Esqueçam os telediscos: Expresso Atlântico preparam Filme Concerto para o final deste ano

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Filme Concerto é o mais recente projeto alavancado pelos Expresso Transatlântico. A trama — que desafia os cânones da tradição — ressuscita o imaginário construído nos videoclipes da banda e cruza a atuação ao vivo com momentos de ficção e interpretação por parte de um elenco que conta com Rita Blanco, Laura Dutra ou Vicente Wallenstein. A estreia está marcada para o final deste ano, num festival ainda por revelar.

O Filme Concerto é escrito e realizado por um dos Expresso Transatlântico, Sebastião Varela, que antes de fundar a banda com o seu irmão, Gaspar Varela, e Rafael Matos, se formou em cinema pela Kingston University no Reino Unido. Desde então, o cineasta, músico e fotógrafo viu o seu trabalho reconhecido com o Prémio Sophia para Melhor Trailer em 2021, para o documentário Zé Pedro Rock ‘n’Roll.

Tal como o nome indica, o novo projeto da banda nacional é, essencialmente, um espetáculo ao vivo que se cruza com momentos de ficção e interpretação de um elenco de atores bem conhecidos da nossa praça, onde se incluem ainda Nuno Nolasco, Inês Pires Tavares, Rodolfo Major e João Cachola. Mas o leque de performers não se fica por aqui: o Rimas e Batidas sabe que Conan Osiris também é um dos participantes — e, muito provavelmente, a “Barquinha” fará parte do alinhamento de 6 temas que vamos poder ver e escutar nesta longa metragem.

Quanto à ideia que espoletou todo este trabalho, Gaspar Varela explica que o grupo quis “misturar várias estéticas de vídeo e histórias” da banda, até que “surge a ideia de tornar isto num filme, pegar em personagens novas e adicionar as que já tínhamos apresentado ao longo dos nossos videoclipes”.

Tudo isto culmina, para Rafael Matos, no “fechar de um ciclo”. “Tanto a nível de narrativa como a nível estético, este Filme Concerto é uma junção de todos os nossos videoclipes numa cena só. […] Começámos a ir buscar as histórias dos outros vídeos e a tentar perceber em que direção seguir. Pegámos numa história que lançámos há dois anos, de “Quando Neptuno deu à Costa”, e essa história serviu como início da nossa narrativa”, acrescenta o percussionista do grupo.

Vicente Wallenstein, ator que aqui interpreta um dos protagonistas — o Homem Preso, um personagem mudo —, contou-nos ainda como o conceito deste projeto é diferente daquilo a que está acostumado: “É uma conjugação de imagens da banda a tocar com este universo que têm desenvolvido através dos videoclipes. E como acaba por nunca haver diálogo, aqui têm a oportunidade de desenvolver mais as personagens”.

Do ponto-de-vista da narrativa, explica o ator que: “O que podemos ver é um lugar abandonado e um homem que está literalmente preso neste sítio, como se a tradição fossem as amarras que aqui o prendem e que tem que respeitar — seja na arte, na vida social, política, o que for… Durante o filme, este personagem acaba por ter um processo de libertação, em que é desafiado a sair deste espaço e acaba por ter um encontro com a Neptuno [Laura Dutra], que é uma outra personagem do universo dos Expresso”.

Mas quando a música e o cinema se juntam, os desafios são outros, a não ser que vivam a vida com uma guitarra numa mão e a claquete na outra. Falamos, obviamente, de Sebastião Varela, para quem, “a dificuldade está em fazer as músicas”, e não no aspeto cinematográfico do novo projeto que, mais do que qualquer videoclipe que o grupo tenha divulgado até agora, lhes permite consolidar as duas atividades. “Um projeto destes depende sempre do trabalho de equipa e de poderes delegar e confiar nas pessoas. Aqui vemos uma oportunidade de poder colaborar com mais malta amiga, porque os atores são praticamente todos nossos amigos, como é o caso do Vicente Wallenstein ou do João Cachola, e mesmo da Inês Pires Tavares, que é namorada do Gaspar. É tudo malta que não é a primeira vez que está a aparecer”.



[Quebrar com a tradição]

O Filme Concerto de que aqui falamos é, de certa forma, uma extensão das pretensões musicais da banda à vertente audiovisual. Se em cima do palco usam a guitarra portuguesa e misturam referências sonoras de várias gerações numa fórmula única, no grande ecrã a ideia é fazer exatamente o mesmo e “brincar com a tradição”.

Invocando o mesmo cenário antigo e degradado de “Quando Neptuno deu à Costa” — A Casa —, os Expresso Transatlântico desafiam a noção de tradição: “É o que fazemos com a nossa música e é o que queremos passar para imagem. É basicamente esse o desafio, ao estatuto intocável que a tradição tem, que não se pode mexer e não se pode brincar com ela. O filme desafia esse estatuto, mostrando que é possível e importante abrir portas para o futuro”, elabora Sebastião Varela.

Esta é, no fundo, uma luta intemporal da classe artística onde, reconhecem, não estão sozinhos. Para a banda, este é um dos tópicos principais da música levada a cabo pela nova geração de artistas em Portugal. “Não é que [os artistas] criem com o objetivo de quebrar a tradição”, mas “são pessoas da nossa idade que sentem que é preciso fazer alguma coisa, […] e há uma vontade de mudança e de explorar novos caminhos”, ao mesmo tempo que “é cada vez mais fácil fazê-lo” através das crescentes oportunidades e facilidades tecnológicas dos dias de hoje.

Esta é uma temática que se estende e abraça outros setores do mundo artistico, e não só a música, como nos explica Tomás Wallenstein: “Estamos a falar de pegar em coisas que têm regras e cânones, em ramos onde há pessoas que não lidam bem com a alienação destas duas coisas.” E acrescenta: “Sinto em determinados contextos, a trabalhar como ator, que existem regras, formas de fazer e fórmulas que os outros esperam que sejam seguidas. E muitas vezes o que é novo parece estranho a quem recebe, mas esse estranho é necessário para que se criem novas linguagens. A temática que aqui é explorada é transversal a todas as artes”.


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