Portalegre JazzFest’24 — Dia 2: a expressão individual tornada em colectivo

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Viver um festival de música jazz é uma proposta para mergulhar em muitas águas. As chuvas de Março também nestas paragens, ao invés da cantiga que as remete como fechando o verão, aqui abriram antes a Primavera, trouxeram pujança aos campos, às ribeiras, encheram reservas e os maravilhosos pegos — os sítios mais fundos nos cursos das linhas de água. São esses os locais onde se pode ver um abismo, espreitar o desconhecido, mergulhar desde a rocha envolvente e entrar na voragem das águas. Fazê-lo entre músicos é sorver em partilha, logo ali, entre águas, a corrente que nos liga à música, essa que mais adiante terão para nos dar a ouvir. A água, entidade que une as partes, que envolve cada elemento, que transporta e que forma um todo, uma linha condutora vital. 

Feita de soma das partes, na expressão de cada elemento, é a música composta pelo baterista Mário Costa. O primeiro dos dois concertos programados para a segunda noite, dia 19 de Abril, de Portalegre JazzFest no Centro de Artes e Espectáculos de Portalegre (CAEP). Sobe, ao Grande Auditório, Costa em quarteto com Benoît Delbecq no piano, sintetizadores e programações, Bruno Chevillon em contrabaixo eléctrico de linhas modernas, e Gileno Santana no trompete. Na bagagem trazem um excelente lote de possibilidades de música escrita e vertida em disco recente e gravado para a Clean Feed, editado em 2023. Costa deu-lhe o propositado nome de Chromosome, o segundo álbum, confirmando a excepcional criatividade composicional. Mas foi além, compondo para este álbum a sua música numa escrita inspirada e feita à medida de cada um dos músicos. Um conceito totalmente desenvolvido em torno de cada um dos músicos em disco e em palco, com a ressalva que Cuong Vu está no registo discográfico e neste concerto há um elegante trompetismo de Santana. A escolha dos temas em disco levou-os a um alinhamento que começou com “Adamastor”, que de pronto desenha as linhas contemporâneas nos teclados de Delbecq conjugadas com o trompete de Santana. Com o piano a dar textura e o trompete o cristalino cintilante das frases, intensificadas pelo percursos desenvolvidos nos pratos da bateria de Costa. Ficou notório que esta expressão musical funcionava como uma vela içada ao vento sempre a favor para um navegar tranquilo e sedutor. A viagem passou por umas ilhas que dão pelo nome “Moluccas”, e foi real essa incursão ao ponto de haver uma vagem gigante dessas paragens, que veio parar às mãos de Costa e que a inscreve na matriz rítmica da composição. Há um perfume de fascínio e mistério no ar, parecendo até uma descrição que mapeia o dito arquipélago, que a música devolve com rasgos de exuberância luxuriante, que compõem as florestas de onde saem especiarias e frutos daquela dimensão, que as corrente fazem viajar na medida da composição que se ouve. Músicos a receber de cada um o que necessitam para dar em troca, um dar e receber em simbiose. Santana foi elegantíssimo e incisivo nas frases que entrega ao quarteto. Prosseguem para o tema-titulo e que melhor exemplifica a genética do álbum Chromosome, ouvem-se, vêem-se e lêem-se identidades distintas em cada um dos instrumentistas. Exuberante e criativo infindável nos recursos é Delbecq, quente e condutor cativante é Chevillon, Santana dá largas à elegância expressando satisfações, Costa multiplica exponencialmente os ritmos. E mais que isso: todos numa máxima de que juntos são mais que as partes. Já em cadências de grande desenvoltura rítmica, assumindo texturas de relevo, atrevem-se num “Moonwalk” que entusiasma, e de que maneira, fazendo jus à escolha do nome e convidando a seguir com os pés pouco ou nada assentes na terra. Finalizam o alinhamento preparado juntando “Victória” a “Erosion”. O último dos temas está inscrito no primeiro álbum de Costa, o muito apreciado Oxy Patina. E vem desde aí a cumplicidade enorme desenvolvida junto a Delbecq, que devolve tudo o que vai tocando, gravando e intervindo em tempo real. Parece que escutamos um rádio transístor no interior do piano a transmitir o que acabamos de ouvir, genial final para um coeso quarteto que transpõem as partes do todo pensado por Mário Costa, que tem razões, e muitas, para sorrir de tanta satisfação ao tocar a sua música vinda de todos os companheiros em palco.



