Sara Schoenbeck & Matt Mitchell e John Zorn no Jazz em Agosto 2022: daqui, Ararate

1 mes atrás 39

De Erevan avista-se Ararate. Montanha imponente, o cume permanentemente coberto de neve e de conotações bíblicas. O povo arménio, também ele vítima de genocídio, nunca o perdeu de vista. Outrora seu território, hoje na fronteira física da Turquia. De Nova Iorque e da janela do estúdio de John Zorn avista-se, seguramente, o anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian, tantas são as vezes que nos tem visitado nos últimos anos, com a edição de 2017 exclusivamente dedicada à sua obra. Desta feita, apresentou-se com New Masada QuartetKenny Wollesen (bateria), Trevor Dunn (contrabaixo), em substituição do baixista Jorge Roeder e não por último, nunca por último, o virtuoso da guitarra Julian Lage. Nas palavras do próprio Zorn: “quando escrevi música para Masada pela primeira vez, em 1993, a minha ideia era ter uma banda com guitarra, baixo e bateria – mas a magia do quarteto clássico assumiu o controle. 25 anos depois, com Julian, Jorge e Kenny, isto parece tão verdadeiro e oportuno”(FreeForm, FreeJazz . Dezembro 2021).

Num jogo de campos e contra campos podemos afirmar que o público do Jazz em Agosto, tem a vista e orelha em Nova Iorque tal a admiração, e certa reverência, com que acompanha a quasi infinita discografia do saxofonista norte americano e as suas interpretações ao vivo. Num auditório praticamente esgotado, não estranhamente esgotado como indicava o cartaz, Zorn destila os primeiros acordes, construção/desconstrução, num emaranhado de sibilinos sopros, micro explosões e das tão peculiares quebras e contra-quebras. Segue-se a bateria do companheiro de longa data Kenny Wollesen, com Zorn a fazer sinais com os dedos apontados ora para cima ora para baixo na condução de um quarteto tão coeso, quanto trabalhado, onde assume o papel de maestro livre, num registo atento, mas com sentido de humor, próprio de quem está seguro do que faz e sobretudo de onde e como quer ir.

Sax – bateria – guitarra – contrabaixo, diferentes combinações entre eles, como quarteto, com dinâmicas excepcionalmente trabalhadas e de braço dado com o tempo, onde a hora de duração transfigurou-se em nano segundo. Concerto dividido por peças, com vivacidade e, sim, repetiremos termo, sentido de humor. Um quarteto que não é um quadrado, as formas geométricas definidas são sempre assumidas como mero ponto de partida, são nas mãos de uns poucos, objecto de reconfigurações, dando origem a novas estruturas e novos corpos na guitarra de Julian Lage, de uma sensibilidade distinta, nunca caindo no exagero, acentuando nalguns momentos um registo mais melancólico e até próximo do imaginário blues. Será a procura constante de um momento iniciático? Guitarra em “despique” com o saxofone, num jogo aparentemente infantil e seguramente descontraído. O saxofone com a bateria, e tão bem que se conhecem estes dois ou espaço para o contrabaixo de Dunn. Quadrado de lados vários, que se renova em triângulo, com a ausência de Zorn e que o mesmo apelidou “Trio California”, alusão à origem e local de residência dos três elementos ou à camisa florida de Wollesen? Estamos em casa, independentemente da latitude e do que cada um avista. Certamente sem nenhum limite imposto e delineado por fronteiras físicas ou sonoras. Estamos em casa, quando em mais um apontamento de mestria e humor mordaz, Zorn agita a mão para dar mais gás. Mesmo o ruído recorrente dos aviões pode ser debelado. Registo de humor que facilmente passa para a plateia e em que no final, um dos presentes grita – “One [hour] more!”.



À tarde, e no pequeno auditório, assistiu-se ao concerto de Sara Schoenbeck & Matt Mitchell. Destaca-se a particularidade do instrumento, o fagote, tocado por Sara, a plenitude tranquila que desenvolve com Matt, tanto musicalmente, como nalguns outros pequenos diálogos, mas sobretudo pela aproximação de campos musicais que não têm necessariamente que andar em caminhos opostos – música contemporânea e jazz. Entre outros aspectos positivos, desta edição do Jazz em Agosto, este será certamente um deles — o cruzamento de linguagens e discursos musicais de diferentes origens, no caso concreto entre a contemporânea e o jazz, como foi, e muito, o concerto de Pedro Carneiro e Rodrigo Pinheiro, na passada sexta-feira; a dar alento, quem sabe, a jovens compositores nacionais que têm desenvolvido um trabalho notável e reconhecido, cujo o nome de Mariana Vieira é só um de uma nova geração a merecer lugar.


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