anca esquerda, para colocar uma nova placa. "Está marcadíssimo na agenda", reconforta Beatriz.

A autora não escreve segundo as regras do novo Acordo Ortográfico

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