Prétu no Teatro do Bairro Alto: música de combate para tempos de guerra numa revolução sonora

5 meses atrás 140

Num tempo em que assistimos a uma polarização na nossa sociedade, em que o discurso de ódio emerge das sombras, em que as desigualdades sociais aumentam, em que inúmeros países continuam a viver às custas dos territórios que colonizaram no passado, não poderia haver melhor altura para Xullaji se reinventar como Prétu. A nova encarnação artística deste que já era um dos mais fundamentais rappers lusófonos carrega essa bagagem do passado, mas leva-a por novos caminhos: no pensamento pan-africanista, nas letras acutilantes, nas formas musicais distintas e exploratórias.

Por outro lado, é apenas o prolongamento da luta de tantos mártires, ícones que ficaram pelo caminho e cuja missão ficou por concretizar de forma definitiva. Amílcar Cabral é, claro, uma dessas referências que estão bem vivas na obra de Prétu. Os problemas podem ter outros nomes, os adversários outros rostos, a forma como se apresentam pode ser diferente, mas a luta persiste, pois os sistemas de opressão se mantêm em grande parte. E ainda há quem os queira reforçar de forma descarada. Para muitos, os tempos não estão mais difíceis: sempre o foram, de uma maneira ou outra. E é necessário lutar para forçar essa mudança de paradigma, chamando a atenção, fazendo ver a outra face da moeda.

O álbum Prétu 1 – Xei di Kor, editado em Outubro com o selo Tchadaelektro, foi indubitavelmente um dos discos do ano de 2023. Três meses depois, o manifesto político sonoro chegou ao palco: o concerto de apresentação aconteceu esta sexta-feira, 19 de Janeiro, no Teatro do Bairro Alto, em Lisboa.



Não esperávamos menos de Prétu. Com uma consciência multidisciplinar e uma maturidade notória, Xullaji apresentou-se com uma banda composta por Henrique Silva (guitarra e teclado), Mick Trovoada (percussão), Alesa Herero (voz) e Raquel Levy (voz). Ao centro, e na retaguarda do palco embora tenha vindo de tempos a tempos assumir-se como o frontman nato da performance , Xullaji no microfone e na bateria. Pelo meio ainda recebeu os instrumentistas convidados John D’Brava (cavaquinho) e Braima Galissa (kora), mais a voz calorosa de Ilda Vaz.

Não houve surpresas no alinhamento. O álbum foi tocado na íntegra do início ao fim, com poucos momentos de pausa entre temas, e só ganhou uma vida maior por estar no palco. Os vídeos complementaram da melhor forma as canções, alguns até foram projectados de forma surpreendente na frente de palco, proporcionando uma experiência visual singular. Por cima das tábuas, a performance de dança de Lucília Raimundo trouxe sensação e frenesim ao Teatro do Bairro Alto. Por acessibilidade, as letras foram transmitidas num pequeno ecrã por cima do palco, o que também ajudou à compreensão das rimas aceleradas (e em crioulo) de Xullaji, reforçando o peso da sua mensagem desconcertante, fazendo-a chegar de forma mais directa ao destinatário.

Materializando por completo o disco ao vivo, a performance arrebatadora de Prétu e companhia só não foi perfeita porque não contou com todos os convidados do disco em palco. Apenas Landim esteve no Teatro do Bairro Alto, mas a presença de Lowrasta, Scúru Fitchádu, Tristany Mundu, Cachupa Psicadélica e Dino D’Santiago (que leque!) fez-se sentir através dos vídeos que completaram o espectáculo.

A banda deu corpo aos temas que evocam a tradição musical dos países africanos lusófonos mas que a levam por terrenos experimentais, recheados de um noise muito intencional, que coexiste em simbiose com as mensagens urgentes que Prétu tem para transmitir com este disco vanguardista.

O lugar de onde vêm é de uma profunda angústia, de quem já passou por muito, viu outro tanto e reflectiu uma e outra vez sobre o porquê de as coisas serem como são. Xullaji parte desse lugar de sabedoria, de quem estudou o assunto para agora o apresentar de forma desconstruída. Desconstruir é o verbo-chave para assimilar o discurso de Xullaji, que, inconformado, rasga os preceitos que regem muito do mundo que vivemos, que os distorce e os contorciona até eles ficarem claros, como aquilo que são. 

A revolução nunca será um tweet como diz na extraordinária e derradeira faixa do disco, que actualiza a velha máxima de Gil Scott-Heron e a desconstrução do pensamento colonizador, pois é isso sobretudo de que falamos, também será lenta e permanente. A luta continua, pois ainda há tanto por fazer e novos obstáculos que se colocam a cada dia que passa.

A perspectiva densa de Prétu é tão importante que cada teatro deste país deveria receber uma performance destas. Certamente provocaria ondas de choque, mas é mesmo desse abalo de que todos precisamos, de alguém que venha com um ponto-de-vista diferente do padrão pois são ainda tão poucas as vozes desta imensa minoria com lugar de fala na nossa sociedade para agitar as nossas convicções e questionar o status quo (o mais e o menos óbvio). Não é um murro no estômago, é uma carga de porrada. Envolta em instrumentais endiabrados que vão fazendo subir os níveis de adrenalina, com letras de revolta, geralmente ácidas e que revelam mágoa, por vezes esperançosas e até sarcásticas.

Xullaji não parece falar apenas para um grupo específico. Somos todos o destinatário, no fundo. Dirige-se aos brancos privilegiados que, por vezes, mesmo com boas intenções, só reforçam as lógicas de colonialismo e poder quando se relacionam com negros ou outras pessoas racializadas (e as suas culturas). Fala, evidentemente, mesmo que sem grandes esperanças, para aqueles que contribuem de forma consciente para esse sistema opressor. Pensa nas grandes instâncias e poderes quando aponta o dedo à Europa por não saber lidar com a crise de refugiados que provocou em grande parte. Deixa-nos todos a duvidar sobre o sistema em que vivemos quando põe lado a lado as ambições capitalistas da nossa sociedade e a miséria em que vive grande parte do mundo. Fala para os rappers contemporâneos que, muitas vezes supérfluos ou apáticos, abdicaram de ter uma voz política. Aborda o tema das relações superficiais, muitas vezes baseadas em redes sociais digitais, que contribuem para a alienação e para o desapego. E dirige-se aos seus irmãos que precisam de ganhar consciência, e às irmãs que devem reforçar a auto-estima depois de séculos de violência. Descolonizar e desconstruir são as palavras de ordem nesta música de combate que serve de combustível para a revolução que necessita de ser alimentada diariamente seja nos palcos, nas ruas ou em disco. Agora já existe uma banda sonora adequada para a linha da frente.


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