Voltaic Trio e أحمد [Ahmed] no Jazz em Agosto 2022: a formiga num jardim de areia

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Fotografia: Vera Marmelo - Gulbenkian Música

Publicado a: 04/08/2022

Acreditar em algo maior.

Fotografia: Vera Marmelo - Gulbenkian Música

Publicado a: 04/08/2022

Escavar. Escavar e continuar a escavar. Acto tido muitas vezes como pouco nobre, se tivermos somente em consideração as ruas de Lisboa, mas que o grupo أحمد [Ahmed] elevou ao seu estado mais digno, criando uma dolina de dimensões gigantescas em pleno anfiteatro ao ar livre da Gulbenkian. Nesta incomensurável cratera sonora, Pat Thomas (piano), Seymour Wright (saxofone alto), Antonin Gerbal (bateria) e Joel Grip (contrabaixo) conduziram a plateia com inegável mestria e energia para uma dimensão superior – New Jazz Imagination não é lema proclamado gratuitamente, é álbum gravado no Cafe Oto (Setembro de 2017) e sobretudo novos limites da construção de som, tanto na sua repetição, crueza e radicalidade, mas sobretudo na sua estrutura. Imaginemos as 1016 formigas que existem na Terra, a acreditar nos números da Wikipédia, a carregarem sobre o corpo mastodônticos blocos de betão e simultaneamente cada uma ter que escavar, sim e continuar a escavar, um caminho seu e colectivo. É obra. Se preferirmos uma versão gaming, imaginemos um mega jogo de Tetris em que as peças não se conformam aos limites do ecrã, são antes objectos tridimensionais de massa massuda e o tempo a contar. É hipérbole com propósito. É construir uma infinidade de trilhos e que fazem uso da propriedade das formigas para se organizarem — a eussocialidade. Socorrendo-nos novamente da democrática enciclopédia online, são necessárias três características: uma sobreposição de gerações num mesmo ninho (anfiteatro acrescentamos nós), o cuidado cooperativo com a prole (seremos sempre discípulos de أحمد [AHMED]) e uma divisão de tarefas (reprodutores e operárias) e que bem cada um deles esteve nas suas funções.

Os ecos da noite passada, uma hora e meia do mais completo deslumbramento. Abismados. O saxofone em contínua respiração, sem ela ficámos nós, a bateria a marcar o seu tempo e um tempo coordenado e a conferir uma cadência insistentemente repetida e vertiginosa, o piano de Pat Thomas na velha tradição monkiana a injectar mais brasas ao braseiro incandescente, numa economia de recursos, mas que se amplifica na utilização parca das teclas e o contrabaixo quase sempre tocado com a mão e somente com o recurso num ínfimo momento ao arco. E que mãos tem Joel Grip.

Trabalhadores incansáveis na construção de uma estrutura de encaixes perfeitos. Admirável não só o quão frenético é, mas analisar todo o processo. Não se procuram ligações artificiosas, mas elas estão lá, sem necessidade de criar divergências de ritmo ou de texturas, tudo é homogéneo e assustadoramente distinto, tudo são corpos individualizados, marcados, talhados ao detalhe. Há muito trabalho. Seymour Wright e as excelentes colaborações com o cidadão adoptivo do Porto Paul Abbott e o álbum dos dois com Daichi YoshikawaLLL人 — ou ainda com o mestre do footwork RP Boo; Joel Grip e o meticuloso cuidado com a editora Umlaut Records, Pat Thomas e as colaborações com Derek Bailey, Steve Noble e Tony Oxley, entre outros, e Antonin Gerbal, também da Umlaut e que participa em projectos tão distintos como Zoor e no ensemble ONCEIM (que interpreta peças de Eliane Radigue ou Stephen O’Malley).

Se pensam que continuamos a ser excessivos podemos garantir, sem nenhum grão de dúvida, que as nuvens durante o concerto passaram com uma enorme vagareza. Os deuses não quiseram perder pitada e nós quisemos estar perto deles, sobretudo de Ahmed Abdul-Malik, na reinterpretação da sua memória e na edificação de num futuro sem dogmas e maneirismos estilísticos.



À semelhança da noite anterior, houve lugar a dois concertos. A anteceder أحمد [AHMED], tocaram os Voltaic Trio. Trio formado por Luís Guerreiro (trompete e electrónica), Jorge Nuno (guitarra eléctrica) e João Valinho (bateria). Editaram em Novembro de 2021 290421 pela muito activa Phonogram Unit. Um campo aberto entre o free jazz, tintes psicadélicos conferidos pelas electrónicas e trompete de Guerreiro e uma velocidade frenética da guitarra. Concerto comprometido por problemas técnicos, que não obstante o incansável trabalho dos músicos na recuperação dos fragmentos sonoros ficou limitado nas suas dinâmicas, tão facilmente reconhecíveis em disco.


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