Carlos Bica no Theatro Circo: a eternidade

5 meses atrás 116

O Theatro Circo é sempre a eternidade. Tudo o que acontece nesta casa fica atemporal e no absoluto. Quer vivamos a duzentos metros, quer o visitemos apenas uma vez na vida, parece ter estado sempre aqui, apesar dos pouco mais de cem anos. Quando nos sentamos nesta sala, sentimo-nos como interpretes de um filme fantástico, ou de uma história que está a ser contada a alguém em outra dimensão. Tudo aqui é tão sofisticado e lindo, que só a Cultura seria capaz de parir tão belo monumento a si mesma.

Poucos minutos passariam das vinte e uma e trinta já o concerto de Playing With Beethoven tinha iniciado. “Leonore”, a primeira interpretação da noite, arrancava entre a estática dos discos do DJ Illvibe (alter ego de Vicent von Schlippenbach), os drones de contenção do acordeão de João Barradas e o arco do contrabaixo de Carlos Bica. A sala respirava surpresa, ainda não inteirada e consciente do que realmente se passava em palco. Esta primeira desconstrução, como lhe chamou o autor, era enfeitada na melodia de um saxofone, este por Daniel Erdmann. Toda esta melodia, surpresa, era preenchida com o trabalho de scratch do DJ de serviço. Os sons eram graves e o compasso lento.

Os meus olhos vagueavam nesta sala, encantados com os reflexos dos vinis nos trabalhados tetos, parecendo-se a fadas cintilantes neste cenário real de fantasia, e já o diálogo entre o saxofone e os vinis tinham arrancado com “Euch Werde Lohn In Bessern Welten”. Numa conversa entre longínquos lamentos dos vinis de Illvibe e o saxofone tenor de Erdmann, o compasso, lento, é marcado pelo contrabaixo de Carlos Bica e o drone romântico de Barradas. Até então ainda surpresos, mas conscientes do grande conto com que nos encanta esta irreverente formação, já embarcados e embebidos num oceano de sons tão bem estudados.

“Ein Tanz”, terceira interpretação da noite, é aberta com os harmónicos do contrabaixo e os tilintares em delays que ofertavam um ritmo quase citadino à composição. Havia ali alguma coisa, o trânsito, e a aflição que nos cresce em chegar a algum lado, e o acordeão baila-nos as intenções, entre a festa e o afazer, numa encruzilhada entrecortada de almejos. Sonho as esquinas dos bairros e as festas e a dança.

A mais melodiosa música da noite chega-nos com “Tiny Change”, num doce embalar dos três instrumentos à direita do palco. É neste embalo que reconheço a voz de Tom Waits em Asylum Years, é o “Small Change” aqui trazido, desmontado e caramelizado por Illvibe, numa conversa de saxofones vertiginosos numa queda suave, mas inevitável, que se essencializa a uma nota suspensa que não queremos que acabe. A sala, quase cheia, percebe o tanto de especial que acaba de assistir e manifesta-o.

As primeiras palavras de Carlos Bica chegaram. Conta-nos como já cá esteve no passado e de como esta sala é linda e boa de se voltar. Lembro-me da eternidade. Fala de como trabalhar Beethoven — Ludwig van Beethoven — é e foi um desafio. Como se pode pegar em música tão perfeita e ter coragem de lhe mexer, de criar algo… E criou. A seguir, apresentou-nos a banda, o quarteto fabuloso que tínhamos em palco, com ele incluído. Já não há gesto que não seja vivamente aplaudido. 

Um turbilhão de notas e uma voz longínqua e sofrida inicia a música que se segue, tento perceber o que é dito — dentro dos delays, há uma mensagem que se repete. Há, ao longe, uma voz de ópera. Há um qualquer motivo fantasmagórico nesta mensagem. O descompasso e o drone anunciam, levam-nos a um lugar ermo, quase desajustado com o encanto que nos havia trazido esta noite, e no desajuste o compasso dá-se, outra vez. Há qualquer coisa de cinemática que empurra as peças fora do sítio a uma nota; duas; três e algo cresce. Reconhecível. Dentro da reconstrução do que já não existe está o “Hino da Alegria”, lá ao longe, lento e quebrado, quase que jurava que respirava o estado do mundo actual, fantasmagórico, quebrado; no compasso descompassado.

E ali abandonaram o acordeão e João Barradas, numa interpretação ritmada pelo pé e nomeada de “Für Nikolaus Johann van Beethoven”. Serviu o momento para nos trazer de novo à sala e recentrar a alma no concerto, dispostos ante tal virtuosismo e, apesar de só, depressa encheu o palco e a sala e assim se manteve durante uma eternidade — ou dez minutos. O regresso, a palco, dos restantes membros do quarteto deu-se com “Ritterballett” numa alegre e agitada composição. Aqui tudo parecia ser mais rápido, mais mexido e num ritmo mais apressado do que aconteceu até ao momento. 

“Per Aspera, Ad Astra” continuou o compasso, quase de valsa, onde o saxofone de Erdmann e os vinis de Illvibe se encontram num longo e impressionante diálogo, e onde uma completa harmonia em scratch acontece à nossa frente, algo que nunca pensei que acontecesse ou fosse possível e que sempre ali esteve.

Vicent von Schlippenbach — DJ Illvibe — também haveria de ser abandonado em palco. Isso aconteceu em “Kids See Ghosts Sometimes”. São pianos e trompetes. É a voz de uma canção. São três notas para sempre repetidas e é o piano outra vez. O contínuo salto da agulha, minimalista, e o ritmo andante do comboio. O salto da agulha, outra vez, e já não estamos ali.

De novo, Carlos Bica agradece a nossa presença, de novo apresenta o quarteto que inicia um tão, mas tão belo lamento como despedida deste magnifico concerto. Ali estava — Carlos Bica e a eternidade. Pensava que a eternidade não é nunca perecer. A eternidade é um momento que se veste da ausência de tempo, como estas paredes, como a música de Beethoven, como Carlos Bica e os seus cúmplices parceiros de palco, que parecem ter estado sempre ali.

Todo este trabalho chegou a nós com uma qualidade de som fabulosa, e só assim o experienciámos na sua forma mais pura, graças ao trabalho do técnico de som Nelson Carvalho.

Aconteceu o encore, com “Lucky”, e já a noite estava cheia de tudo. O Theatro Circo não se esvaziou assim tão depressa, e o hall de entrada manteve-se cheio porque, na verdade, ninguém queria sair dali. Entre conversas se esperou para se saudar mais de perto Carlos Bica e seus músicos, tal como este compasso de espera serviu de paliativo para enfrentar a noite de realidade que estava ali fora, no outro lado da porta.


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