Fuse prepara sequela de Informação ao Núcleo: “Quero mesmo fazer um disco pesado”

7 meses atrás 152

Foi um dos anúncios da semana no rap português. Fuse, aclamado rapper e produtor dos Dealema, deixou a entender nas suas redes sociais que 2024 vai trazer um Informação ao Núcleo 2

Foi há mais de 20 anos, em 2001, que o artista portuense se emancipou a solo com um longo disco construído com samples ligados ao universo do terror, instrumentais pesados, referências esotéricas e letras elaboradas que o afirmariam como um dos principais liricistas lusófonos, tendo até em conta que o impacto que Informação ao Núcleo teve em países como Angola e Moçambique, territórios com fortes culturas místicas, onde os temas de Fuse tanto ressoaram e originaram um culto.

Em declarações exclusivas ao Rimas e Batidas, Fuse explica qual é o seu plano para a sequela e conta-nos como surgiu a vontade de voltar a criar um disco “pesado”, numa fase em que pode fazer música com um “total descomprometimento”, sem quaisquer expectativas, sete anos após ter lançado o álbum duplo Caixa de Pandora. Na próxima semana, a 16 de Dezembro, o rapper actua no Plano B, no Porto, para um concerto do festival Natal do Marginal que promete percorrer a sua carreira em nome próprio.



O Informação ao Núcleo 2 será um novo álbum que recupera a mesma ideia do original?

É um novo disco, sim. É um voltar às origens do primeiro disco. Só que mais pesado.

Em termos de letras, de sonoridade?

Sim… Vai ser um desafio grande. A principal diferença é que no primeiro Informação ao Núcleo fui eu que produzi tudo. E desta vez vou querer trabalhar com outros produtores. Ou seja, não quero ser eu a produzi-lo. Isso vai permitir-me ter o desafio de descobrir o que é que alguns produtores conseguem fazer a nível de sonoridades mais pesadas. Comecei a receber feedback de alguns deles e já me começaram a enviar produções. É curioso que alguns deles dizem que, para eles, tudo começou no Informação ao Núcleo, que é uma grande referência. E isso é interessante. Mas no fundo é voltar à origem. E estou numa fase… Eu quando fiz o Informação ao Núcleo foi quando começámos com Dealema. Nós fazíamos música de uma forma descomprometida, era só criar sem expectativa, sem pensar em ter sucesso, sem pensar em vender nada… Só fazer música e vomitar o que te vai no coração, sem preocupação sobre se vais agradar. E eu neste momento estou nessa fase da minha vida, em que posso fazer música sem compromisso, sem expectativa. Posso fazer o que quiser. E no fundo foi aproveitar esse sentimento: quero fazer um disco pesadíssimo e não descanso enquanto não o fizer. E daí querer fazer a sequela.

Portanto, este anúncio que fizeste foi mais para revelares que estás a trabalhar nesta sequela, porque o disco ainda não está propriamente a ser construído, é isso?

Já está a ser escrito, agora estou na fase de selecção de produtores. Vou encaixar as minhas letras nos beats que escolher.

Houve alguma coisa que te tenha levado, nesta fase, a recuperar este sentimento de total descomprometimento? Foi por já não estares dependente da música para viver?

Primeiro é isso. Ao longo da nossa vida vamos mudando, vamos vivendo várias fases, umas mais brilhantes, outras menos, passamos por momentos bons e maus, vamos batendo no fundo, e, quando és um criativo, crias mediante a fase que estás a passar. E neste momento da minha vida em que não estou dependente da música e passei por uma fase mais luminosa em que quis experimentar também outras coisas na altura do Caixa de Pandora, agora comecei a vasculhar, a abrir o baú, e a desvendar muito material que eu tinha desde o Informação ao Núcleo. Tenho toneladas de referências de samples que eu punha de lado, de ideias que eu queria fazer. E quando comecei a desenterrar isso nos últimos meses começou a crescer em mim uma vontade de querer fazer isto, de dar uma continuação a isto com a pessoa que sou hoje. Na altura ainda era muito jovem, queria experimentar muitas coisas, apesar de o Informação ao Núcleo ser um disco denso, desafiante para a época e tanto é pesado como tinha ali umas experiências mais engraçadas , e desta vez tenho outra bagagem e quero mesmo fazer um disco pesado. Que me dê prazer fazer.

E porque é que não te apeteceu pegar na parte da produção instrumental desta vez?

