Festival Porta-Jazz’24 — Dia 3: até à revelação final

5 meses atrás 146

Assim, como daremos conta, se faz uma permanente comunidade jazzística no Porto. E dela fazem já parte jovens músicos que cresceram a ver os outros, sinal de vitalidade em expansão. A Porta-Jazz alberga um dinamismo criativo do qual se pode esperar uma profícua e continua produção. Razão para que esta porta, uma vez aberta, já nem tem como fechar, é já um portal, uma passagem para o fluxo da corrente que importa. O último dia de concertos no Teatro Municipal Rivoli foi disso uma evidência, uma vez mais, sem repetições, em mais que um dar de novo a revelar a novidade.

Grande palco, para grandes músicos e um público em grande, em número e na disponibilidade energética, para desfrutar de mais um dia, agora para uma matriz_motriz. O primeiro bloco do dia, o 5º do festival, traz o entusiasmaste Mané Fernandes em guitarra eléctrica e a sua formação, composta pelo trio para vozes de Mariana Dionísio, Sofia Sá e Vera Morais, e pelo piano de João Grilo para fazerem a música que Brittanie Brown dança e coreografa em tempo real. Mané pediu para serem apresentados como “uma drum machine do futuro, feita de sonhos”. Sim, mas está para além disso, na expressão do fazer, a drum machine é aqui orgânica, é um mecanismo humano a estabelecer o tempo e o ritmo. Ou então é antes demais uma visão do futuro, em que as máquinas cedem aos humanos, é um futuro risonho, libertador. Mas ainda antes, neste presente, estamos no palco da música de raiz minimalista vinda dum passado estabelecido por John Cage, junto à dança de Merce Cunningham, e é como se estas duas referencias se encontrassem com a magia vocal de uma Meredith Monk neste presente, num sonho ali tornado real. Contudo é a dimensão de Mané a fazer ir além deste espaço, pelo brilhantismo autoral em torno de ciclos repetitivos, fraseados curtos e ciclópicos que a partir das cordas da guitarra e do piano, em tantos momentos preparado, tapeteiam as três vozes encantadoras e inventivas, numa linguagem porvir, inventando uma cultural aural. Brittaine, aliás Bee, encheu o espaço de espectros, em fluxos corpóreos, voos apícolas, proto-estáticos entre cada um dos seis movimentos compostos e apresentados.



Para retomar esta genialidade criativa ficou o registo de Sérgio Valmont, editado pela Carimbo, do acontecimento de estreia em Guimarães, em Janeiro de 2023, no Centro Cultural Vila Flor. Uau, uma e outra vez uau! Este bloco 5 parecia reservado para ser em igual número de estrelas com a prestação de Themandus, em palco no lugar do sub-palco. São um trio com entrada directa nos emergentes territórios fronteira do jazz não jazz. Compostos por Eduardo Carneiro Dias na bateria, Ricardo Alves em guitarra e processamentos e Afonso Boucinha Silva em saxofone alto, sintetizadores analógicos e no EWI — electronic wind instrument. Themandus é mais um dos títulos imprescindíveis do catálogo mais recente da Carimbo. O entrar para o mais profundo dos espaços do Rivoli revelou-se como uma passagem para outra dimensão sonora, Themandus foi um portal para tal e projectavam um drone vindo da guitarra de Alves, a denunciar isso, enquanto o público se ia acomodando nos lugares disponíveis e seguros para a viagem que lhe esperava. São plasmas de som o que Boucinha Silva faz sair onde toca e manipula, sejam botões de controladores sejam as chaves do saxofone processado em seguida. Alves entre as mãos nas cordas tantas vezes em acordes quase impossíveis de aguentar na disposição dos dedos quer na ida aos controladores dos pedais, prossegue no alcance galáctico de outros espaços. Carneiro Dias é um fundamental acelerador de partículas neste dispositivo, capaz de descolar do chão imprimindo ritmos que se dançam com as estrelas. Ficar a saber que tudo aquilo já nem é o que gravaram em disco — é o caminho novo, é querer mais já amanhã. Apenas, e talvez tecnicamente justificada, a paragem num aparente apeadeiro do cosmos, suportada pelo guitarrismo etéreo de Alves soube a menos, naquilo que foi uma tremenda dança espiritual para corpos sentados. Haveria de estar entre os passageiros um Shabaka Hutchings ou uma Nala Sinephro a fruir o momento de sorrisos estampados nos rostos, mas nem se deu por isso tal o entusiasmo da comitiva criada.



