Tashi Dorji e Turquoise Dream no Jazz em Agosto 2022: corda – garrote – turquesa

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Fotografia: Vera Marmelo - Gulbenkian Música

Publicado a: 03/08/2022

Os limites e aquilo que eles comportam.

Fotografia: Vera Marmelo - Gulbenkian Música

Publicado a: 03/08/2022

E ao quarto dia: as cordas. A rigor de uma certa objectividade fugidia elas já tinham encarnado em forma de violoncelo e sublimemente tocadas pela Tomeka Reid, dois dias antes no concerto de Rob Mazurek. Um muito bem conseguido final, dando o devido destaque a um dos elementos mais jovens do ensemble.

Tashi Dorji e guitarra eléctrica tiveram as honras de abertura da noite. Cabelo comprido, vestido de negro e à procura de um cabo que teimosamente lhe escapa. Quando apanhado e devidamente encaixado, tudo a postos. Começa o vendaval sónico ansiado e que os dois amplificadores disposto lado a lado já pressagiavam. A guitarra num volume bastante aceitável onde os sucessivos sons conformam um jogo intricado de resposta e contrarresposta, numa procura de um timbre e textura sonora, numa típica exploração da riqueza que o instrumento pode conferir e na destruição de estruturas musicais pré-estabelecidas. Movimentos contidos e repetidos que vão ganhando uma outra dimensão espacial quando Dorji aproxima a guitarra aos amplificadores e pedais procurando um sempre aliciante jogo de frequências. A guitarra é instrumentos todo o terreno e quando na vertical e nas suas mãos o som torna-se gradualmente mais denso, menos hierarquizado próximo de um passado que o próprio assume de “comunidades de punks anarquistas, anti-hierarquias e anti-capitalistas“. É frenético, impaciente o que leva alguém da plateia a colocar a famosa questão – “Isto é jazz?”. Ao longo do concerto ficam bem expressas as influências de Derek Bailey e do trio deste com Gavin Bryars, o Joseph Holbrooke Trio, das suas colaborações com Tyler Damon, Mette Rasmussen, mas também de bandas das “margens do rock” que Toshi tem acompanhado em tour como Sumac e Big ‡ Brave, por exemplo. Alarguemos o parêntesis, mas não deixemos cair em demasia a atenção, para continuar a destacar a prolífica discografia e sobretudo dar um pequeníssimo destaque à Jazz Messengers, onde se poderão encontrar vinis como To Catch A Bird In A Net Of Wind editado pela magnífica Trost Records, a um preço relativamente acessível. Cortemos a corda e as divagações laterais e centremo-nos em Tashi Dorji e na guitarra. Nas repetições constantes, nos seus momentos de contenção. Ambos no chão, em que atira diferentes objectos para as cordas na procura de uma aleatoriedade sonora que vai sendo interrompida com sucessivos toques de baquetas na madeira e metal, reforçando a singularidade na criação de tramas compositivas que convergem, da nossa parte, no desejo de uma duração mais longa para a sua actuação e num volume perto do inaudível. O bicho apanha-nos, procura o garrote e uma cave escura e momentos de asfixia. Não foi a realidade, mas nalgum do nosso espaço-tempo isto aconteceu.



Numa noite que se dividiu em duas coube a Turquoise Dream, quarteto constituído por Marta Warelis (piano), Carlos “Zíngaro” (violino), Helena Espvall (violoncelo e efeitos) e Marcelo dos Reis (guitarra acústica), fechar o quarto dia. Honras de abertura para o músico de Coimbra que absorveu a alegria do momento como poucos, não deixando de esconder o entusiasmo e deixando recomendação simples para a plateia – “divirtam-se”. Contorcido na cadeira, em que um pé se tenta sobrepor ao outro, Marcelo dos Reis solta sons ilusoriamente contidos da guitarra, num diálogo com os restantes elementos do quarteto. Helena Espvall na tão característica descrição com que se apresenta e na forma como aborda o violoncelo, Carlos “Zíngaro”, milenar conhecedor do espaço e dos limites que o conformam, e Marta Warelis, num diálogo ao piano com os outros, mas com ela própria, toques subtis e a utilização das cordas para conferir outras tonalidades e pontilhar os cada um dos momentos. Uma estrutura clássica de “tema”, com ligeiros intervalos entre cada um, que serviram sobretudo para estabelecer um continuum, reforçando o carácter experimental da banda e como mencionado no texto de apresentação para uma “fascinante redefinição da música de câmara”. Por vezes a melhor forma de andar ainda é parar. Marcelo dos Reis e a guitarra, deitada sobre as pernas e a utilização de pequenos elementos (ex. baquetas) para exponenciar e alargar o campo sonoro. “Zíngaro” pode trocar de arco, mas a subtileza e o jogo com o tempo aproxima-nos da ideia de suspensão, o piano por momentos com gotejar de cadência clara e a Helena, que ora comprime ora distende as cordas, numa muito invejável circunspecção. Desculpem-nos a trivialidade do termo – pequenas delícias.

Duas metades, longe de se complementarem (mas teria que ser assim?) a mostraram a vitalidade de linguagens mais experimentais e mais livres. Discursos sonoros reivindicativos, isentos de artefactos. O desconforto é uma arma.


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