Alabaster DePlume no Salão Brazil: a comunidade que vem

4 meses atrás 141

Tudo começa num colectivo exercício ancestral vocal — num humming, desde o palco e logo incorporando as vozes dos que ali estavam presentes. Alabaster DePlume esclarece de imediato que foi ele que veio para nos ver mais até que nós ali para o ver e ouvir a ele. Está estabelecida a comunidade, efémera é certo, mas real e que incorpora cada um e uma que vem, não um ser qualquer, embora sendo-o na diversidade é feito de uma propositada vontade — a de existir ali, naquele lugar. Na noite anterior, em Lisboa, foram outros no propósito, no palco aquário da ZDB, e que levou DePlume a sentir-se como peixe na água, ele que é, segundo os preceitos astrológicos, dos que são peixes. Viveu a intensidade do momento, e como passaram intensos os dois anos desde que pisou este mesmo lugar altaneiro na baixa da cidade de Coimbra. Nesse e neste encontro de ontem, 1 de Março, volta ao seu fundamento de existência num explícito “o que precisam de mim?” Respondendo-lhe da sua música, devolve a música que vive necessariamente da nossa existência.

A t-shirt “FLY or DIE” como indumentária a par do lenço keffiyeh — tornado símbolo da resistência palestiniana. jaimie “breezy” branch, a malograda trompetista sua colega de editora, e os milhares tombados na injustiça da barbárie, todos convocados para palco e partilha com a plateia. Alabaster traz consigo o imprescindível saxofone tenor e Momoko Gill na bateria e Ruth Goller no baixo. Formação num trio que além dos instrumentos visíveis depressa revelam ser uma tríade vocal de elevada sintonia. Rapidamente se entende que haverá tanto de música como de mensagem profética deste “griot” de Manchester que Londres alberga no nevrálgico e criativo Total Refreshment Centre. DePlume sente-se portador de fortes convicções que faz da partilha uma emergência na urgência de estar vivo. E é como se estivesse sobre uma soapbox em modo de Speakers’ Corner num canto do Hyde Park londrino. Inflamando, num sincero e cativante discurso filosófico-musical. “Eu sabia que vinha aprender algo connvosco”, reclama ouvir também daqueles que vieram à chamada, “vim para vos ver assim como vocês vieram para me ver”. E há tempo para isso, tempo extra até, tempo demorado que parece ser mais visível nestas paragens que propriamente na Inglaterra onde habita. Tempo para escutar temas desenvolvidos desde um sopro em constante vozear no saxofone, trinados, comparáveis aos duduk — a alma do povo arménio. Come With Fierce Grace, é o terceiro e último álbum que gravou para a tão relevante e documental editora de hoje que se tornou a International Anthem, de Chicago. Alabaster em disco é o mesmo em palco na dimensão da sua música, contudo cada prestação é feita de “ensembles em composições de desenvolvimentos espontâneos”, por isso irrepetiveis na prática. Em disco foram muitas as vozes colaborantes, vinte, das quais podemos voltar a sentir neste palco duas delas — Goller e Gill. Duas parceiras de viagem que ajudam à “graça feroz” e que compõem o ensemble em palco. Ruth Goller desenha portentosas linhas de baixo com uma destreza livre entre o punk e o seu pós-algo-jazz que se distingue bem dessas paragens-atmosféricas. Momoko Gill eleva uma bateria a campos nimbados entre o celestial e uma doçura cativante. Contém uma voz que, como noutras vezes acontece com as da rádio, parece não vir de si, sublime presença. 

Recuamos ao marcante GOLD para ouvir uma “People: What’s The Difference?”, onde é inevitável sentir todo o peso e urgência da mensagem quando é amiúde referido “… people from the river to the sea.” Este concerto, e sabíamo-lo de antemão, é um manifesto acima de tudo. Mas daqueles que incitam a seguir em frente na coragem do amor, como refere DePlume concerto adiante e evocando o subtítulo de GOLD — Go Forward In The Courage Of Your Love. Voltamos até ao tema final de Come With Fierce Grace para um esclarecedor e hipnótico “Broken Again”, para recolher os estilhaços dos vazios no decurso da acção, a caminho — “Broke like the money / broken just like everybody / asking one another / For the way”. E sem sair do encanto revelado pelas vozes sussurrantes, ficámos a saber de que é feita a alma vocal de Momoko Gill. Canta e encanta com “Did You Know”, arrebatando um dos momentos charneira do concerto, quente, suave e destemido tema adentro de nós, seguramente. Brilhando radiante acima dos címbalos do seu biombo designado bateria, Gill levou-nos para longe dali, e haveria de ser DePlume a reivindicar-nos ao presente e à urgência — “Este tempo é nosso, desculpem-me os outros, mas não podemos voltar a este tempo, é aqui e agora.” Sempre que precisa, Alabaster não esconde o pedido às duas cúmplices nuns claros “fiquem” — sempre que o maestro quer o suporte para outras incursões. “Eles não vos vão perguntar, porque eles não sabem o que é!” Adverte noutro aforismo de momento o filósofo DePlume. Tudo aquilo é nosso e apenas a partilha em comunidade permite entender.

Goller tem uma partilha a fazer, SKYLLUMINA. É dia de lançamento do seu álbum a solo pela invariável International Anthem. Aqui, junto a Gill, revela num tema o motivo base dessas composições, que se podem encontrar em disco. São linhas de um “baixo detonado sob um espectro de vozes soprano, acrescentadas por diferentes bateristas em cada tema”. Goller e DePlume estão de mãos dadas neste longo tema que enlaçam com o mais que urgente “I Was Gonna Fight The Fascism”, do duo de Danalogue e Betamax — Soccer96 —, com a participação das palavras de DePlume. Tema em torno das justificações próprias de cada um na procrastinação do combate à pairante, e recorrente, ameaça dos nossos dias. Para DePlume, de forma tão hilariante como séria, passa por purgar as desculpas numas:

“É que fiz um álbum novo o ano passado, e correu melhor que o esperado
Eu estava um pouco cansado
Não queria ser rude
Sinceramente, tinha tanto que fazer, que literalmente não vais acreditar
Olhei para a Jenny, e acho que ela não estava a lutar contra o fascismo, por isso não o fiz
Ninguém quer ser essa pessoa
Será que faz mesmo a diferença?
Estava mesmo zangado com outras pessoas combatentes do fascismo por isso fui ao Facebook e disse coisas más em vez de lutar
Estava com medo. Não me dei conta disso nesse momento, mas tive medo
Foi tarde demais”

Devolve num final de concerto, a plenos pulmões, e entre inquietas vozes em coro combativo da comunidade estabelecida, um “…demasiado tarde?! Nunca! Nunca mais!” Serena os ânimos, apelando em seguida que “há que ser bondoso para as pessoas, pois elas não falam em nosso nome…”. E como sair daqui e agora? Sai-se indo em frente, com coragem pelo e dentro do nosso amor (próprio).

(O titulo desta peça é inspirado no livro do filósofo Giorgio Agamben)

Ler artigo completo