Toty Sa’Med: “Sou um perfeccionista em desconstrução”

2 meses atrás 55

A geografia do amor leccionada por Toty Sa’Med tem Luanda como sua musa e pouso. Declara-se às suas gentes, aos seus cheiros e ao efeito que teve em si. Fá-lo (também) utilizando uma língua que lhes é comum: o kimbundu. Produtor, cantor, compositor e multi-instrumentista, o autor de MOXI reencarna uma tradição que conhecemos através das vozes de Ruy Mingas, Bonga e Artur Nunes. Num flirt com a pop e um compromisso com a Música Popular Angolana, o artista fala-nos sobre uma cidade que não vem em mapas ou livros de História, mas sim no coração e na memória de quem a vê com feridas abertas e mesmo assim a olha com o carinho e admiração de quem vive o seu primeiro amor.



O teu percurso musical navegou entre géneros musicais, mas onde é que isto tudo começou?

Estamos a falar de Luanda do princípio dos anos 2000, todos os rapazes queriam fazer parte de um grupo de kuduro ou de rap. Era uma questão de pertenceres à tua comunidade, quase como um desporto. Na altura, Angola era muito forte em termos de basquetebol – também cheguei a experimentar. E isto tudo faz parte do mesmo movimento. Mais tarde criaram-se muitas bandas de rock por lá. Os mais velhos ouviam o rock dos anos 90 na televisão como The Cranberries, Guns N’ Roses e Nirvana graças ao Miguel Neto, grande apresentador de televisão, que levou muitas vibes para Angola e influenciou muitos jovens. No meu caso tinha um grupo de vizinhos que já tinham um grupo de rap, os Villa Press, ao qual me tentei juntar embora não tivesse durado porque eu não era muito bom nas rimas. Mas fazia beats. Os meus pais ofereceram-me um computador e eu tinha um amigo que tinha um disco do Fruity Loops [agora FL Studio] e comecei a aprender. Depois conheci a guitarra e apaixonei-me.

Do conhecimento partilhado com amigos e da experiência auto-didacta, como é que passaste para o patamar em que compões e produzes para outras pessoas?

Foi um processo bem longo e complexo. Na cena mais luandense, eu era mais guitarrista, ainda não me tinha afirmado como cantor. Estava numa banda chamada Cuecas e Boxers, nome que tivemos de mudar quando entrou uma rapariga para o grupo e na nossa visão não era elegante continuar a ter esse nome. Mudámos para The Kings em homenagem ao barco do meu pai. Em 2015, por ser guitarrista e amigo da Aline Frazão, sou convidado por ela para ir para o Brasil e lá conheço o Kalaf, no festival Back2Black. Conectámos instantaneamente. Vim de Luanda para Lisboa para fazer uma parte da música com o repertório angolano do Carta Branca, no CCB, com o Kalaf. Ele nesse concerto apresentou-me à Sara Tavares e à Ana Moura, nessa altura conheci o Dino D’Santiago também – e foi aí que começou a minha relação com os artistas de cá. Nunca tinha escrito muita música para artistas angolanos.

Por algum motivo em específico?

Não, acho que sempre teve a ver mais com a minha auto-confiança relativamente à minha escrita, à minha composição. Quando cheguei a Lisboa já tinha mais certezas das minhas capacidades. Em Angola, a forma como se relacionam com os compositores é diferente. Os compositores normalmente eram os produtores e na altura eu não era propriamente produtor e só compunha para mim.

Que aprendizagens vieram da tua relação com o Kalaf?

Falar do Kalaf é bem difícil. Ele está em todos os aspectos da minha carreira. Ele dá-me uma perspectiva mais objectiva. Eu não a tinha e ele ajudou-me a encontrar isso. Foi com ele que produzi o meu primeiro EP, foi meu produtor-executivo e musical. O bom gosto dele é muito decisivo para as minhas decisões musicais. Além de que existe um vínculo mais formal: somos produtor e produzido. Já não é só uma questão de amizade visto que ele é meu manager.

Entre produzir e compor para os outros e começar a produzir e compor para ti, qual foi o mais desafiante?