Porque não quero… Já ouvi muitas coisas fixes, inclusive aqui no Porto, ligadas ao 2º Piso, temos aí produtores brutais. Tenho ouvido produtores muito bons de uma nova escola. E alguns também de Moçambique. E quero desligar-me do compromisso de produzir, porque já não tenho tanta disponibilidade. Quando produzi o Informação ao Núcleo, passava noites e noites a produzir, eram noites a fazer beats. A minha vida agora não me permite desligar-me dessa forma para ir outra vez ao submundo fechar-me a produzir. Quero descomprometer-me da produção para me poder dedicar inteiramente à escrita. O maior desafio vai ser realmente reunir os produtores que vão de encontro àquilo que imagino. 

E que tenham instrumentais que encaixem nas letras que tens.

Sim, aí é o desafio e é o que tenho lançado a todos: mostrem-me, passem-me os beats mais pesados que tenham. E uma coisa curiosa é que a noção de pesado é diferente para todos. 

Mas já recebeste beats que à partida vais querer usar?

Sim, já estou a receber uns quantos. Estou em fase de selecção. Foi tal e qual como no último disco, o Caixa de Pandora. É uma fase que adoro, escolher as produções. Dá trabalho, mas gosto de ser minucioso. Tudo o que tenha química comigo…

Mas já tinhas trabalhado com este método no Caixa de Pandora?

Sim, apesar de na altura também ter algumas produções minhas. E foi nessa fase que descobri alguns produtores em Moçambique e fiquei mesmo maravilhado com aquilo que se passa lá a nível de produção. Só que, como era um disco muito grande e tinha muitas referências diferentes, muitas músicas luminosas, foi uma mesclagem de sonoridades. Agora, para o Informação ao Núcleo 2, quero algo mesmo específico. Provavelmente há produtores com quem trabalhei no Caixa de Pandora que não se encaixam neste disco, porque realmente quero que seja algo mais pesado. E desde que fiz a publicação, a quantidade de mensagens a entupir-me as redes sociais vindas de Angola e Moçambique tem sido impressionante… Porque o Informação ao Núcleo foi um disco de culto lá.

Quando é que tiveste noção desse impacto, do culto que o álbum ganhou lá? Suponho que tenha sido um processo gradual.

Nos primeiros anos eu só ouvia histórias. Até que ouvi uma história que nos foi contada pelo Bob da Rage Sense, de que foi levada uma cassete do Informação ao Núcleo para Luanda e que nas ruas foi mostrado e que depois se alastrou como um vírus. Na altura em que estava a surgir o horrorcore lá… E depois de eu ir a Luanda actuar é que tive a confirmação de todas as histórias que me contavam. Foi realmente um disco de culto lá e foi muito bonito presenciar isso.

E estavas à espera do impacto que este anúncio teve?

Sinceramente, não… Não estás a imaginar a quantidade de mensagens que estou a receber lá de fora, de Angola e Moçambique. E é engraçado: como te disse, passei meses a vasculhar as minhas pastas antigas e a descobrir montes de pesquisas do universo do terror porque sempre fui fã de bandas sonoras de filmes de terror e foi ao desenterrar essa minha colecção que isto foi crescendo novamente em mim. E nas minhas viagens de carro com o meu filho todos os dias temos uma viagem de uma hora de carro e juntos ouvimos a nossa música e quando comecei a ouvir o Informação ao Núcleo o meu filho lembrou-se que já o tinha ouvido há uns anos e começou a arrepiar-se com músicas como a “Anikilação (Adversários)” ou a “Neuroma”. E foi num dia de manhã que ele me disse: “pai, olha o meu braço”. Ele estava todo arrepiado com o disco. “Pai, tens que voltar a fazer isto”. E foi aí que tomei a decisão. Sem dúvida, filho, vai haver um Informação ao Núcleo 2 e está decidido. 

E este impacto que dizias que não esperavas, de receberes muitas mensagens, também é importante para ti, perceberes que há muitos fãs e produtores que esperam novidades tuas na música?

Claro, e recebi mensagens muito bonitas. Houve um que me disse que ia adiar o casamento dele para 2025 por causa do disco [risos]. Houve outro que disse que andava a pesquisar os discos, à procura de uma frase para fazer uma tatuagem, mas que vai adiar porque vai esperar pelas frases deste novo disco. Há coisas assim muito engraçadas. E é bom saber que o pessoal está do lado de lá. Às vezes uma pessoa esquece-se e pensa que os anos passam, que os fãs ficaram desatentos. Mas não, eles estão do lado de lá. E isso é a prova de que nós fazemos música intemporal. E com Dealema é a mesma coisa. Quando te apercebes de que passados 10 ou 15 anos tens pessoas a sentir as tuas rimas e à espera, com fome, que tu faças algo de novo, é a prova de que realmente fazes música intemporal.


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