Festival Porta-Jazz’24 — Dia 1: aqui, num presente mais que perfeito

5 meses atrás 158

Eis-nos reunidos, todas e todos os que fazem este festival acontecer pela 14ª vez, a criar novos tempos, até verbais, para conjugar um presente preciso — significado de surpresa e mais ainda de necessidade. Juntar para formar a comunidade, que anda dispersa no seu dia-a-dia, que reunida se mostra plena de existência, somos nós cada elemento que aqui se encontra. Jazz é partilha, em palco, entre músicos, na plateia, num pedaço de chocolate que se recebe do companheiro de lugar entre os dois concertos da noite de abertura oficial do Festival Porta-Jazz no Teatro Municipal Rivoli, no Porto. Viemos, também, porque precisamos muito de alimento, para a alma, que se atropela e empobrece na erosão dos dias lá fora. Aqui, afinamos as relações com honestidade e generosidade, entre sorrisos e abraços, afinamos os modos de ser pelo mesmo diapasão — a música jazz.

E de estados de alma se construiu o efectivo arranque da noite de concertos no Rivoli, com Alma Tree — trio de bateristas composto por Ra Kalam Bob Moses, Pedro Melo Alves e Vasco Trilla. O lendário nova iorquino Bob Moses é um músico celeste, que toca no lugar onde já há muito ascendeu. O próprio define: “… posso tocar coisas terrenas e posso tocar coisas aéreas. Sou um baterista do céu que começou como baterista da terra” — como deu conta Rui Eduardo Paes, neste espaço em 2022, aquando da estreia em palcos deste então recém-formado trio de criadores percussionistas. O portuense Melo Alves, já nem sabe é como estancar a avalanche de ideias musicais, tornadas em muitas partilhas e combinações. Foi ainda ele que teve fôlego, no final do concerto, para contar ao público a razão de ser deste trio. O luso-catalão Trilla, vindo dos campos do black metal, tem sedimentado cumulativas camadas nos domínios do jazz mais criativo, e a edição em duo com Bob Moses em Singing Icons (Astral Spirits), aponta o caminho para a tal ascensão que o mestre percorreu. A três, aqui chegados e depois da seminal digressão lusitana no Maio de ’22, fazem agora a apresentação de Sonic Alchemy Suprema (99º título do catálogo Carimbo Porta-Jazz) que aos primeiros momentos faz jus ao nome escolhido. O supremo aqui, é devido além do lugar desde onde toca Bob Moses, ao muito acima do restante, lugar-comum, como também da maior importância pela música praticada. São três personas musicais que se juntam para formar uma amálgama libertária, não caótica, de tronco comum com ramificações nas idiossincrasias sonoras e dispositivos montados em torno de cada bateria. São, antes de mais, esculturas sonoras, com a dimensão humana na força motriz, ao invés do automatismo motor. Sendo precisamente desde esse núcleo que se desprende a alma, como frutos desta árvore. Bob Moses, toca de mãos e pés livres, anda descalço sobre os pedais dos dois bombos de chão e os dedos das mãos são as baquetas directas nas peles e pratos. É um tocar levitando, xamânico, de ritualização que acompanha com o seu vozear, convocando em volta. Trilla condensa, toca preciso, entre cadências que marcam o tempo e apontam para as linhas de fuga. Traz consigo dispositivos que, apenas no olhar, nem imaginamos como soam — duas esferas de esferovite, ocas e suspensas a exemplo. Melo Alves aproveita e preenche as reentrâncias que fendem, ali no lugar, e usa a multitude do mundo ressonante em redor, é libertador desde logo no ver acontecer. Em trio resulta numa emanação em contínuo, num sopro, que ora expande ora retrai, como em murmúrios nos céus. Como também soam ao ramalhar das árvores, quando as escovas de Melo Alves imaginam e desenham padrões sonoros no ar… E a isto juntam-se três imprescindíveis vozes à cena — Julius Gabriel, José Soares e João Pedro Brandão — em saxofones, um tenor e dois altos, em uníssonos drones. A dimensão que faltava, ou sem saber da falta que fazia até então, fez do palco o lugar de cura. Na acção da passagem do tempo sobre a matéria, que somos nós, foi o purgar de maleitas trazidas até ali. Tudo pareceu como um sopro, um suspiro, um murmúrio. Foi fundamental estar presente.