Compor e produzir para mim. Existe um auto-escrutínio. Sou um perfeccionista em desconstrução, então tenho muitas dificuldades em achar que algo meu está finalizado. Quando é para os outros, tenho uma deadline que não posso arrastar. Quando é para mim, deixo-me levar pelo exercício de aperfeiçoamento.

O MOXI é uma carta de amor a Luanda. Qual é a tua relação com esta Luanda pós-eleições?

A minha relação com Luanda ainda está muito fresca porque só cheguei a Lisboa em 2020. O meu imaginário ainda é muito ligado a Luanda. Nasci e cresci lá, não tenho outra referência. Penso sempre como um corpo luandense a morar em Lisboa, não tenho como fugir a isso.

Esta carta de amor a Luanda é um reflexo das minha saudades e frustrações em relação ao que Luanda podia ser. Tanto que há muitas pessoas em Angola a analisar o álbum a referir que o lugar que o MOXI representa não é a Luanda real, é uma que existe e à qual recorremos para buscar inspiração. Mas depois voltamos à realidade quando as buzinas dos candongueiros passam por nós, quando somos assaltados ou quando vemos pessoas a comer do lixo. Depois existe aquela Luanda do amor, super sexual, mais alegre.

E como está a tua esperança relativamente a Luanda?

Estas eleições deram-me muita esperança. Não relativamente às instituições, mas à juventude. As instituições não representam Luanda. Acho que Luanda já está onde a gente quer, na minha visão já está no sítio certo. Nesse sentido, só posso estar orgulhoso da minha província. Não que esteja a descurar as outras províncias porque, infelizmente, têm outros condicionamentos que se reflectem no resultado das eleições. Existe menos acesso a outros tipos de realidade e eu compreendo e sinto empatia relativamente a isso.

Chegas a Lisboa numa altura em que o panorama cultural e intelectual questiona os legados coloniais e existem cada vez mais artistas negros a pronunciarem-se. Qual é o teu ponto de vista sobre a cidade?

É uma pergunta com uma resposta com várias camadas. Não sinto que a forma como a Lisboa te recebe é homogénea. O pessoal de origem africana tem várias formas de estar dentro de ser descendente, quanto mais não seja pelo tom de pele: existem brancos africanos, pessoas retintas, pessoas como eu. O colorismo define muito como as pessoas vão olhar para ti. Existem pessoas negras europeias e eu sou africano, venho de um contexto diferente. Tive de me adaptar à visão e perceber. Em Angola, por ser mais claro, tenho esta “origem colonial”, logo outro posicionamento na sociedade. Chego cá como africano e o meu posicionamento é bem diferente relativamente a todas estas dinâmicas sociais. É aprender a saber jogar com o modo como me veem e às outras pessoas negras em geral. Gosto muito do modo como as pessoas brancas portuguesas me recebem, mas sinto que falta entendimento do que eu carrego como experiência, da minha relação com o colonialismo. Falta alguma preparação, embora de um modo geral não tenha muitas queixas. Mesmo dentro dos afrodescendentes há quem esteja mais atento às raizes, logo entenda melhor o meu posicionamento e porque escolho fazer um álbum como o MOXI e outras só gostam da batida – e eu entendo os dois lados.



Os títulos das músicas do MOXI são quase todos em kimbundu. Falas fluentemente?

Não, falo a um nível conversacional. Tive aulas mas quando vim para cá tive de utilizar um livro, embora tencione voltar a ter aulas porque quero aperfeiçoar. Por exemplo, a música “Dikolenu” foi escrita com base em conversas que tive com muitas pessoas sobre provérbios. Eu forço-me a escrever em kimbundu para também aprender. Vai de encontro à minha missão de ensinar/influenciar os jovens artistas procurarem saber mais.

As línguas nacionais estão a morrer?

Uma conversa em kimbundu é muito raro. Vemos duas zungueiras [vendedoras ambulantes] a conversar mas nunca parámos para ouvir, a minha avó falava mas tinha de estar com alguém que falasse também e ela já faleceu. São memórias distantes, quase parecem fruto da imaginação. Os jovens em Luanda têm essa deficiência. Luanda é histórica e geograficamente pertencente ao território Ambundu, que fala kimbundu, mas Luanda já perdeu esse estatuto há muitos anos por causa da guerra. O êxodo ocorreu em todas as partes do país mas nesses territórios ainda se encontram pessoas a falar kimbundu. Embora a tendência possa ser para o português absorvê-lo. Não quero afirmar que as línguas nacionais estão a morrer, não tenho estudos suficientes para isso, mas tenho essa preocupação de, pelo menos, em Luanda resgatar esse orgulho e essa parte da nossa identidade, não desmerecendo as outras línguas. Tentei transmitir isso com o MOXI.

