ProfJam na Aula Magna: Portugal já viu um concerto de rap assim?

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2024 ainda vai no início, mas já se está a revelar um ano de consagração para muitos dos rappers mais marcantes e populares da última década, que apareceram com estrondo no início dos anos 2010. Piruka e Dillaz estão em nome próprio nos coliseus, Slow J prepara-se para concretizar um feito histórico após ter esgotado por duas vezes a Altice Arena, e ProfJam optou por um passo mais conceptual do que grandioso para duas apresentações especiais de Música de Intervenção Divina, o disco que editou no ano passado.

Parecia estar escrito nos astros. Que sítio melhor para o “prof dos putos da nova gen” se apresentar do que na Aula Magna, em plena alameda das universidades, no edifício da reitoria? Este estudioso da palavra e da melodia, que ao longo dos anos fez escola no meio, veio entregar uma das suas melhores performances (se não for mesmo a melhor) aos vastos discípulos e seguidores que tem acumulado.

Ver Mário Cotrim descer a longa escadaria ao fundo do palco e dirigir-se à plateia é como assistir a uma espécie de semi-deus a descer dos céus. Figurino completamente negro, colete à prova de bala; cabelo dividido ao meio, entre o azul e o vermelho. São tons e facetas que têm marcado a persona de ProfJam há muito tempo, desde o videoclipe de “Matar o Game” ao SYSTEM inspirado por Matrix, passando logicamente pela capa de MDID. Irá Mário aceitar o comprimido vermelho ou o azul? As tentações, a obsessão e o negrume de um lado; o lado mais luminoso e religioso do outro. Talvez estejamos todos nessa dualidade, como reflecte a cabeça dividida ao meio de Cotrim. Afinal, ProfJam engoliu os dois comprimidos quando resolveu “Matar o Game”.

Do princípio ao fim, o concerto foi uma apresentação fidedigna de Música de Intervenção Divina, um disco denso, enérgico e pujante que aqui ganhou uma outra vida. Os arranjos magistrais envolveram os teclados, guitarras e percussão dos 2LO, a dupla de produtores-instrumentistas formada por Gonçalo Lemos e Leonardo Pimenta que foi decisiva para o som deste álbum e também para este concerto; mas também, em vários dos temas, a presença de um quarteto de cordas dirigido pelo maestro Tiago Matos. 

Tudo saiu enaltecido: as subtilezas, a tensão, a vertigem. Cada elemento sentiu-se mais intensamente, muito também graças ao excelente trabalho de som realizado pela equipa técnica. Aliás, assistimos a poucos concertos de trap em Portugal com um som tão bom e tudo, em termos técnicos, foi executado de forma irrepreensível, com as luzes a assumirem uma preponderância excepcional.

De resto, foi um show de ProfJam do início ao fim. Com uma forte componente teatral e cénica, Mário Cotrim deu tudo o que tinha para dar. Tocou guitarra eléctrica, ocupou momentaneamente a figura de maestro, foi personagem de cenários construídos em cima do palco, atirou páginas do seu livro profético, provou ser o performer nato que já lhe reconhecíamos ser. A sua fisicalidade torna-o quase num actor a interpretar uma peça o texto, longo e voraz, vem da sua mente, cantado a plenos pulmões. Num equilíbrio entre momentos altos e baixos, houve espaço para o balanço de “Dakar”, o momento mais solene de “Cabaret” ou a robusta batida electrónica de “Nada Me Falta”.

Todo o espectáculo foi meticulosamente preparado e estava notoriamente cronometrado ao milímetro ProfJam só quebrou mesmo a quarta parede quando, por breves momentos ao longo da noite, se dirigiu ao público, efusivo e deslumbrado, sentado para absorver melhor esta Música de Intervenção Divina transformada em performance. O amor era recíproco e gritou-se “Mário” em vez de “ProfJam”, tal não era a sensação de familiaridade. 

É o tipo de concerto que só alguém com muita dedicação, profissionalismo, ambição e brio pode fazer além de, claro, ser essencial ter a equipa-chave a trabalhar nos bastidores. Num mundo tão repleto de egos e como é que o conseguimos conter quando temos milhares de pessoas a chamar pelo nosso nome? ProfJam serviu sempre o público, priorizando sempre a experiência de quem estava a assistir, prestando vénias quando tudo apontava para que elas se curvassem em sentido contrário.

Um dos momentos superiores foi a interpretação de “Saca Lá” ao piano, com três street bikers dos Wheelie GADS a efectuarem as suas manobras arrojadas pelo palco adentro. Nunca a Aula Magna viu nada assim, apostamos, e talvez o próprio hip hop português. Naturalmente, não são precisos grandes artifícios ou pormenores de entretenimento para que um concerto seja realmente bom o que importa, no fim de tudo, será sempre o sentimento de comunhão e a força de cada mensagem; e a simplicidade pode ser uma virtude , mas o rap nacional já pedia espectáculos à séria, algo que tem vindo a ser cada vez mais uma aposta, mas que aqui poderá ter ganho uma dimensão distinta. 

E quem melhor para isso do que ProfJam, alguém que esteve sempre, desde que apareceu, na crista da onda, reinventando-se e revolucionando o game, tornando-se uma referência para tantos, arriscando a cada passo que dá do cinema à dança, passando por tudo o que fez na Think Music. O reconhecimento é devido e só temos pena que mais pessoas não consigam ter visto este concerto. Felizmente, foi registado para a posterioridade pelas câmaras mas, seguramente, também na mente de todos os que lá estiveram.


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