Tilt no Tokyo: amargo, mas em ponto de rebuçado

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Fotografia: José Fonseca

Publicado a: 17/04/2024

Lisboa rendeu-se a um MC no topo da sua forma.

Fotografia: José Fonseca

Publicado a: 17/04/2024

A saudade bate sempre à porta quando se fica algum tempo sem ver Tilt em cima de um palco. E a julgar pelo ambiente do Tokyo no passado sábado, 13 de Abril, esse é um sentimento geral entre o público do cerebral MC de Almada, que ao que parece está a “cozinhar” coisas novas, certamente temperadas com o “Vinho de Pakote” que revelou em jeito de antecipação ao par de concertos que tem na sua agenda para este mês — depois de ter deitado abaixo uma casa na capital, segue-se a Invicta no próximo sábado, dia 20 no Ferro Bar.

A tal saudade que demos conta no parágrafo acima manifesta-se com uma recepção calorosa a Tilt vinda de uma plateia bem composta e que se afunila à medida que o palco fica mais próximo. De um modo geral, fomos escutando muitas vozes a entoar em uníssono os versos de um dos rapper de maior culto da praça nacional, muitas vezes dando ênfase à punchline ou àquela dica mais consensual entre a massa adepta, como quando, em “KAPETA FREESTYLE”, Tilt manifesta: “Têm a minha autorização para a execução do André Ventura.”

A postura em palco é de antifa e o artista em evidência apenas não surge em cena de cara tapada e cocktail molotov na mão porque ainda vivemos num mundo minimamente civilizado. A voz é a sua arma e o dedo do meio uma bengala constante no combate anti-sistema, fazendo-se socorrer da intolerância verbal na luta contra os que são intolerantes na sua essência. Miliciano das ruas, Tilt exibe uma forma incrível ao microfone, apenas ofuscada pelos pequenos fragmentos de versos que, raras as vezes, se esqueceu a meio de algum tema. Fora esses breves lapsos, foi irrepreensível no flow e sagaz nas entoações que cada rima mais aguçada pedia, adoptando ainda uma postura corporal que reflecte o tipo de mensagem que cada tema procura passar — quase teatral nos momentos de maior densidade lírica, outras vezes mais rígida quando o clima é de afronta a algo que o tira do sério.

Durante o concerto, esteve sempre ladeado por um não menos competente DJ Ketzal, que serviu sempre o rapper nas melhores condições e ainda mostrou ser um ás no manuseio do vinil, através de scratches que fariam corar de vergonha muitos daqueles que abandonaram esta importante vertente do hip hop nos seus espectáculos. Foi o mesmo Ketzal quem, na meia hora de espera por Tilt no Tokyo, abriu as hostes com um pequeno set que não destoou do que se iria passar a seguir, recheado de rap sujo e pérolas do underground.

Neste regresso aos palcos em nome próprio, Tilt trouxe ainda NERVE e os seus inseparáveis ORTEUM para o ajudarem a interpretar as faixas que têm em conjunto. De um lado, o homem com quem divide espaço em ESCALPE ofereceu doses extra de sarcasmo à actuação. Depois, Nero e Mass, os outros dois terços de um dos grupos mais temíveis do rap nacional, foram os que gozaram de mais tempo de antena, provocando o habitual deboche verbal sempre que a tríade se reune para estas ocasiões. O público, que já vibrava — e de que maneira — com Tilt a solo, foi levado ao êxtase com a inclusão deste pequeno mas sempre eficaz leque de convidados.

Ao longo da performance, o rapper que tinha o nome estampado no cartaz apostou na sua discografia mais recente, mas não rompeu por completo com a tendência de trazer consigo alguns dos temas que o ajudaram a cimentar a carreira, saídos do primeiro para de EPs que meteu na rua, Alimentar Crianças Com Cancro Da Mama e Karrossel, Karma. Pelo meio do alinhamento, incluiu um generoso medley a que optou por chamar de “merdley”, um valente exercício de escrita espalhado por diferentes beats e que enaltece a componente ginasta dentro do MCing, algo que se tem perdido no rap que circula nas camadas mais superficiais do movimento.


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