Depois, bom… Poderia nem haver um depois, dado o preenchimento da alma. No bloco 6, a meia-dúzia, que fechou em igual medida com o sexteto de Luís Ribeiro (guitarra) com a Invenção da Ficção. Palco do Pequeno Auditório para outra adição no ano transacto ao catálogo da Carimbo. Voltaram a ter lugar as palhetas vibrantes de Hugo Ciríaco no saxofone tenor e Rui Teixeira no saxofone barítono e clarinete baixo, a par de Joaquim Rodrigues no piano, de Miguel Ângelo no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria. Cinco músicos majestosos, como Ribeiro os adjectiva e o palco demonstra. Ribeiro que é mais um exemplo de como foi fundamental parar na imposta interrupção pandémica para criar tanto e tão bem nesse tempo. Esta primeira obra é um fruto delicioso e sumarento contraponto ao condicionamento global. Tocam o disco quase na totalidade, faltou um tema para o pleno no concerto que teve como momentos maiores a prestação com “Triciclo Vicioso”, na entrada em cena do escultural clarinete baixo às mãos de Teixeira, num misterioso intervalo introspectivo. No demorado, e ainda bem, “Temporal”, sorvemos um contrabaixo pleno de efeitos aos pedais. “O Negro”, que faz a abertura no alinhamento em disco, surge em palco mais para o final e traz de novo o lado grave do corpo esguio de madeira, e também devolve uníssonos, de querer muitos mais, entre o barítono e o tenor, solo do esplendor do guitarrismo de Ribeiro e solo do tenor de Ciríaco. Grande sexteto, a revelar um novo compositor e a confirmar a excelência da nova cena jazz a norte.



Este bloco foi aberto em parceria com a helvética “Association pour l’encouragement de la Musique impRovisée (AMR)”, que possibilitou Tom Brunt’s Acoustic Space mostrar essa multiversa visão no jazz. O palco ficou preenchido pelas guitarras de Tom Brunt e Charles Fréchette, com o violino de Marc Crofts e o contrabaixo de Pierre Balda, num som feito de cordas, ressoando entre os tampos e as ilhargas dos instrumentos, a navegar num certo jazz de mãos dadas à folk, como que montados numa confortável carruagem, deixando uma nuvem de poeira à passagem.



Derradeiro bloco do festival, de volta ao Grande Auditório, para fechar e alcançar a estreia do Ensemble Mutante na sua primeira configuração — mas já lá vamos — como quem encara um prato delicioso e reserva a melhor das partes para o final. Abertura do fecho para um passeio pelo longínquo Egipto, pelas memórias presenciais de Nuno Campos e companheiros da viagem ao Cairo, algo para crer, editado no Something to Believe In, pela incontornável Carimbo. Este quarteto de formação clássica, em termos de instrumentação, tem como contrabaixista Nuno Campos (composição), como pianista Miguel Meirinhos, no saxofone tenor José Pedro Coelho e na bateria Ricardo Coelho. Talentosos músicos a servir o propósito da missão, num diário, um bloco de notas para reportar a dita viagem cruzada com a mitologia egípcia. Em placo começam pelo Sol em “Ra”, nome tão impactante na cultura jazzistica pelo cimeiro Sun Ra… mas ali o deus era mesmo o da cultura egípcia. Tema quente e envolvente a inundar a sala dessa atmosfera, belas malhas tricotadas nas cordas graves do compositor do relato. Passam por “Anúbis” que apensão como a la Bartók, dado o revelado esquema composicional inspirado nas técnicas trazidas pelo mestre húngaro. “Nha Toi” arranca com uma abertura escancarada de bateria a revelar um hábil Coelho nas baquetas, para seguir viagem com os companheiros de palco. Tempo para ver e ouvir a evocação a “Shu”, na abordagem ao deus do ar, do vento e da paz (bem precisa). Nesta prestação o saxofone de Coelho levou-nos pelo ar de forma pairante, de asas bem abertas, que nem abutres a planar sobre o Nilo e a ver as velas das faluas feitas à mesma divindade. As composições plenas de lirismo de Nuno Campos receberam uma recensão de Rui Miguel Abreu que pode ser lida na coluna Notas Azuis neste mesmo espaço, e que se revelam em palco como sentidas em disco — “sugestões composicionais que alternam passagens de transparência melódica […] e outras de acentuada complexidade rítmica.”