MOXI significa “um”. No entanto, existem outros significados. Com qual te identificas mais quando olhas para o álbum como criação tua?

O conceito do “um” é bastante lato, mesmo em kimbundu existe essa elasticidade. Essa riqueza da palavra foi o que me chamou à atenção. “Um” também significa “estar junto com”. Também significa “dentro”. Imagina: quando algo está dentro de alguma coisa, torna-se em um – é o ser-se um. É o estarmos todos juntos como facto e apelo.

É um álbum onde abraças a tua vulnerabilidade. Músicas como a “Mirmã” contrariam estereótipos sobre os homens angolanos, por exemplo.

Considero-me uma pessoa que se permite ser vulnerável quando me sinto confortável. Angola era um país a sair de uma guerra, havia uma questão com a ideia de se afirmar como macho. Os nossos pais não tiveram tempo para chorar, de ter emoções humanas, e isso foi-nos passado, sendo Angola tão agressiva, no sentido como se ganha a vida, como se sobrevive. Parar para chorar é perder tempo na cabeça dos nossos pais. Este é o meu contributo para o processo de humanização dos homens, não só de Angola, mas acima de tudo por ser um deles. Começo essa música já a reconhecer a minha culpa para também reconhecer esse movimento de emancipação das mulheres angolanas e não só. Tento perceber como nós homens sensíveis navegamos nesse mundo mais material, criado por outros homens. O MOXI é esse exercício de criar uma figura masculina humana que se arrepende por não ter sido um bom companheiro e se preocupa com a sociedade.

A “Ndenge” tem um ritmo alegre, mas parece ter a sua quota de índole interventiva com a frase “Não fala política/ Mô ndenge dança só”.

Fiz essa música para os jovens. Há muito calão de Luanda propositado. Foi a forma que encontrei de aliviar a minha dor daquilo que os jovens podiam ter sido e o sistema os impede de ser. Na altura, o Inocêncio de Matos tinha sido morto nas manifestações do 11 de Novembro e precisava também de transpor os sentimentos negativos cá para fora.

Essa frase é uma alusão ao “Velha Chica (Menino Não Fala Política)” do Waldemar Bastos, em forma de homenagem a alguém que já abordava questões mais ácidas numa altura em que não era normal. Tem muitas referências ao kuduro porque foi o primeiro estilo em que os jovens angolanos começaram a expressar-se: as angústias e frustrações. Faço parte de tudo isto e muitas vezes como artista tentei pôr de lado e escolhi algo considerado mais erudito e desta vez deixei isso tudo falar por mim. O clássico é o que consideramos, acho que o kuduro tem muita classe. Esta música retrata exactamente esta viagem entre percepções.

Numa altura em que música proveniente de África está a dominar o panorama musical, consideras que ainda há uma tendência para se olhar de lado o kuduro e kizomba?

Depende de como olharmos. Todos gostam de dançar, mas na hora de reconhecer o valor artístico são postos de parte. Há uma tendência de colocar artistas que são muito bons num patamar diferente por existir na música deles uma fusão de géneros musicais. A força artística não está só no background ou na questão de ter mais classe ou menos classe. O MOXI é a afirmação de que posso fazer existir o Ingombota e um disco d’Os Lambas, é essa confluência.

Entre amigos e desconhecidos, como foi para ti deixar ir este álbum e torná-lo do público no Lux?

Já não toco com banda há bastante tempo. A última vez foi em 2018. Já tinha saudades e já me tinha esquecido do quão difícil é gerir pessoas. Havia expectativas que foram superadas. O disco tinha saído há uma semana e as pessoas já sabiam as músicas. O álbum começou a fazer mais sentido depois de feito, ele é que me mostrou a mim o que ele era realmente. Várias vezes quase chorei em palco porque me lembra todo o processo e quão dura foi a minha auto-emancipação.


Ler artigo completo