Manta Amniótica: uma iniciativa que propõe repensar as “relações emocionais” que temos com a música

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Nesta sexta-feira (29 de Dezembro), o Teatro Ribeiro Conceição, em Lamego, transforma-se num dormitório gigante. Contudo, se o objetivo até é dormitar, os sonhos serão encantados com uma banda sonora específica. A partir das 22h, 12 horas de música apaziguarão os sonhos e pesadelos do público que se aventurar nesta viagem — e sim, no final há pequeno-almoço para todos.

A iniciativa, denominada Manta Amniótica, propõe-se a desafiar não “apenas a música, mas também as relações emocionais que temos com ela, especialmente durante o sono”, refere o comunicado partilhado com a imprensa. Além disso, a proposta da iniciativa levada a cabo pela combustão lenta records, propõe-se a redefinir “a perceção tradicional do teatro, transformando o palco num espaço íntimo, quanto possível.”

As 12 horas de música serão proporcionadas pelo seguinte leque de músicos: Sal Grosso, Aires, Bernardo Álvares, Quatroconnection, Paulo Vicente, twistedfreak e Ricardo Cabral. Os últimos bilhetes para o evento (custo: 12,50€) encontram-se à venda no site do Teatro Ribeiro Conceição.

O Rimas e Batidas trocou algumas impressões com Sal Grosso sobre a iniciativa, meros dias antes desta manta se revelar ao mundo.



A ideia para o projeto Manta Amniótica traz logo à cabeça as performances do Max Richter do Sleep ao vivo. Além dessas performances, houve mais algum projeto do género que inspirou a ideia para a Manta Amniótica?

Definitivamente o Robert Rich. Diria até que é ele a maior inspiração para esta Manta Amniótica. Já não me lembro exatamente como, mas há vários anos que eu e o meu irmão descobrimos o trabalho musical dele e, logo a seguir, percebemos que ele foi o pioneiro destes concertos para dormir, ali no início dos anos 80. A ideia dele era perceber se seria possível influenciar o sono com estímulos auditivos, portanto havia uma preocupação quase científica que também queremos trazer para a Manta Amniótica. Também gosto imenso do trabalho do Max Richter, embora o entenda mais como uma experiência de performance duracional (que obviamente também nos interessa enquanto músicos); parece-me que as intenções iniciais do Robert Rich se alinham mais com as nossas. E claro que o universo de zonas chill out em raves/discotecas também acabam por ser uma influência, embora essas costumem existir como contraponto a uma certa saturação e nós queremos criar um espaço calmo, estável e totalmente focado no sono e conforto das pessoas.

Enquanto andava a “estudar” para a Manta Amniótica, também acabei por descobrir que há um grupo de músicos e compositores na Nova Zelândia que criaram uma peça chamada “To Sleep” que bate exatamente nos mesmos objetivos da Manta. Quem sabe se daqui a uns anos não fazemos um intercâmbio.

O alinhamento da noite é construído de amigos e conhecidos da cena de música exploratória portuguesa. A cumplicidade existente entre os artistas pode ajudar a que as composições apresentadas fluam melhor entre elas para que a experiência nunca deixe de ser imersiva?

Esperamos que esse seja o caso, sim. Todos os artistas convidados para esta noite já tocaram juntos ou já fizeram parte do mesmo cartaz. Portanto, há uma familiaridade que nos deixa muito à vontade em relação ao estado de espírito que vamos encontrar em palco. E o mesmo se pode dizer em relação à música que fazemos: somos todos fãs e praticantes dessa música mais exploratória e experimental, portanto estamos alinhados em relação às sensibilidades uns dos outros e às nossas intenções para aquelas doze horas.

O comunicado partilhado com a imprensa refere que cerca de “90% do repertório” que vai ser tocado será exclusivamente criado para esta noite. Como vai funcionar o processo de composição e que grau de improvisação irá ocorrer durante os concertos dessa noite?

Em relação à composição, imagino que vá ser diferente para todos. Acho que vamos ter todos que adequar o que fazemos à hora a que subirmos ao palco, isso parece-me certo. Não posso falar pelos outros, mas no meu caso tenho uma pequena estrutura definida à volta da qual vou improvisar todo o concerto. Mas se calhar a Carla Santana (aka Quatroconnection) vai improvisar tudo no momento, veabis&tubbhead quase de certeza também (até porque é um duo aberto e pensado para tocar com outros músicos…). Como estamos a falar de vários momentos sucessivos e não de um momento único, acredito que cada concerto vai ter um grau de improvisação que nos permita obedecer à ideia de que, nesta noite, a música é para fazer dormir.

Imagino que os próprios concertos tentarão captar o progresso da uma noite. Poderão existir momentos em que a música pode aproximar-se de barulho de fundo para sono profundo, mas de manhã as composições podem soar mais alegres e energéticas, de modo a soar ao início de um dia. Que relação pode-se criar entre esses momentos e as composições num espetáculo como é o da Manta Amniótica?

Nós ainda vamos ter alguns dias para preparar o palco e definir o alinhamento final, mas esse é, de facto, o nosso objetivo principal. Queremos que as composições acompanhem o passar das horas, ficando mais lentas e menos “barulhentas” ao longo da noite para depois começarmos a despertar nas primeiras horas da manhã. Isto sempre acompanhado de um jogo de luzes cuidado, que também vai ser desenhado de forma a embalar as pessoas em palco.

O Max Richter dizia que “não existia qualquer regra” para assistir a uma performance do Sleep. Para a Manta Amniótica, imagino que o mesmo se estabeleça. Que recomendações deixas a quem tem interesse em vir assistir às performances?

A principal recomendação que posso deixar é que tragam um saco-cama e roupa confortável para conseguirem relaxar e dormir sempre que vos apetecer. Esse é o objetivo principal da noite e vamos ter o palco coberto com colchões para toda a gente poder ter um espaço para descansar. Também recomendo que tragam água e pequenos snacks para a noite — é verdade que vamos oferecer pequeno-almoço, mas a noite dura 12 horas e mais vale virem preparados. E deixem-se dormir, para compensar todas as vezes que quiseram fazê-lo no escurinho de uma sala, mas tiveram vergonha. Nós não nos importamos!


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