E para o final, um grande final, a revelação da dimensão composicional, e ainda a crescendo, seguramente, de Vera Morais. Queiram decorar o nome desta imprescindível jovem compositora, que já conjuntamente com Hristo Goleminov em Consider the Plums, apontava já para tão deslumbrante campo sonoro. E foi ladeada pelos companheiros palhetistas Brandão e Goleminov, que Morais surge em trio à boca de cena diante da opaca bambolina que escondia, por enquanto, o restante palco. Ensemble Mutante #1 – Vera Morais é uma encomenda da Porta-Jazz, é um pedido criativo formalizando que dá lugar a genialidades, espera-se, de jovens compositores. Este trio, ali estabelecido, começa sem prévio aviso — ainda o que restava de público por sentar se arrumava na plateia. A peça constrói-se num revelar das primeiras ideias vindas do processo criativo de Morais. Os três lêem as notas, linhas mestras da composição que ali se estreava. A honestidade do processo criativo tornada ela própria em composição, brilhante começo e de belo efeito que termina com os primeiros rasgos sonoros entre a flauta transversa de Brandão e o clarinete baixo de Goleminov, sem nunca tocarem os dois saxofones, como repetidamente dito nas notas reveladas a três. Sobe o pano para coligir visualmente os restantes membros, que já se tinham revelado pelo som adicionado ao trio: Inês Lopes no piano e toy pianos, Aleksander Sever no vibrafone e Marco Luparia na bateria e percussão. Disposição instrumental, multicolor, e invariavelmente tímbrica no conjunto, o tal “multiverso” que serviu de mote ao festival. Música contemporânea radicada num trabalho de extenso protagonismo exploratório vocal, onde Morais se assume como preponderante interprete do seu eu autoral. Na condução do ensemble exibe um dinamismo ao ponto de revelar que nele cabem momentos de composição em tempo real, a acessão do improviso previsto na partitura. Morais conduz directamente a acção e em muitos momentos desempenha um diálogo condutor com Sever dirigido ao vibrafone. Notáveis os recursos empregues por Luparia, plenos de criatividade, nas percussões. A entrega de Lopes às teclas é assombrosa e reveste de dramatismo intenso em muitos e importantes momentos chave da peça. Morais arrisca assim, neste começo tão brilhante, a inscrever-se num universo onde constam entre outros nomes como Emmanuel Nunes, dada a dimensão composicional da música de vanguarda praticada pelo contínuo questionamento e cruzamentos das possibilidades em redor. E termina num perpétuo sincero “Ainda não é o fim, nem o principio do mundo, calma, é apenas um pouco tarde”. Bravo, bravo… brava Vera Morais!

Apetecia tanto continuar, perpetuar a comunidade, permanecer neste “Multiverso de Jazz e Criação”. Resta o apaziguar na ideia de que para usufruir dum voltar há que saber aceitar o final.


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