Como aqui tudo se faz com sinceridade e paixão, vemos desmontar o cenário das três baterias e a transição para os quatro saxofones, baixo e bateria que se seguiram. Mudança de palco às claras, sem truques cénicos, para que quando se batem palmas a músicos se saiba dos rostos de técnicos que as merecem em igual medida, imprescindíveis no fazer acontecer.

Axes em palco, que são formados pelas vozes dos quatro naipes idealizados por Adolphe Saxe, o inventor do instrumento. Tocando sopranino, João Mortágua, alto José Soares, tenor Hugo Ciríaco e barítono Rui Teixeira, juntamente com Filipe Louro no baixo eléctrico e Pedro Vasconcelos na bateria e percussão. Os seis músicos formam um grupo em palco e em disco — e vão dois editados pela Carimbo Porta-Jazz, o debutante e homónimo de 2017 e já no ano passado com Hexagon, os vértices de uma música configurada nos eixos estabelecidos entre si. Razão para a geometria (dos sons) justificar a linguagem ilustrativa em palavras e nas estéticas idealizadas por Maria Mónica nas capas dos discos. O concerto foi inteiramente marcado pela passagem, igual na sucessão, dos temas do disco último. E são mesmo os passos sucessivos para se desenhar um hexágono final, desde a linha, o ângulo, o triangulo, a passagem ao quadrado, pentágono, até à figura de seis lados. Em “Line” vemos surgir toda a matéria-prima disponível para a construção geométrica, uma articulação desde harmonia plena das quatro vozes tímbricas, que são balançadas sem pestanejar pela linha continua baixo-bateria. Uma vez envoltos nesta linguagem, surge “Angle”, tema onde passam a explanar os múltiplos ângulos possíveis, entre solos de soprano, que remetem para um imaginário circense, em tantos e divertidos momentos e muito enfatizados pela tarola expressiva de Vasconcelos. “Triangle” dá aso ao quarteto de palhetas de começar em cânones, vemos o mesmo fraseado a passar de saxofone, do sopranino ao barítono, numa linguagem de belo efeito. Mas como a música deste sexteto é feita de muita perspetiva e mudanças, logo se passa ao registo parodiante e até de cariz satírico que vai caracterizando a obra que Mortágua vai compondo. Soberbos os solos nos sopranos suportados pelo contraste grave no amparo do barítono de Teixeira. Alcançam outros momentos de planura sonora revestidos por pontuações nos címbalos de Vasconcelos. Este baterista faz as despesas de arranque em “Square”, a ele se devem os primeiros e enigmáticos sons ouvidos de olhos fechados, sons de retaguarda, perante as vozes que em seguida se levantam, e que definem o quarteto de palhetas neste quadrado sonoro. Geometria para o alto de Soares voltar a soar maior ainda, ele que contou com dupla prestação na noite, estando em ambos os concertos. Este tema conta com réplicas de solos intervalados dos três naipes, e o barítono de Teixeira sempre a garantir a rede fulcral, terminam num desprendimento total sonoro de fazer levantar das cadeiras. Em “Pentagon”, tal como em disco, surge num contemplativo e é mais que merecida redenção à prestação musical. Tema da maior doçura harmónica destes naipes, e tempo para o baixo de Louro descer a escala e mostrar do que é feito. Derretimento emotivo, desde uma plateia ao encanto que surge de palco. “Hexagon”, tema-título do álbum e desfecho de concerto, é desenhado para se levar para casa a trautear, e talvez para isso mesmo o começo tão familiar para a geração que viveu os anos noventa com banda sonora vinda de Seattle, como estes músicos certamente. Os primeiros segundos são o fraseado do “Come as You Are” dos marcantes Nirvana. Como música para os ouvidos a fazer despertar sorrisos entre muitos dos presentes. Mas trataram estes músicos de marcar logo outro rumo, por caminhos trilhados por cada solo que permitiu definir a evidência do hexágono a seis. Músicos, linhas, ângulos, vértices preenchidos por entusiasmo desempenho musical até transbordar.

Foi disto feito o primeiro bloco, há mais seis porvir deste “Multiverso de Jazz e Criação”.


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