Quis a força da vida que brota longe que também houvesse uma inesperada combinação de músicos no segundo momento da noite. Liba Villavecchia no saxofone alto junto a Luís Vicente no trompete, nas vozes sopradas, e um interligado duo de tempo e ritmo marcado por Vasco Trilla na bateria (e acessórios) e John Edwards no contrabaixo. Edwards como convidado-requisitado e uma oportunidade primeira de ver e ouvir este quarteto, nunca sabendo se única — o amanhã o dirá. Com disco ainda fresquinho na banca está Muracik que Villavecchia gravou com Álex Reviriego (contrabaixo), Vicente e Trilla para a Clean Feed, numa fórmula assumida de trio com convidado — Luís Vicente. Trilla que ouvimos, e com deleite, junto a Bob Moses e Pedro Melo Alves no Porta-Jazz’24 e aqui reportámos. Vicente que efervesceu aquele domingo à noite no último Jazz ao Centro e que também demos conta aqui. Agora juntos em outra formação e que vai colmatando um misterioso hiato na cena jazz mais livre e criativa que emana do outro lado da fronteira. Mesmo estando atentos a escutar, precisamente situados na raia, o mais perto do outro lado. De Espanha tardam em se fazer ouvir vozes e ideias inovadoras, Villavecchia faz excepção a isso e pode muito bem ser um abridor de veredas — ouça-se, portanto. Assumem o abismo, como no passeio conjunto da manhã abeirando-se das fráguas naquele pego de água. Está tudo ligado, água e música, uma corrente só. Uma só peça em improviso ligou tudo o que haveria de se ligar naquele canto feito palco de chão no piso superior do Café Concerto do CAEP. Uma corrente feita de criatividade, impulso, entrega, e demais entidades que se foram envolvendo no percurso do leito desta música. Sobre a dita corrente foi possível escutar e ver, foram melodias flutuantes que ora emergiam do fundo do leito, dada a bravura das águas, ora se desprendiam das margens. No decurso do que se ia escutando e vendo surgir, vem à ideia a frase poética de Bertolt Brecht: “Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”. Serve de ilustração ao poder de som que este quarteto comporta, e que o soalho permite propagar com eficácia. Sente-se um tensão criativa dos elementos que esperam o momento de se revelarem e trazerem mais ainda. Edwards é um poder permanente, maior que o instrumento, contamina os restantes, estão envolvidos e gratos pela sua inimaginável presença. Ninguém esperava sabê-lo ali, programado para o JazzFest apenas para o penúltimo dos concertos, no último dia, junto a Sophie Agnel e Steve Noble, ali presentes, como todos a ver aquela força motriz. Ouça-se a propósito deste marcante contrabaixista um imprescindível disco Clean Feed, um histórico e memorável A Glancing Blow. Ficará entendida a razão da referência. As melodias vindas de ideias de Villavecchia ou de Vicente são os motes para tomar harmonia no lugar do turbilhão, mas noutros momentos cedem à corrente e são levados a fazerem-se notar num registo em tudo mais agreste. A harmonia acaba por acontecer em momentos em que — e lá está a ligação na ida ao pego — a corrente sonora encontra desmedida profundidade e aí acomoda a superfície, serena em redor. Isso fica a dever-se sobretudo a um entendimento profundo, coeso entre as baquetas e apetrechos de Trilla e as cordas graves de Edwards. Notável a sintonia entre arcadas e sopros sobre as peles, entre toques nas ilhargas e peças soltas de autómatos sonoros largados sobre o espaço ressonante. Sopram ímpetos de mudança na boca de um baterista que usa recursos inimagináveis, mangueiras de ligação num sistema boca-bateria, com ar insuflando as superfícies e a ressoar à passagem. Criatividade como matriz condutora, e nervo, muita energia a conter e a soltar para definir esta corrente de ideias e possibilidades que cativaram todos os que aguentaram ficar. 

No final lembramos que apenas as crianças, a recobrar a sua espontaneidade, na vivência do momento, atravessaram as águas do palco. Os demais ouvintes apenas imaginaram querer nadar nelas fisicamente, ficaram nas margens vendo, sem darem conta como continham e nisso se tornavam violentas.


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